Retatrutida: o que sabemos até agora?

A retatrutida, agonista triplo dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon, vem demonstrando resultados expressivos no tratamento da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2 (DM2).

Dados de ensaios clínicos de fase 3 reforçam os resultados observados anteriormente e apontam para reduções significativas do peso corporal, melhora do controle glicêmico e benefícios em diferentes parâmetros cardiometabólicos.

Os resultados variam conforme a população estudada, a dose utilizada e o tempo de acompanhamento. Entre os achados de maior destaque estão a perda de peso de até 25% em adultos com obesidade sem diabetes e a redução da hemoglobina glicada (HbA1c) em pacientes com DM2.

Retatrutida para obesidade: estudo de fase 3 demonstra perda de peso de até 25%

No estudo TRIUMPH-1, que incluiu 2.339 adultos com obesidade sem diabetes, os participantes receberam retatrutida ou placebo durante 80 semanas.

A redução média do peso corporal foi de 17,6% com a dose de 4 mg, 23,7% com 9 mg e 25,0% com 12 mg, em comparação com 3,9% no grupo placebo. As diferenças entre os grupos tratados e o placebo chegaram a 21 pontos percentuais, com significância estatística (p < 0,001).

Além da perda de peso, o estudo avaliou desfechos relacionados à funcionalidade e a condições frequentemente associadas à obesidade.

Entre os participantes com osteoartrite de joelho, a retatrutida promoveu redução significativamente maior da dor, avaliada pela escala WOMAC. Já nos pacientes com apneia obstrutiva do sono, houve redução adicional de 21,9 a 24,4 eventos por hora no índice de apneia-hipopneia, em comparação com o placebo (p < 0,001 para os desfechos relatados).

Os eventos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, em linha com o perfil observado em outras terapias com ação incretínica.

 

Retatrutida e diabetes tipo 2: perda de peso e melhora do controle glicêmico

O estudo TRIUMPH-2 avaliou pacientes com obesidade e diabetes tipo 2 durante 80 semanas. Nessa população, a redução ponderal também foi expressiva, embora numericamente inferior à observada em adultos com obesidade sem diabetes.

Entre os participantes com índice de massa corporal (IMC) ≥ 35 kg/m², a perda de peso chegou a 21,9% com a dose de 12 mg, em comparação com 3,8% no grupo placebo.

Conforme a dose utilizada, entre 54% e 75% dos participantes alcançaram redução de pelo menos 10% do peso corporal.

Os benefícios não se limitaram à perda ponderal. O tratamento também foi associado a melhorias na HbA1c, na glicemia de jejum e na circunferência abdominal. Foram observadas, ainda, reduções de até 56% na proteína C-reativa de alta sensibilidade, além de melhora do colesterol não HDL.

Os resultados incluíram alterações em parâmetros renais, com aumento da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e redução da relação albumina-creatinina urinária.

Esses achados são relevantes para a investigação dos possíveis efeitos da retatrutida sobre o risco cardiometabólico e renal, mas não devem ser interpretados isoladamente como demonstração de proteção renal clínica.

paciente em consultório realizando medição da circunferência abdominal, principal critério do NCEP-ATP III

Retatrutida e HbA1c: resultados em pacientes com diabetes tipo 2

O estudo TRANSCEND-T2D-1 investigou a retatrutida em monoterapia durante 40 semanas, em pacientes com diabetes tipo 2 cujo controle metabólico era inadequado apenas com dieta e exercício.

A redução da HbA1c chegou a 1,9 ponto percentual (21,2 mmol/mol). Ao final do acompanhamento, entre 82% e 89% dos participantes atingiram HbA1c inferior a 7,0%, enquanto 35% a 40% alcançaram valores abaixo de 5,7%.

Mais da metade dos participantes atingiu o desfecho composto de HbA1c ≤ 6,5% associado à perda de pelo menos 10% do peso corporal. Não foram registrados episódios de hipoglicemia grave no estudo.

Esses resultados sugerem que a retatrutida pode promover benefícios simultâneos sobre o controle glicêmico e o peso corporal. A interpretação, entretanto, deve considerar as características da população estudada, a duração do acompanhamento e a ausência de comparações diretas com outras terapias no desenho apresentado.

 

Retatrutida e risco cardiovascular: o que mostram os biomarcadores?

Além dos efeitos sobre o peso e a glicemia, análises post hoc identificaram reduções dependentes da dose em diferentes lipoproteínas aterogênicas e marcadores inflamatórios.

Entre os parâmetros avaliados estão o colesterol não HDL, a apolipoproteína B (ApoB), a apolipoproteína C-III (ApoC-III), o LDL e as partículas pequenas de lipoproteínas ricas em triglicerídeos (TRLs). Também foram observadas reduções de marcadores inflamatórios, como a PCR e a interleucina 6 (IL-6).

A magnitude de algumas dessas alterações foi potencialmente superior à observada em estudos com agonistas seletivos do receptor de GLP-1 e, em determinadas comparações, com a tirzepatida. No entanto, diferenças entre populações, desenhos de estudo e métodos de análise limitam as comparações indiretas entre medicamentos.

É importante destacar que a melhora de biomarcadores não comprova, por si só, a redução de eventos cardiovasculares. O estudo TRIUMPH-OUTCOMES (NCT06383390) foi desenvolvido para investigar desfechos cardiovasculares e contribuir para esclarecer se os efeitos metabólicos observados se traduzem em benefícios clínicos.

 

Retatrutida: quais são os efeitos adversos e os riscos?

O perfil de segurança da retatrutida é caracterizado principalmente por eventos adversos gastrointestinais, como náusea, diarreia, vômito e constipação, geralmente leves a moderados e mais frequentes com o aumento da dose. Esses efeitos são semelhantes aos observados com outros medicamentos incretínicos, como semaglutida e tirzepatida.

Nos estudos de fase 3, a diarreia atingiu 34% dos participantes com obesidade e diabetes tipo 2, enquanto a náusea chegou a 42,4% na população com obesidade sem diabetes, ambos nas doses mais elevadas avaliadas. A descontinuação do tratamento por eventos adversos também foi observada, com variação conforme a dose e a população estudada.

Além dos sintomas gastrointestinais, foram relatados eventos de interesse, como disestesia e hipotensão ortostática, mais frequentes nas doses elevadas. Esses achados reforçam a importância de acompanhar a tolerabilidade e investigar a segurança em longo prazo.

Embora os resultados sejam compatíveis com o perfil de outras terapias incretínicas, ainda são necessários dados adicionais para caracterizar os riscos menos frequentes e os efeitos da exposição prolongada à retatrutida.

uso de caneta injetável no tratamento da obesidade

Retatrutida já foi aprovada?

A retatrutida permanece em investigação clínica e ainda não possui aprovação da Food and Drug Administration (FDA) para uso clínico. Seus resultados não devem ser confundidos com os de medicamentos já aprovados para o tratamento da obesidade ou do diabetes tipo 2.

Os estudos em andamento deverão esclarecer melhor sua eficácia em diferentes populações, seu perfil de segurança e seus possíveis efeitos sobre desfechos clínicos cardiovasculares e metabólicos.

 

Infográfico sobre Retatrutida e seus efeitos

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Referências:

Jastreboff AM, et al. Retatrutide, a Triple Hormone Receptor Agonist, for Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2026 Sep 29. doi: 10.1056/NEJMoa2604169.

Bellido V, et al. Retatrutide in adults with obesity and type 2 diabetes (TRIUMPH-2): a double-blind, parallel-group, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet. 2026 Oct 10;408(10563):1455-1472. doi: 10.1016/S0140-6736(26)01861-1.

Bajaj, H. S., et al. (2026). Efficacy and safety of retatrutide, a GIP, GLP-1, and glucagon receptor agonist, in people with type 2 diabetes and inadequate glycaemic control with diet and exercise (TRANSCEND-T2D-1): a double-blind, randomised, phase 3 trial. Lancet (London, England), 407(10546), 2402–2413. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)00967-0

Ruotolo, et al., “Retatrutide-Associated Improvements in Cardiovascular Risk Biomarkers in Adults With Obesity With or Without Type 2 Diabetes,” Diabetes, Obesity and Metabolism 28, no. 11 (2026): 10183–10194, https://doi.org/10.1111/dom.71200.

Crisafulli S, et al. Comparative Gastrointestinal Safety of Dulaglutide, Semaglutide, and Tirzepatide in Adults With Type 2 Diabetes. Ann Intern Med. 2026 Jan;179(1):1-11. doi: 10.7326/ANNALS-25-01724.

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