

A dosagem sérica do CA 15-3 é um dos exames mais conhecidos no acompanhamento do câncer de mama. Durante décadas, esse marcador tumoral foi utilizado para monitorar a resposta ao tratamento e auxiliar na detecção de recorrências.
Entretanto, o avanço das evidências científicas redefiniu seu papel na prática clínica. Atualmente, as principais diretrizes internacionais não recomendam o uso rotineiro do CA 15-3 para vigilância de pacientes assintomáticas após o tratamento do câncer de mama inicial.
Neste artigo, revisamos o que é o CA 15-3, suas indicações atuais, limitações e o papel do marcador no monitoramento da doença metastática.
O que é o CA 15-3 e qual a sua relação com o câncer de mama?
O CA 15-3 é uma glicoproteína da família das mucinas, derivada do gene MUC1, expressa por células epiteliais normais, especialmente do tecido mamário. Em indivíduos saudáveis, suas concentrações séricas costumam ser baixas ou indetectáveis.
No câncer de mama, especialmente em estágios mais avançados, ocorre aumento da liberação dessa proteína para a corrente sanguínea, permitindo sua detecção por métodos laboratoriais. Por esse motivo, o CA 15-3 passou a ser utilizado como marcador tumoral para avaliação da evolução da doença.
A elevação do marcador é observada em apenas cerca de 10% das pacientes com doença inicial, mas pode estar presente em aproximadamente 70% dos casos de câncer de mama metastático. Em geral, concentrações mais elevadas tendem a se correlacionar com maior carga tumoral.
Embora não seja um marcador suficientemente sensível para diagnóstico ou rastreamento, sua dosagem seriada pode fornecer informações complementares sobre resposta terapêutica e progressão da doença em cenários selecionados.
Quais são os valores de referência do CA 15-3?
Os valores de referência podem variar discretamente conforme o método laboratorial utilizado, mas, de modo geral, considera-se normal um resultado inferior a 30 U/mL (ou 30 kU/L).
Entretanto, a interpretação do exame exige cautela. Níveis elevados de CA 15-3 não são exclusivos do câncer de mama e podem ocorrer em diversas condições benignas, incluindo doenças benignas da mama, endometriose, lúpus eritematoso sistêmico, hepatopatias crônicas e cirrose.
Além disso, pacientes em tratamento oncológico podem apresentar aumento transitório do marcador nas primeiras semanas após o início de uma nova terapia, fenômeno que não necessariamente indica progressão tumoral.


O CA 15-3 pode ser usado para diagnosticar câncer de mama?
Não.
O CA 15-3 não apresenta sensibilidade suficiente para rastreamento, diagnóstico ou exclusão do câncer de mama. Como apenas uma pequena parcela das pacientes com doença inicial apresenta elevação do marcador, um resultado normal não afasta a presença da neoplasia.
Por esse motivo, seu uso não é recomendado como ferramenta diagnóstica, devendo ser interpretado apenas como exame complementar em situações clínicas específicas.
O CA 15-3 deve ser utilizado na vigilância após o tratamento do câncer de mama?
As diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO) recomendam que o seguimento de pacientes tratadas por câncer de mama inicial seja baseado principalmente em história clínica, exame físico e mamografia periódica.
Nesse contexto, não é indicada a solicitação rotineira de marcadores tumorais séricos, incluindo CA 15-3, CA 27.29 e CEA, em pacientes assintomáticas sem achados sugestivos de recorrência.
Essa recomendação se fundamenta em estudos que compararam estratégias de seguimento intensivo com biomarcadores e exames de imagem seriados ao acompanhamento convencional.
Embora o CA 15-3 possa se elevar meses antes do aparecimento de sinais clínicos ou radiológicos, não foi demonstrado que essa detecção antecipada resulte em melhora da sobrevida global ou de outros desfechos relevantes.
Apesar disso, a prática permanece heterogênea.
Alguns grupos especializados defendem que a elevação seriada do marcador pode auxiliar na identificação precoce de metástases assintomáticas em situações selecionadas. Ainda assim, as evidências atuais não sustentam seu uso rotineiro como ferramenta isolada de vigilância.
Qual o papel do CA 15-3 na doença metastática?
Atualmente, a principal aplicação clínica do CA 15-3 é o monitoramento do câncer de mama metastático.
Nessa situação, a dosagem seriada do marcador pode auxiliar na avaliação da resposta terapêutica e da evolução da doença, especialmente quando associada à história clínica, ao exame físico e aos exames de imagem.
Entretanto, o marcador não deve ser utilizado isoladamente para definir progressão tumoral ou determinar mudanças de tratamento. As diretrizes atuais reforçam que decisões terapêuticas não devem ser baseadas exclusivamente em alterações laboratoriais.
O CA 15 3 pode ser particularmente útil em pacientes com doença de difícil mensuração radiológica, funcionando como uma ferramenta complementar na avaliação global da resposta ao tratamento.
CA 15-3 elevado significa recidiva?
Não necessariamente.
Embora a elevação do CA 15-3 possa estar associada à recorrência do câncer de mama, o marcador possui sensibilidade limitada e não deve ser utilizado isoladamente para confirmar recidiva.
Estudos demonstram que aumentos séricos podem preceder o diagnóstico clínico ou radiológico em alguns meses e que níveis mais elevados costumam se correlacionar com maior carga tumoral. Entretanto, um resultado normal não exclui a presença de doença recorrente.
Em análises com PET-CT, uma parcela significativa das pacientes com recorrência confirmada apresentava valores de CA 15-3 dentro da faixa de referência. Da mesma forma, elevações do marcador podem ocorrer em condições benignas e não necessariamente representam progressão tumoral.
Assim, a interpretação do exame deve sempre considerar o contexto clínico e, quando necessário, ser complementada por métodos de imagem.


Principais limitações do CA 15-3
Como todo biomarcador tumoral, o CA 15-3 apresenta limitações importantes que devem ser consideradas na prática clínica:
- Não deve ser utilizado para rastreamento ou diagnóstico do câncer de mama;
- Possui baixa sensibilidade na doença inicial;
- Pode estar elevado em condições benignas, como doenças hepáticas, doenças autoimunes e endometriose;
- Pode sofrer interferência de anticorpos heterófilos, gerando resultados falsamente alterados;
- Pode apresentar elevação transitória após o início de terapias sistêmicas, sem representar progressão da doença;
- Os resultados podem variar conforme a metodologia laboratorial, dificultando comparações diretas entre diferentes laboratórios.
CA 15-3 ou CA 27.29: existe diferença?
Os marcadores CA 15-3 e CA 27.29 avaliam epítopos distintos da mesma glicoproteína, a MUC1, e apresentam desempenho clínico semelhante no câncer de mama.
Por esse motivo, não há benefício comprovado na solicitação simultânea dos dois exames. Na prática, ambos fornecem informações equivalentes para monitoramento da doença, sendo suficiente a utilização de apenas um deles.
Resumindo: quando solicitar o CA 15-3?
A solicitação do CA 15 3 deve ser individualizada e sempre interpretada dentro do contexto clínico da paciente.
Atualmente, seu principal papel está no acompanhamento do câncer de mama metastático, não sendo recomendado para rastreamento, diagnóstico ou vigilância rotineira de pacientes assintomáticas após o tratamento da doença inicial.
As principais situações em que o exame pode ser considerado incluem:
- Monitoramento da resposta ao tratamento em pacientes com câncer de mama metastático;
- Acompanhamento da evolução da doença avançada, em associação com avaliação clínica e exames de imagem;
- Auxílio na avaliação de pacientes com doença de difícil mensuração radiológica, como alguns casos de metástases ósseas;
- Complementação da investigação de suspeita de progressão ou recorrência, quando houver sinais clínicos ou achados de imagem sugestivos.
Quando utilizado, o marcador deve ser analisado de forma seriada. Em geral, tendências de elevação ou redução ao longo do tempo são mais informativas do que um resultado isolado, especialmente quando correlacionadas com os achados clínicos e radiológicos.


Conteúdo atualizado em outubro de 2026.
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Referências
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