

Acidente com material biológico: um dos principais riscos ocupacionais na saúde
Estima-se que ocorram cerca de 385 mil acidentes com perfurocortantes por ano em hospitais e, segundo dados do CDC, cerca de 20% de todos os profissionais de saúde em formação sofrem alguma exposição percutânea anualmente.
Enfermeiros, médicos e profissionais envolvidos diretamente em procedimentos invasivos estão entre os grupos mais frequentemente expostos a acidentes com perfurocortantes. As seringas descartáveis e as agulhas de sutura são os objetos mais envolvidos nas lesões.
Embora a profilaxia pós-exposição (PEP) seja o primeiro pensamento em caso de acidentes com material biológico, é necessário seguir um fluxo de ação, sendo a limpeza do local a primeira medida a ser realizada.
Quais infecções podem ser transmitidas após um acidente com material biológico?
Um acidente com material biológico pode expor o profissional de saúde a diversos agentes infecciosos. Mais de 30 microrganismos já foram associados à transmissão ocupacional após exposições percutâneas, mas os principais patógenos de preocupação são os vírus da hepatite B (HBV), hepatite C (HCV) e HIV.
A transmissão ocorre principalmente por contato com sangue e outros fluidos potencialmente contaminados. Embora menos frequentes, também foram descritos casos de transmissão de sífilis após acidentes com perfurocortantes.
O tétano merece atenção especial.
Diferentemente das infecções virais transmitidas pela pessoa-fonte, a infecção por Clostridium tetani ocorre pela contaminação da ferida a partir do ambiente ou do próprio objeto causador da lesão. Por isso, a avaliação do estado vacinal contra tétano faz parte da abordagem inicial após o acidente.
Diversos fatores influenciam o risco de transmissão, incluindo profundidade da lesão, volume de sangue inoculado, carga viral da pessoa-fonte e tipo de dispositivo envolvido.


Qual o risco de HIV após um acidente com perfurocortante?
O HIV é uma das principais preocupações após exposições ocupacionais a material biológico. Os fluidos considerados de risco incluem sangue, líquidos pleural, peritoneal, pericárdico e amniótico, além do liquor.
O risco médio de transmissão do HIV após uma exposição percutânea é de aproximadamente 0,3%, enquanto exposições envolvendo mucosas apresentam risco estimado de 0,09%.
Entretanto, esse risco não é uniforme. Alguns fatores aumentam significativamente a probabilidade de transmissão, como:
- Lesões profundas;
- Presença de sangue visível no dispositivo;
- Agulha previamente inserida em veia ou artéria da pessoa-fonte;
- Pessoa-fonte com elevada carga viral.
Essas características devem ser consideradas durante a avaliação da necessidade de profilaxia pós-exposição (PEP).
Risco de transmissão de hepatite B e hepatite C
O vírus da hepatite B (HBV) apresenta risco de transmissão significativamente superior ao de HIV. Em exposições percutâneas envolvendo pessoa-fonte HBeAg positiva, o risco de infecção pode ultrapassar 30%, refletindo a elevada infectividade do vírus.
Mesmo na ausência de HBeAg, o risco permanece relevante, motivo pelo qual a avaliação do histórico vacinal e da imunidade contra hepatite B é fundamental após qualquer acidente com material biológico.
Além disso, o HBV pode permanecer viável em superfícies ambientais por vários dias, contribuindo para sua elevada capacidade de transmissão.
Já para o vírus da hepatite C (HCV), o risco médio de transmissão após exposição percutânea é inferior ao observado para o HBV, sendo geralmente estimado entre 0,2% e 2%, dependendo das características da exposição e da pessoa-fonte.
Diferentemente do HIV e do HBV, não existe profilaxia pós-exposição para hepatite C. Nesses casos, o acompanhamento sorológico e o diagnóstico precoce da infecção são as principais estratégias de manejo.
O que fazer após um acidente com material biológico?
A abordagem inicial após um acidente com material biológico deve seguir um fluxo estruturado, que inclui cuidados locais, avaliação do risco de transmissão e definição da necessidade de profilaxia pós-exposição.
Fluxo de avaliação da exposição ocupacional a material biológico
Passo 1: realizar os cuidados imediatos com a área exposta
Lavar imediatamente o local da exposição com água e sabão. Em caso de contato com mucosas, realizar irrigação abundante com água ou solução fisiológica. Não são recomendados procedimentos que possam aumentar a lesão local, como compressão da ferida, cortes, injeções locais ou aplicação de substâncias irritantes.
Passo 2: avaliar o tipo de exposição e o material biológico envolvido
Determinar se houve exposição percutânea, contato com mucosas ou contato com pele não íntegra. Também é importante identificar o material envolvido, considerando que sangue e alguns fluidos corporais apresentam maior potencial de transmissão de agentes infecciosos.
Passo 3: investigar a pessoa-fonte e a pessoa exposta
Sempre que possível, deve-se avaliar o status sorológico da pessoa-fonte para HIV, hepatite B e hepatite C. Paralelamente, é necessário realizar a avaliação clínica e laboratorial da pessoa exposta, incluindo testes basais conforme os protocolos institucionais e as recomendações vigentes.
Passo 4: verificar o histórico vacinal
Confirmar o estado vacinal da pessoa exposta, especialmente para hepatite B e tétano. Dependendo do histórico de vacinação, dos resultados sorológicos e das características da exposição, pode ser necessária vacinação complementar ou imunoprofilaxia específica.
Passo 5: definir a necessidade de profilaxia pós-exposição (PEP)
A indicação de PEP deve considerar o tipo de exposição, o material biológico envolvido, o tempo transcorrido desde o acidente e o status infeccioso da pessoa-fonte. Quando indicada, a profilaxia deve ser iniciada o mais precocemente possível, sem aguardar resultados laboratoriais que possam atrasar o tratamento.


Quando indicar profilaxia pós-exposição (PEP)?
Acidentes com material biológico potencialmente contaminado devem ser considerados uma emergência médica. A decisão de iniciar a profilaxia pós-exposição depende da avaliação conjunta do tipo de exposição, do material envolvido e do status sorológico da pessoa-fonte.
A PEP deve ser considerada quando houver:
- exposição percutânea (perfurocortante) ou contato de mucosas e pele não íntegra com material biológico de risco;
- contato com sangue ou outros fluidos potencialmente contaminantes;
- pessoa-fonte com infecção confirmada ou suspeita por HIV ou hepatite B;
- impossibilidade de descartar infecção na pessoa-fonte.
Para o HIV, a profilaxia deve ser iniciada o mais precocemente possível, preferencialmente nas primeiras horas após a exposição e, no máximo, em até 72 horas.


Nos casos de exposição ao vírus da hepatite B, a necessidade de vacina e/ou imunoglobulina deve ser definida de acordo com o histórico vacinal da pessoa exposta e a sorologia da pessoa-fonte.
Na necessidade de PEP, é importante reforçar para a pessoa exposta quanto a necessidade de manter o tratamento completo. Além disso, durante o tratamento, a pessoa exposta deve ser orientada a manter medidas de prevenção de infecção – como a utilização de preservativos nas relações sexuais.
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Referências:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS PARA PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO (PEP) DE RISCO À INFECÇÃO PELO HIV, ISTs E HEPATITES VIRAIS. Brasília – DF. 2024

































