

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou o registro da palopegteriparatida (Yorvipath®) para o tratamento de adultos com hipoparatireoidismo crônico, ampliando as opções terapêuticas para uma condição rara caracterizada pela deficiência do hormônio da paratireoide (PTH).
Diferentemente do tratamento convencional, baseado principalmente na suplementação de cálcio e vitamina D ativa, a palopegteriparatida atua como uma terapia de reposição hormonal, buscando corrigir a fisiopatologia da doença por meio da reposição contínua do PTH.
O que é o hipoparatireoidismo crônico?
O hipoparatireoidismo crônico é uma doença endócrina rara causada pela produção insuficiente ou ausência de PTH.
Como consequência, ocorre redução dos níveis séricos de cálcio e aumento dos níveis de fósforo, podendo levar a manifestações neuromusculares, alterações cognitivas, fadiga, parestesias e comprometimento da qualidade de vida.
A causa mais frequente é a lesão ou remoção inadvertida das glândulas paratireoides durante procedimentos cirúrgicos cervicais, especialmente tireoidectomias. Entretanto, formas autoimunes, genéticas e infiltrativas também podem estar envolvidas.
Como a palopegteriparatida (Yorvipath®) atua na reposição de PTH?
A palopegteriparatida é uma pró-droga de liberação prolongada do fragmento PTH(1-34), desenvolvida para proporcionar exposição contínua ao hormônio ao longo de aproximadamente 24 horas.
O medicamento foi projetado para reproduzir de forma mais próxima a secreção fisiológica do PTH, evitando os picos e vales plasmáticos observados com formulações de ação curta.
Esse mecanismo favorece:
- Aumento da reabsorção renal de cálcio;
- Redução da retenção de fosfato;
- Estímulo à produção de vitamina D ativa;
- Melhora da homeostase mineral;
- Redução da hipercalciúria associada ao tratamento convencional.
Dessa forma, a terapia busca restaurar funções fisiológicas dependentes do PTH, em vez de apenas corrigir a hipocalcemia.


Evidências clínicas da palopegteriparatida
Estudo fase 3 PaTHway
A principal evidência que sustentou a aprovação da palopegteriparatida vem do estudo fase 3 PaTHway, que avaliou 84 pacientes com hipoparatireoidismo crônico em um desenho randomizado e controlado por placebo.
Após 26 semanas de tratamento, 79% dos pacientes que receberam palopegteriparatida atingiram o desfecho primário, comparado a apenas 5% no grupo placebo. O desfecho incluía:
- Manutenção do cálcio sérico dentro da faixa normal;
- Independência da terapia convencional com cálcio e vitamina D ativa;
- Ausência de necessidade de aumento de dose nas quatro semanas anteriores à avaliação.
Além disso, 93% dos participantes alcançaram independência da terapia convencional, um dos principais objetivos do tratamento.
Outro achado relevante foi a normalização da excreção urinária de cálcio em 24 horas, potencialmente reduzindo o risco de complicações renais como nefrolitíase e nefrocalcinose.
Benefícios renais e qualidade de vida
Dados de seguimento do estudo PaTHway mostraram melhora da função renal, particularmente em pacientes que apresentavam redução da taxa de filtração glomerular estimada (eGFR) no início do tratamento.
Resultados do estudo fase 2 PaTH Forward e sua extensão de longo prazo demonstraram que aproximadamente 91% dos pacientes alcançaram independência da terapia convencional até a semana 26, com manutenção dos benefícios por mais de dois anos.
Também foram observadas melhoras sustentadas em medidas de qualidade de vida e redução da carga sintomática relacionada ao hipoparatireoidismo.
Efeitos sobre o tecido ósseo
Pacientes com hipoparatireoidismo frequentemente apresentam densidade mineral óssea aumentada devido à redução do remodelamento ósseo.
Nos estudos de extensão, a palopegteriparatida promoveu uma redução inicial da densidade mineral óssea durante os primeiros meses de tratamento, seguida de estabilização ao longo do tempo. Esse comportamento é interpretado como um retorno gradual da dinâmica óssea para um padrão mais fisiológico, sem evidências de dano estrutural.
Dados de prática clínica também corroboram esses achados, demonstrando normalização de parâmetros laboratoriais relacionados ao metabolismo mineral e redução da dependência de suplementos de cálcio e vitamina D ativa.
Posologia, monitorização e principais cuidados
A dose inicial recomendada de palopegteriparatida é de 18 mcg por via subcutânea uma vez ao dia.
O ajuste deve ser individualizado com base nos níveis séricos de cálcio, podendo ser realizado em incrementos de 3 mcg até uma dose máxima recomendada de 30 mcg/dia.
Durante a titulação e manutenção do tratamento, recomenda-se monitorização periódica dos níveis de cálcio sérico para prevenir distúrbios metabólicos relacionados ao tratamento.
Os eventos adversos observados nos estudos clínicos foram predominantemente leves a moderados. Ainda assim, algumas precauções merecem atenção:
Hipercalcemia e hipocalcemia
Tanto a hipercalcemia quanto a hipocalcemia podem ocorrer durante o tratamento. Os pacientes devem ser orientados a reconhecer sintomas como:
- Náuseas e vômitos;
- Constipação;
- Letargia;
- Fraqueza muscular;
- Alterações neurológicas.
A interrupção abrupta da terapia não é recomendada devido ao risco de hipocalcemia significativa.
Potencial risco de osteossarcoma
Estudos pré-clínicos com outros análogos de PTH demonstraram aumento da incidência de osteossarcoma em ratos expostos a altas doses por longos períodos.
Embora não exista evidência de aumento desse risco em humanos tratados, recomenda-se vigilância clínica e investigação de sintomas sugestivos, como dor óssea persistente ou surgimento de massas.
Hipotensão ortostática
Episódios de tontura, palpitações e hipotensão ortostática podem ocorrer após a administração da medicação, especialmente no início do tratamento.
Interação com digoxina
A elevação dos níveis séricos de cálcio pode potencializar os efeitos da digoxina. Pacientes em uso concomitante devem realizar monitorização adequada dos níveis de cálcio e da terapia digitálica.
O que muda no tratamento para hipoparatireoidismo crônico?
A aprovação da palopegteriparatida (Yorvipath®) representa uma mudança importante no manejo do hipoparatireoidismo crônico, por disponibilizar uma estratégia de reposição fisiológica do PTH.
Além do controle da hipocalcemia, os estudos sugerem benefícios adicionais sobre a hipercalciúria, função renal, qualidade de vida e redução da dependência de suplementação convencional, aproximando o tratamento da correção da fisiopatologia da doença e não apenas de suas manifestações bioquímicas.


Leia também:
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Referências:
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Anvisa publica registro de medicamento para hipoparatireoidismo crônico. Publicado em 22/09/2026
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Khan AA, et al. Efficacy and Safety of Parathyroid Hormone Replacement With TransCon PTH in Hypoparathyroidism: 26-Week Results From the Phase 3 PaTHway Trial. J Bone Miner Res. 2023 Jan;38(1):14-25. doi: 10.1002/jbmr.4726.
Rubin MR, et al. Palopegteriparatide for Adults with Chronic Hypoparathyroidism: Skeletal Dynamics Through 3 yr of the Phase 2 paTH Forward Trial. J Bone Miner Res. 2026 Feb 4:zjag013. doi: 10.1093/jbmr/zjag013.
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