

5-HIAA ou serotonina: qual exame solicitar na síndrome carcinoide?
Essa é uma dúvida frequente na investigação dos tumores neuroendócrinos produtores de serotonina.
Embora a serotonina sérica tenha sido historicamente utilizada como marcador bioquímico desses tumores, limitações relacionadas à sua acurácia diagnóstica reduziram seu papel na prática clínica. Atualmente, o 5-HIAA, principal metabólito da serotonina, é considerado o exame de escolha para diagnóstico e monitoramento da síndrome carcinoide.
Neste artigo, revisamos as principais diferenças entre esses biomarcadores e suas aplicações clínicas.


O que é a serotonina e onde ela é produzida?
A serotonina (5-hidroxitriptamina ou 5-HT) é uma monoamina biogênica sintetizada a partir do aminoácido triptofano.
Embora seja amplamente conhecida por sua atuação como neurotransmissor no sistema nervoso central (SNC), participando da regulação do humor, sono e apetite, a maior parte da serotonina do organismo é produzida fora do cérebro.
Cerca de 90% a 95% da serotonina corporal é sintetizada pelas células enterocromafins do trato gastrointestinal, onde exerce papel importante na regulação da motilidade intestinal, da secreção de fluidos e do fluxo sanguíneo local. Apenas uma pequena fração é produzida nos neurônios serotoninérgicos do SNC.
Após ser liberada na circulação, a serotonina proveniente do trato gastrointestinal é captada principalmente pelas plaquetas e metabolizada no fígado, dando origem ao ácido 5-hidroxiindolacético (5-HIAA), que posteriormente é eliminado pelos rins.
Esse processo é particularmente relevante na avaliação dos tumores neuroendócrinos produtores de serotonina, uma vez que o 5-HIAA reflete de forma mais estável a produção tumoral desse hormônio do que a dosagem sérica da própria serotonina.


Qual a relação entre serotonina e tumores carcinoides?
Os tumores carcinoides fazem parte do grupo dos tumores neuroendócrinos (NETs) e podem se originar de células enterocromafins capazes de produzir e secretar serotonina.
Esses tumores são mais frequentemente encontrados no intestino delgado, especialmente no íleo, mas também podem surgir no apêndice, cólon, reto, estômago, pâncreas e trato respiratório.
Na maioria dos casos, a serotonina produzida pelo tumor é metabolizada pelo fígado durante a primeira passagem portal, impedindo que grandes quantidades atinjam a circulação sistêmica. Por esse motivo, pacientes com tumores localizados geralmente apresentam níveis séricos normais ou discretamente elevados e permanecem assintomáticos.
O quadro muda quando há produção excessiva de serotonina associada a metástases hepáticas ou a tumores localizados fora da circulação portal, como alguns carcinoides brônquicos e ovarianos.
Nessas situações, quantidades significativas de serotonina alcançam a circulação sistêmica, podendo causar a síndrome carcinoide, caracterizada por manifestações como rubor cutâneo episódico, diarreia secretora, broncoespasmo e, em casos avançados, cardiopatia carcinoide.
Historicamente, a associação entre hipersecreção de serotonina e síndrome carcinoide levou ao uso da serotonina como marcador tumoral.
Entretanto, a ampla variabilidade dos níveis circulantes e a influência de diversos fatores não relacionados ao câncer limitaram sua utilidade diagnóstica, impulsionando a adoção do 5-HIAA como principal biomarcador na prática clínica.
Serotonina sérica é um bom marcador tumoral?
Apesar de sua importância na fisiopatologia da síndrome carcinoide, a dosagem de serotonina sérica apresenta limitações importantes como marcador tumoral.
Atualmente, seu uso isolado não é recomendado para rastreamento ou diagnóstico de tumores neuroendócrinos, devido à baixa sensibilidade e especificidade quando comparada a outros biomarcadores disponíveis.
Uma das principais limitações é a grande variabilidade dos níveis circulantes de serotonina. Fatores como atividade física, estresse, tabagismo, dieta e uso de medicamentos podem influenciar significativamente os resultados.
Além disso, a maior parte da serotonina circulante encontra-se armazenada nas plaquetas, o que torna sua dosagem suscetível a variações relacionadas ao método de coleta e processamento da amostra.
Outro aspecto relevante é que muitos tumores neuroendócrinos produtores de serotonina permanecem assintomáticos por longos períodos e não elevam significativamente os níveis séricos desse hormônio.
Como a serotonina secretada pelo trato gastrointestinal sofre intenso metabolismo hepático de primeira passagem, concentrações elevadas costumam ser observadas apenas em pacientes com doença metastática, especialmente quando há acometimento hepático.
Dessa forma, embora níveis muito elevados de serotonina possam reforçar a suspeita de síndrome carcinoide em pacientes com quadro clínico compatível, o exame possui desempenho diagnóstico limitado quando utilizado isoladamente.


Por que o 5-HIAA substituiu a serotonina como principal biomarcador da síndrome carcinoide?
O ácido 5-hidroxiindolacético (5-HIAA) é o principal metabólito da serotonina, formado após seu metabolismo hepático e posteriormente excretado pelos rins.
Como a maior parte da serotonina produzida pelos tumores neuroendócrinos é convertida em 5 HIAA antes de alcançar a circulação sistêmica, sua dosagem fornece uma estimativa mais confiável da produção tumoral de serotonina do que a própria serotonina sérica.
Por esse motivo, o 5-HIAA urinário de 24 horas é considerado o exame bioquímico de escolha na investigação da síndrome carcinoide.
Estudos demonstram sensibilidade entre 75% e 85% e especificidade entre 85% e 90% para o diagnóstico da síndrome, valores superiores aos observados com a dosagem isolada de serotonina sérica.
Além do valor diagnóstico, o 5-HIAA possui utilidade prognóstica e de monitoramento.
Níveis persistentemente elevados estão associados a maior risco de progressão da doença e ao desenvolvimento de cardiopatia carcinoide, uma das principais complicações dos tumores neuroendócrinos secretores de serotonina.
Quais fatores interferem na dosagem de serotonina e 5-HIAA?
A interpretação dos exames relacionados ao metabolismo da serotonina exige atenção a diversos fatores que podem causar resultados falso-positivos ou falso-negativos. Tanto a dosagem de serotonina sérica quanto a de 5-HIAA podem ser influenciadas por condições clínicas, medicamentos e hábitos alimentares.
Entre as situações associadas ao aumento dos níveis de serotonina estão o tabagismo, o infarto agudo do miocárdio, a obstrução intestinal aguda e a fibrose cística.
Além disso, diversos medicamentos podem interferir nos resultados, incluindo inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), inibidores da monoaminoxidase (IMAO), metildopa, morfina, reserpina e carbonato de lítio.
No caso do 5-HIAA, a principal fonte de interferência está relacionada à alimentação.
Alimentos ricos em serotonina ou triptofano, como banana, abacate, ameixa, berinjela, tomate, abacaxi, kiwi e nozes, podem elevar temporariamente sua excreção urinária.
Alguns medicamentos, como paracetamol, cafeína, efedrina e IMAO, também podem gerar resultados falsamente elevados, enquanto levodopa, aspirina e fenotiazínicos podem ocasionar valores falsamente reduzidos.
Para minimizar essas interferências, recomenda-se evitar alimentos e substâncias potencialmente interferentes por 48 a 72 horas antes da coleta do 5-HIAA urinário. A eventual suspensão de medicamentos deve ser avaliada individualmente pelo médico assistente, considerando os riscos e benefícios de cada caso.


Quando solicitar serotonina e 5-HIAA na prática clínica?
Na prática clínica, a investigação laboratorial deve ser direcionada principalmente para pacientes com suspeita de síndrome carcinoide, especialmente diante de manifestações como rubor cutâneo recorrente, diarreia crônica inexplicada, broncoespasmo ou sinais de cardiopatia carcinoide.
Nesses casos, o 5-HIAA urinário de 24 horas é considerado o exame bioquímico inicial de escolha devido à sua maior acurácia diagnóstica.
Além da investigação diagnóstica, o 5-HIAA também desempenha papel importante no acompanhamento de pacientes com tumores neuroendócrinos produtores de serotonina, auxiliando na avaliação da resposta ao tratamento, da progressão tumoral e do risco de complicações relacionadas à síndrome carcinoide.
Por outro lado, a dosagem de serotonina sérica possui utilidade mais limitada e geralmente é reservada como exame complementar em situações específicas, particularmente quando os resultados do 5-HIAA são inconclusivos ou quando há necessidade de uma avaliação bioquímica adicional em conjunto com outros marcadores, como a cromogranina A.
Assim, embora a serotonina tenha importância central na fisiopatologia da síndrome carcinoide, o 5-HIAA permanece como o principal biomarcador para diagnóstico e monitoramento dos tumores neuroendócrinos secretores de serotonina, refletindo de forma mais confiável a atividade tumoral e a carga de produção hormonal.
Conteúdo atualizado em setembro de 2026.
Referências:
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