

Dor menstrual incapacitante, dor durante as relações sexuais e dificuldade para engravidar são alguns dos sinais mais comuns da endometriose. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode permanecer sem diagnóstico por muitos anos.
Neste artigo, revisamos as principais causas da endometriose, os mecanismos envolvidos em sua fisiopatologia e os sintomas que devem levantar suspeita clínica.
Endometriose: uma doença comum que ainda passa despercebida
A endometriose é uma condição crônica, de caráter inflamatório, caracterizada pela implantação e crescimento de tecido endometrial fora do útero – sendo mais comum nas vísceras pélvicas e no peritônio.
A presença de implante ectópico de glândulas e/ou estroma endometrial funcionante é sensível aos hormônios, e está associada à infertilidade. A definição é histológica, e seu diagnóstico não deve ser feito apenas pelos aspectos macroscópicos de lesões.
O comprometimento ovariano da endometriose ocorre por meio da formação de um cisto denominado endometrioma, presente em cerca de 55% das pacientes com a doença.
Alguns fatores de risco são conhecidos:
– história familiar,
– nuliparidade ou primiparidade tardia,
– ciclo menstrual curto e/ou fluxo menstrual aumentado,
– antecedentes obstétricos de infertilidade,
– ingestão inveterada de álcool e cafeína,
– obesidade periférica ou IMC baixo,
– exposição a produtos ambientais sintéticos (dioxinas),
– malformações uterinas.
Mulheres brancas e asiáticas também apresentam maior fator de risco para o desenvolvimento da endometriose.


Quais são as causas da endometriose?
A causa da endometriose é multifatorial, baseada em 4 pilares:
- Fator genético: apresenta herança poligênica.
- Fator imunológico: alterações na imunidade humoral e celular – atividade de células natural killer reduzidas, aumento de leucócitos e macrófagos etc.
- Fator hormonal: maior produção/exposição a estrógenos.
- Fatores ambientais: o mais notado é a dioxina – substância presente em indústrias químicas, metalurgia, siderurgia, combustão de veículos – que leva à redução de andrógenos, aumentando a secreção de FSH e LH.
Como a endometriose se desenvolve? Entenda a fisiopatologia
A fisiopatologia da endometriose é caracterizada por uma interação complexa de processos endócrinos, imunológicos, inflamatórios e angiogênicos que promovem o desenvolvimento e manutenção das lesões endometrióticas.
As principais teorias sobre a origem do tecido endometriótico incluem:
A teoria da implantação ou menstruação retrógrada fala sobre o conteúdo menstrual carregar células endometriais. Dessa forma, regurgitação transtubária no período menstrual pode disseminar células endometriais na cavidade peritoneal, aderindo e implantando.
A teoria imunológica diz respeito a alterações imunológicas, que fazem com que células endometriais fora do útero não sejam eliminadas; pelo contrário, acabam estimulando a sua proliferação e adesão ectópica.
De acordo com as teorias Mulleriana e Serosa, o epitélio do peritônio apresenta células mesoteliais que são totipotentes. Isso significa que elas podem se transformar (metaplasia) em células endometriais.
A teoria da indução é baseada na Teoria Mulleriana. As células mesoteliais totipotentes do peritônio, sob estímulos bioquímicos endógenos (indução bioquímica), se transformariam em células indiferenciadas endometriais.
Por fim, na teoria de disseminação linfática e hematogênica, sugere-se que haja disseminação das células endometriais por essas vias, enquanto na teoria iatrogênica, sugere-se que haja implante endometrial em sítios distantes após procedimentos cirúrgicos em que há manipulação uterina.


Como são as lesões da endometriose?
Microscopicamente, as lesões são caracterizadas por glândulas e estroma endometrial.
Macroscopicamente, principalmente em região peritoneal, elas podem ser divididas em dois grandes grupos: típicas e atípicas.
– Nas lesões atípicas, há formação de vesículas, aderências finas (“véu de noiva”), defeitos peritoneais etc.
– Já as lesões típicas são mais clássicas, podendo ser vermelhas (em forma de petéquias), pretas (“queimadura por pólvora”, com nódulos azulados, pretos, castanho-escuros com diversos graus de fibrose; podem ainda apresentar cistos com hemorragia antiga em seu interior), ou brancas (tecido cicatricial).
A lesão vermelha é a mais ativa e progride para a lesão preta (menos ativas), que por fim se transforma em uma lesão branca, cicatricial. Esse processo leva cerca de 7 a 10 anos.
Caracteristicamente, as lesões ovarianas são superficiais, geralmente refletindo como “cistos achocolatados” (pretas). As lesões de fundo de saco de Douglas são geralmente infiltrantes e profundas.
Mecanismos de dor na endometriose
A dor relacionada à endometriose resulta de vários mecanismos, incluindo:
– inflamação ao redor das lesões endometriais,
– crescimento e sensibilização de nervos periféricos, e
– remodelação do sistema nervoso central que altera a resposta do corpo aos estímulos e percepção da dor.
A dor pode ser nociceptiva (ativação direta de nociceptores pela inflamação localizada), neuropática (sensibilização periférica e/ou invasão direta de fibras nervosas pelas lesões) ou nociplástica (alteração da percepção da dor no sistema nervoso central).
Quais são os sintomas da endometriose?
Os achados clínicos clássicos da endometriose são dismenorreia, dispareunia (dor ao ato sexual), dor pélvica crônica e infertilidade. Pode haver disúria, quando houver acometimento de ureteres ou bexiga, e pneumotórax em casos raros de acometimento pulmonar.
Importante ressaltar que a endometriose extrapélvica geralmente é assintomática.
📌 Principais sinais de alerta para endometriose:
- Dor menstrual intensa e progressiva
- Dor pélvica crônica
- Dor durante as relações sexuais
- Infertilidade
- Dor para evacuar durante a menstruação
- Sintomas urinários relacionados ao ciclo menstrual


Como é feito o diagnóstico da endometriose?
O diagnóstico da endometriose começa pela avaliação clínica detalhada dos sintomas e fatores de risco.
Exames de imagem, especialmente ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética, podem auxiliar na identificação das lesões.
Em situações selecionadas, a videolaparoscopia com confirmação histológica permanece como método diagnóstico.
Por que a endometriose ainda leva anos para ser diagnosticada?
Apesar de afetar aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, a endometriose ainda é frequentemente diagnosticada tardiamente.
A variabilidade dos sintomas, a normalização da dor menstrual intensa e a semelhança com outras condições ginecológicas, gastrointestinais e urológicas contribuem para atrasos que podem ultrapassar uma década entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo.
Esse atraso pode resultar em importante comprometimento da qualidade de vida, impacto na fertilidade e progressão das lesões ao longo do tempo.
Embora cerca de um terço das pacientes apresente regressão espontânea da doença, a endometriose tende a ser uma condição progressiva quando não reconhecida e acompanhada adequadamente.
Por outro lado, o prognóstico costuma ser favorável após o início do tratamento, com elevada taxa de resposta clínica e melhora significativa dos sintomas na maioria das pacientes.
Por isso, reconhecer precocemente os sinais de alerta e compreender os mecanismos envolvidos na doença são etapas fundamentais para reduzir o tempo até o diagnóstico e melhorar os desfechos clínicos.
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Conteúdo atualizado em junho de 2026.
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Referências:
Saunders PTK, Horne AW. Endometriosis: Etiology, pathobiology, and therapeutic prospects. Cell. 2021 May 27;184(11):2807-2824. doi: 10.1016/j.cell.2021.04.041. PMID: 34048704.
Diagnosis of Endometriosis: ACOG Clinical Practice Guideline No. 11. Obstetrics & Gynecology 147(3):p 432-448, March 2026. | DOI: 10.1097/AOG.0000000000006181
As-Sanie S, Mackenzie SC, Morrison L, et al. Endometriosis: A Review. JAMA. 2025;334(1):64–78. doi:10.1001/jama.2025.2975
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