

A dosagem do cortisol salivar, especialmente quando realizada no período noturno, é um dos principais testes utilizados para o rastreamento do hipercortisolismo e para o diagnóstico da síndrome de Cushing. O exame permite identificar a perda do ritmo circadiano fisiológico do cortisol, uma das alterações mais características da doença.
Fisiologia do cortisol e ritmo circadiano
O cortisol é o principal glicocorticoide produzido pela zona fasciculada do córtex adrenal e sua secreção é regulada pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA).
Em resposta a estímulos como estresse físico ou emocional, hipoglicemia e alterações do ciclo sono-vigília, o hipotálamo libera o hormônio liberador de corticotrofina (CRH), que estimula a hipófise anterior a secretar o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Por sua vez, o ACTH promove a síntese e a liberação de cortisol pelas adrenais.
O cortisol exerce importante papel na homeostase metabólica, participando da regulação do metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios. Além disso, apresenta efeitos imunomoduladores e anti-inflamatórios, sendo fundamental na resposta fisiológica ao estresse.
Em condições normais, a secreção de cortisol segue um ritmo circadiano bem definido.
Os níveis séricos atingem seu pico nas primeiras horas da manhã, geralmente entre 6h e 8h, e diminuem progressivamente ao longo do dia, alcançando seu nadir durante a noite, próximo da meia-noite.
Esse padrão é mantido por mecanismos de retroalimentação negativa, nos quais o próprio cortisol inibe a liberação de CRH e ACTH quando presente em concentrações elevadas.


A utilidade clínica do exame de cortisol salivar baseia-se justamente nesse comportamento fisiológico.
Em indivíduos saudáveis, os níveis de cortisol na saliva são muito baixos no período entre 23h e 24h.
Já nos pacientes com síndrome de Cushing, ocorre perda ou atenuação do nadir circadiano, resultando em concentrações inadequadamente elevadas de cortisol durante a noite.
Por esse motivo, a análise da saliva coletada no período noturno tornou-se um dos principais métodos de rastreamento do hipercortisolismo endógeno.
Quando solicitar o cortisol salivar no diagnóstico da Síndrome de Cushing
A dosagem do cortisol salivar noturno é um dos testes de primeira linha recomendados pelas principais diretrizes para o rastreamento da síndrome de Cushing, juntamente com o cortisol livre urinário de 24 horas (CLU) e o teste de supressão com 1 mg de dexametasona (DST).
Sua principal vantagem é a capacidade de detectar a perda do ritmo circadiano normal do cortisol, uma das alterações mais precoces do hipercortisolismo endógeno.
O exame deve ser considerado em pacientes com sinais e sintomas sugestivos de excesso crônico de cortisol, especialmente quando há características clínicas múltiplas e progressivas, como obesidade centrípeta, fácies em lua cheia, fraqueza muscular proximal, equimoses espontâneas, estrias violáceas largas, hipertensão arterial de difícil controle, diabetes mellitus de início recente ou osteoporose precoce.
Além disso, o rastreamento pode ser indicado em indivíduos com condições associadas a maior probabilidade de síndrome de Cushing, como osteoporose inexplicada em adultos jovens, hipertensão resistente, diabetes de difícil controle e incidentaloma adrenal com potencial atividade hormonal.
O método apresenta elevada acurácia diagnóstica, com sensibilidade e especificidade geralmente superiores a 90% quando realizado e interpretado adequadamente. Entretanto, os valores de referência variam conforme o método laboratorial empregado, sendo recomendada a utilização dos pontos de corte validados por cada laboratório.
Em pacientes com alta suspeita clínica, a presença de dois testes de rastreamento alterados costuma ser suficiente para prosseguir com a investigação etiológica da síndrome, enquanto resultados normais em testes adequadamente realizados tornam o diagnóstico pouco provável.
O exame não é o método ideal para todos os pacientes. Em trabalhadores com rotina noturna ou ciclo sono-vigília irregular, por exemplo, a alteração fisiológica do ritmo circadiano pode comprometer a interpretação dos resultados, sendo frequentemente preferível a realização do teste de supressão com dexametasona.
Por fim, o exame não deve ser utilizado para investigação de insuficiência adrenal, situação em que outros testes laboratoriais apresentam melhor desempenho diagnóstico.
Como realizar a coleta do cortisol salivar noturno
A correta obtenção da amostra é fundamental para garantir a confiabilidade dos resultados. Pequenas falhas durante o procedimento podem levar a resultados incorretos e dificultar a interpretação clínica.
A amostra deve ser coletada preferencialmente entre 23h e 24h, horário em que os níveis de cortisol são naturalmente mais baixos em indivíduos com ritmo circadiano preservado. Após a coleta, a amostra deve ser mantida refrigerada e encaminhada ao laboratório de acordo com as orientações do serviço executor.
Nas duas horas que antecedem o exame, recomenda-se evitar a escovação dentária para reduzir o risco de sangramento gengival. Além disso, nos 30 minutos anteriores à coleta, o paciente não deve ingerir alimentos ou bebidas, exceto água. Antes da obtenção da amostra, pode ser realizado um enxágue suave da cavidade oral com água, seguido de alguns minutos de espera.


A coleta geralmente é realizada por meio de dispositivos específicos, como o Salivette®, ou por swabs de algodão fornecidos pelo laboratório. O paciente deve manter o swab na boca pelo tempo recomendado até sua completa saturação com saliva e, posteriormente, acondicioná-lo no recipiente apropriado.
Devido à variabilidade biológica do cortisol, as diretrizes atuais recomendam a realização de duas ou mais coletas em noites diferentes, sempre que possível. Essa estratégia aumenta a sensibilidade diagnóstica do exame e reduz o impacto de oscilações fisiológicas que podem ocorrer entre dias consecutivos.
Além disso, os valores obtidos devem sempre ser interpretados considerando o método utilizado e os intervalos de referência estabelecidos pelo laboratório responsável pela análise.
Interpretação do exame de cortisol salivar
A interpretação do cortisol salivar noturno deve sempre considerar o contexto clínico do paciente, o método laboratorial utilizado e os valores de referência estabelecidos pelo laboratório executor.
Diferentemente de outros exames hormonais, não existe um ponto de corte universalmente aceito, uma vez que os resultados podem variar conforme o ensaio empregado, especialmente entre métodos imunológicos e espectrometria de massa (LC-MS/MS).
Resultados acima do limite de referência são sugestivos de hipercortisolismo e devem ser interpretados em conjunto com a história clínica e outros testes de rastreamento.
Embora apresente elevada sensibilidade e especificidade para rastreamento da síndrome de Cushing, o cortisol salivar noturno não deve ser interpretado de forma isolada. Em pacientes com alta probabilidade clínica, a presença de pelo menos dois testes de primeira linha alterados fortalece significativamente o diagnóstico.
Da mesma forma, resultados normais em múltiplos testes adequadamente realizados tornam a doença pouco provável.
Algumas condições podem causar elevação do cortisol sem que exista síndrome de Cushing verdadeira, fenômeno conhecido como pseudo-Cushing.
Entre as principais causas estão o transtorno depressivo maior, o transtorno por uso de álcool, o estresse físico intenso e determinadas doenças psiquiátricas. Nesses cenários, resultados alterados devem ser interpretados com cautela e, quando necessário, confirmados por exames adicionais.
Também existem fatores capazes de interferir diretamente na análise laboratorial. A contaminação da amostra por sangue decorrente de sangramento gengival pode produzir resultados falsamente elevados.
Além disso, o uso de corticosteroides tópicos ou inalados pode contaminar a amostra e comprometer sua interpretação. Alguns métodos imunológicos também podem sofrer interferência por reação cruzada com outros esteroides ou pelo uso de suplementos contendo biotina.
Os resultados também devem ser interpretados com cautela em indivíduos com alterações importantes do ciclo sono-vigília, como trabalhadores em turnos noturnos.


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Conteúdo atualizado em agosto de 2026.
Referências:
Fleseriu M, Auchus R, Bancos I, et al. Consensus on diagnosis and management of Cushing’s disease: a guideline update. Lancet Diabetes Endocrinol. 2021;9(12):847-875. doi:10.1016/S2213-8587(21)00235-7
Goyal A, Attri B, Gupta Y, Kalaivani M, Jyotsna VP, Tandon N. Late-night salivary cortisol cut-offs for diagnosis of Cushing syndrome using second-generation electrochemiluminescence immunoassay kits. Clin Endocrinol (Oxf). 2023; 99: 43-51. doi:10.1111/cen.14920

































