

A AHA, ACC, ADA e ASN publicaram, em junho de 2026, uma nova diretriz para prevenção, detecção, avaliação e manejo da Síndrome Cardiovascular-Renal-Metabólica (CKM). O documento consolida uma abordagem integrada da síndrome e estabelece recomendações terapêuticas de acordo com seus diferentes estágios.
A proposta parte do reconhecimento de que alterações metabólicas, doença renal crônica e doença cardiovascular não devem ser avaliadas de forma isolada. Essas condições compartilham fatores de risco e mecanismos fisiopatológicos e, quando coexistem, podem acelerar a progressão umas das outras.
Mas, afinal, o que caracteriza a síndrome CKM e o que a nova diretriz muda na prática clínica?
O que é a síndrome CKM?
A Síndrome Cardiovascular Renal Metabólica (CKM), do inglês Cardiovascular-Kidney-Metabolic Syndrome, é uma condição sistêmica caracterizada pela interação entre alterações metabólicas, doença renal crônica (DRC) e doença cardiovascular (DCV).
O conceito engloba uma sequência de risco, que começa com excesso ou disfunção do tecido adiposo e fatores de risco metabólicos e pode progredir para DRC, doença cardiovascular subclínica e, posteriormente, DCV estabelecida.
Nesse processo, condições como obesidade, resistência à insulina, diabetes mellitus tipo 2 (DM2), hipertensão arterial e dislipidemia interagem com alterações renais e cardiovasculares, aumentando o risco de eventos adversos e progressão da doença.
Assim, mais do que reunir diagnósticos concomitantes, o conceito de CKM busca reconhecer como os componentes metabólico, renal e cardiovascular se influenciam mutuamente, e como a intervenção precoce pode interromper ou retardar essa progressão.


Como funciona o estadiamento da síndrome CKM?
Um dos principais pontos da diretriz é a classificação da síndrome CKM em cinco estágios (0 a 4).
O sistema vai desde a ausência de fatores de risco até a presença de doença cardiovascular (DCV) clínica, permitindo direcionar as estratégias de prevenção e tratamento conforme a progressão da síndrome.
Estágio 0 – Ausência de fatores de risco CKM
O estágio 0 corresponde aos indivíduos sem excesso ou disfunção do tecido adiposo, fatores de risco metabólicos, doença renal crônica e doença cardiovascular.
Nesse grupo, o foco está na manutenção da saúde cardiovascular, renal e metabólica, com medidas destinadas a prevenir o surgimento de fatores de risco.
Estágio 1 – Excesso ou disfunção do tecido adiposo
O estágio 1 é caracterizado pela presença de sobrepeso, obesidade ou adiposidade abdominal, ainda sem fatores de risco metabólicos estabelecidos ou DRC.
O objetivo é atuar precocemente sobre a adiposidade e os hábitos de vida para evitar a progressão para alterações metabólicas e renais.
Estágio 2 – Fatores de risco metabólicos e/ou DRC
No estágio 2, já estão presentes fatores de risco metabólicos e/ou doença renal crônica, mas ainda sem DCV clínica.
Entre as alterações que podem caracterizar esse estágio estão hipertensão arterial, hipertrigliceridemia, síndrome metabólica e DM2, além da própria DRC.
Nesse momento, o tratamento passa a priorizar o controle intensivo dos fatores de risco e a proteção cardiovascular e renal.
Estágio 3 – Doença cardiovascular subclínica
O estágio 3 é marcado pela presença de DCV subclínica em pacientes com excesso ou disfunção do tecido adiposo, fatores de risco metabólicos e/ou DRC.
Embora o paciente ainda não apresente manifestações clínicas de DCV, exames podem demonstrar alterações cardiovasculares. A classificação também contempla determinados pacientes com risco cardiovascular muito elevado.
O objetivo é intensificar as estratégias preventivas para evitar a progressão para DCV clínica.
Estágio 4 – Doença cardiovascular clínica
O estágio 4 representa a fase mais avançada da síndrome CKM, caracterizada pela presença de DCV estabelecida associada a alterações metabólicas, excesso ou disfunção do tecido adiposo e/ou DRC.
Entre as manifestações estão doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC), doença arterial periférica e fibrilação atrial.
Nessa fase, o tratamento busca reduzir eventos cardiovasculares recorrentes, hospitalizações e mortalidade, além de preservar a função renal e controlar os fatores metabólicos associados.


O que a nova diretriz recomenda para o tratamento?
A diretriz CKM 2026 propõe um tratamento integrado, individualizado e orientado pelo estágio CKM, considerando simultaneamente o risco metabólico, cardiovascular e renal.
As mudanças no estilo de vida permanecem como base do tratamento em todos os estágios, com atenção à alimentação, atividade física, controle do peso e da adiposidade, cessação do tabagismo e qualidade do sono.
À medida que o risco aumenta, a farmacoterapia deve ser iniciada ou intensificada conforme as condições presentes e o fenótipo predominante. Mais do que controlar isoladamente glicemia, pressão arterial ou colesterol, a estratégia prioriza, quando indicadas, terapias com benefícios cardiovasculares e renais comprovados.


Entre as principais abordagens estão:
– o tratamento da obesidade e do diabetes,
– o controle intensivo da pressão arterial e do LDL-c e
– o uso, em pacientes selecionados, de classes como inibidores de SGLT2, terapias baseadas em GLP-1, IECA/BRA e finerenona.
Na prática, a intensidade do tratamento acompanha a progressão da síndrome:
– nos estágios iniciais, o foco está na prevenção e redução da adiposidade;
– nos estágios intermediários, ganham importância o controle dos fatores metabólicos e a proteção renal e cardiovascular;
– e, diante de DCV subclínica ou clínica, as estratégias de prevenção cardiovascular são intensificadas.
🎯 O principal objetivo é prevenir a progressão da DRC, o desenvolvimento de DCV clínica e a ocorrência ou recorrência de eventos cardiovasculares.
Como deve ser o acompanhamento do paciente com síndrome CKM?
O seguimento deve ser individualizado conforme o estágio CKM, as comorbidades e as terapias utilizadas. A avaliação periódica pode incluir:
- peso, IMC e circunferência abdominal;
- pressão arterial;
- controle glicêmico e perfil lipídico;
- função renal, incluindo creatinina e TFGe;
- albuminúria (RACu/uACR);
- adesão às mudanças no estilo de vida e ao tratamento;
- sinais e sintomas de progressão cardiovascular ou renal.
A frequência da monitorização deve acompanhar o grau de risco e a gravidade das alterações, sendo geralmente maior na presença de DM2, DRC, insuficiência cardíaca ou DCV estabelecida.
Função renal e potássio também devem ser monitorados conforme os medicamentos utilizados, especialmente após o início ou ajuste de terapias que interferem nesses parâmetros.
Além disso, o estágio CKM deve ser reavaliado ao longo do seguimento, permitindo reconhecer progressão ou regressão da síndrome e adaptar o tratamento.
Pacientes com doença mais avançada ou múltiplas comorbidades podem se beneficiar de uma abordagem multidisciplinar, integrando atenção primária, cardiologia, nefrologia e endocrinologia.


Por que a síndrome CKM importa na prática clínica?
O conceito de CKM desloca o foco do tratamento isolado de doenças para a identificação de um continuum de risco cardiovascular, renal e metabólico.
Um paciente com obesidade, diabetes e albuminúria, por exemplo, não apresenta apenas diagnósticos concomitantes: essas condições interagem entre si e podem acelerar conjuntamente a progressão da doença renal e cardiovascular.
Essa abordagem ganha relevância diante da elevada prevalência dos componentes da síndrome. Obesidade, DM2, hipertensão, DRC e DCV frequentemente coexistem, e sua carga tende a aumentar com o envelhecimento da população e o avanço dos distúrbios cardiometabólicos.
Nos Estados Unidos, a maioria dos adultos apresenta algum grau de CKM, com predomínio dos estágios iniciais. A distribuição, entretanto, não é homogênea: estágios mais avançados são mais frequentes entre idosos e homens, e fatores socioeconômicos, ambientais e de acesso à saúde também influenciam o risco e a progressão da síndrome.
Além disso, o crescimento global da obesidade e dos fatores de risco cardiometabólicos reforça a necessidade de identificar pacientes antes do desenvolvimento de manifestações cardiovasculares clínicas.
Na prática, a proposta da nova diretriz é justamente antecipar essa intervenção.
Em vez de esperar que diabetes, DRC ou DCV sejam tratadas como problemas independentes à medida que surgem, o estadiamento CKM permite reconhecer precocemente sua inter-relação, estimar o risco de progressão e direcionar estratégias capazes de proteger coração, rins e metabolismo de forma integrada.
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Aprofunde seus conhecimentos:
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Referências:
Writing Committee Members, Ndumele CE, Rodriguez F, et al. 2026 AHA/ACC/ADA/ASN Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of Cardiovascular-Kidney-Metabolic Syndrome: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation. 2026;154(4):e50-e158. doi:10.1161/CIR.0000000000001453

































