

Vacinação contra HPV após tratamento excisional entra como recomendação do PNI. Entenda a evidência e o impacto na prática ginecológica.
Mulheres tratadas por lesão de alto grau no colo uterino devem receber a vacina contra HPV? Entenda a orientação do PNI
O câncer do colo do útero é o terceiro tumor mais incidente entre mulheres no Brasil e a quarta causa de morte por câncer na população feminina. São cerca de 17 mil novos casos e 7 mil óbitos anuais, números que continuam expressivos apesar do rastreamento citológico estabelecido há décadas.
Na imensa maioria dos casos, a infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) de alto risco é o evento causal necessário para o desenvolvimento dessa neoplasia, e as lesões precursoras de alto grau (conhecidas como NIC 2 e NIC 3) são a porta de entrada para esse processo.
O tratamento padrão para lesões precursoras de alto grau é o procedimento excisional (exérese da zona de transformação ou conização) com efetividade comprovada.
No entanto, a taxa de persistência ou recorrência da doença chega a 17%, e mulheres tratadas mantêm risco aumentado de câncer cervical invasivo por mais de 25 anos após o procedimento.
Esse cenário motivou o Ministério da Saúde a publicar, em março de 2026, uma nota técnica que propõe e fundamenta a inclusão dessas mulheres como grupo prioritário para vacinação contra HPV no âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI) – Nota Técnica 32/2026.


Vacinação contra HPV após tratamento de lesões cervicais de alto grau: qual o racional da nova recomendação?
O raciocínio por trás dessa indicação vai além da prevenção primária. A vacinação contra HPV, nesse contexto, atua como estratégia de prevenção secundária com múltiplos objetivos:
- Prevenir infecção por outros genótipos de HPV contidos na vacina aos quais a paciente ainda não foi exposta;
- Reduzir o risco de reinfecção pelos mesmos tipos virais;
- Prevenir a disseminação do vírus para regiões adjacentes à lesão inicial e para outros sítios anatômicos;
- Reduzir o risco de recorrência de NIC 2 e NIC 3;
- Diminuir a necessidade de novos procedimentos excisionais e, consequentemente, reduzir complicações obstétricas como parto prematuro, ruptura prematura de membranas e estenose cervical.
É importante ressaltar que, embora estudos observacionais e revisões sistemáticas demonstrem redução significativa da recorrência de lesões de alto grau com a vacinação perioperatória, ensaios clínicos randomizados em andamento ainda apresentam resultados conflitantes quanto a esse desfecho específico.
O que a evidência já permite afirmar com consistência é o benefício na prevenção de infecções por novos tipos virais e na redução da disseminação do HPV. A Nota Técnica 32/2026 considera esse conjunto de evidências suficiente para justificar a recomendação.
O que diz a Nota Técnica 32/2026 na prática
O Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) recomenda formalmente a inclusão de mulheres tratadas por NIC 2, NIC 3 e adenocarcinoma in situ (AIS) como grupo prioritário para vacinação contra HPV no SUS.
Os pontos operacionais centrais são:


O registro da vacinação deve ser feito na estratégia especial de vacinação do PNI, com o CID correspondente ao diagnóstico (NIC 2, NIC 3 ou AIS).
A nota ressalta ainda a importância da articulação entre os serviços de diagnóstico e tratamento cervical e as unidades de vacinação, para garantir o encaminhamento ativo dessas pacientes.
Evidências internacionais sustentam a vacinação contra HPV após tratamento de lesões cervicais
A nota técnica também cita experiências internacionais que já adotaram essa estratégia:
Espanha: Desde 2018, recomenda e financia a vacinação contra HPV para mulheres submetidas à conização, independentemente da idade, com esquema de três doses.
Irlanda: Recomenda vacinação de resgate para mulheres com histórico de tratamento de lesões cervicais ≥ NIC I, com menos de 45 anos e até 48 meses após o procedimento.
Chile: Incorporou recentemente a vacinação contra HPV para mulheres com lesão cervical de alto grau, com a primeira dose no dia da intervenção, segunda após 1 mês e terceira após 3 meses, com seguimento de 24 meses.
O estudo populacional sueco citado na nota, com mais de 130 mil mulheres tratadas por NIC 3, é particularmente contundente: demonstrou risco significativamente aumentado de câncer cervical invasivo em comparação à população geral, persistindo por mais de 25 anos após o tratamento e especialmente elevado em mulheres acima de 50 anos.
Esse dado reforça que o tratamento excisional, por si só, não encerra o risco oncológico dessas pacientes.
Como encaminhar sua paciente para vacinação contra HPV: passo a passo
Para o ginecologista que atende essas mulheres, a recomendação agora é clara e operacional. Veja como proceder:
- Identifique a elegibilidade: toda paciente submetida a tratamento excisional (exérese da zona de transformação ou conização) por NIC 2, NIC 3 ou AIS é elegível, independentemente da idade.
- Oriente no mesmo ano do procedimento: a vacinação deve ser realizada no mesmo ano do procedimento, podendo ser feita no período perioperatório ou até 12 meses após o tratamento.
- Emita a prescrição médica: a vacinação no SUS, nessa indicação, requer prescrição médica com o registro diagnóstico correspondente ao CID do diagnóstico (NIC 2, NIC 3 ou AIS). O registro é feito na estratégia especial de vacinação do PNI.
- Encaminhe para a unidade de vacinação: as doses são aplicadas em qualquer unidade de vacinação do SUS com sala de vacina ativa, conforme a organização da rede local.
- Reforce o esquema de 3 doses: o esquema vacinal é de três doses (0, 2 e 6 meses). Certifique-se de que a paciente compreende a necessidade de completar as três doses.
- Mantenha o seguimento clínico: a nota técnica reforça a importância da manutenção do seguimento clínico das mulheres tratadas, conforme os protocolos assistenciais vigentes. A vacinação é uma estratégia adicional de prevenção, não substitui o acompanhamento.


Considerações finais
A Nota Técnica 32/2026 representa um avanço concreto na integração entre tratamento e prevenção do câncer cervical.
Para o ginecologista, ela traduz uma janela de oportunidade clínica: a paciente que acaba de fazer um tratamento excisional para lesão de alto grau no colo uterino tem indicação formal de vacinação com acesso gratuito pelo SUS, e o momento certo é no mesmo ano do procedimento.
Não aproveitar essa janela é deixar de oferecer uma estratégia com potencial de reduzir a recorrência de lesões de alto grau e o risco oncológico a longo prazo.
A nota também sinaliza a perspectiva de incorporação futura de vacinas HPV com maior valência, o que deve ampliar ainda mais o impacto preventivo dessa estratégia. Por ora, o que está ao alcance do ginecologista é simples: prescrever, orientar e encaminhar.
Referência:
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica Nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: Proposta de inclusão de mulheres diagnosticadas com Neoplasia Intraepitelial Cervical de alto grau (NIC 2+ e Adenocarcinoma in situ – AIS), submetidas a procedimento excisional do colo do útero (LEEP/conização), como grupo prioritário para vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) no âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Brasília: Ministério da Saúde, 2026. SEI nº 0054090829. Processo nº 25000.039496/2026-80.
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