D-dímero: guia prático para interpretar sem cair em armadilhas

Tubos de coleta de sangue com tampa azul usados para análise de coagulação e D-dímero

O D-dímero é um exame amplamente utilizado na prática clínica, especialmente na investigação de tromboembolismo venoso.

Mas aqui está o problema: ele é muito sensível, mas pouco específico. Ou seja, um resultado alterado pode gerar mais dúvidas do que respostas.

Neste texto, você vai entender:

  • Quando realmente vale a pena solicitar o exame;
  • Como interpretar os resultados na prática;
  • Por que o D-dímero frequentemente “engana” o raciocínio clínico.

 

O que é o D-dímero e como ele é formado?

A fibrina, com auxílio do fator de estabilização da fibrina (Fator XIII), forma um coágulo estável de fibrina na região de lesão (o complexo da fibrina envolvendo as plaquetas é conhecido como “trombo vermelho”).

Quando o trombo não é mais necessário, entra em ação o sistema fibrinolítico: o tPA (fator plasminogênio tecidual) ativa o plasminogênio, que é uma protease sérica que converte a proenzima plasminogênio em plasmina. A plasmina, uma enzima fibrinolítica, destrói a fibrina.

Um dos subprodutos da fibrina é justamente o D-dímero, que é capaz de ser mensurado.

Profissional de laboratório analisando amostra para exame de D-dímero alto

D-dímero alto: quando pensar em trombose (e quando NÃO pensar)

Em situações de formação de trombos, há a necessidade de que o sistema fibrinolítico esteja ativo para que mantenha a homeostase. Dessa maneira, quanto maior a formação de trombos, maior a necessidade de compensação pela destruição (fibrinólise), e maior será a quantidade de D-dímero presente na circulação sanguínea.

Em situações de trombose, haverá uma “guerra” entre o sistema pró-coagulatório e o sistema fibrinolítico, visando à homeostase. Como resultado, há um aumento expressivo na quantidade de D-dímero circulante.

Nesse sentido, a Coagulação Intravascular Dissemina (CIVD) pela ativação descontrolada do sistema de coagulação também resulta em níveis elevados de D-dímeros na corrente sanguínea.

Não só isso, mas qualquer condição que seja capaz de criar trombos e consequente degradação (visando à homeostase) acaba por elevar o D-dímero na corrente sanguínea, como classicamente ocorre em pós-operatórios, traumas etc.

Logo, devemos solicitar o exame D-dímero na suspeita de Tromboembolismo Pulmonar (TEP), Trombose Venosa Profunda (TVP) ou CIVD.

👉 Na prática clínica: o D-dímero é mais útil para excluir trombose do que para confirmá-la — especialmente em pacientes com baixa probabilidade clínica.

Na CIVD, a avaliação de D-dímero é utilizada tanto para diagnóstico quanto para seguimento (junto com outros exames), visto que pode indicar melhora ou progressão da condição.

Algoritmo prático para avaliação de suspeita de TEP com uso do D-dímero

 

Leia também: Escore de WELLS para TEP – critérios, interpretação e limitações.

 

Qual o valor normal do D-dímero?

Os valores de referência podem ter pequenas variações de acordo com o laboratório, mas o valor normal esperado é de até 500 ng/mL (< 0,5 μg/mL). Valores acima da referência já são considerados críticos.

Alguns protocolos sugerem que, para pacientes acima de 50 anos, o d dímero deve ser ajustado pela idade. Para isso, deve-se fazer a idade (anos) x 10 µg/L = valor de corte do D-dímero.

Atenção! Alguns interferentes podem alterar os valores encontrados.

 

Principais armadilhas do D-dímero

Níveis elevados de fator reumatoide podem refletir em resultados falsos positivos no exame. Além disso, hemólise, icterícia e dislipidemia podem alterar o exame.

Lembrar também que pode existir contaminação com anticoagulantes de outros frascos, quando não é respeitada a ordem da coleta. É essencial coletar sempre por primeiro o tubo azul (com citrato de sódio, que preserva os fatores de coagulação), para que o resultado do exame não seja alterado.

 

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Referências:

Pagana, KD; Pagana TJ. Mosby’s Manual of Diagnostic and Laboratory Tests. 6 ed. – Elsiever – 2017

Caquet, René. 250 exames de laboratório: prescrição e interpretação / René Caquet; tradução de Laís mEDEIROS, Bruna Steffens e Janyne Martini – 12. Ed. – Rio de Janeiro – RJ: Thieme Publicações, 2017

Halaby R, Popma CJ, Cohen A, Chi G, Zacarkim MR, Romero G, Goldhaber SZ, Hull R, Hernandez A, Mentz R, Harrington R, Lip G, Peacock F, Welker J, Martin-Loeches I, Daaboul Y, Korjian S, Gibson CM. D-Dimer elevation and adverse outcomes. J Thromb Thrombolysis. 2015 Jan;39(1):55-9. doi: 10.1007/s11239-014-1101-6.

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