

Muitos pacientes com síndrome do intestino irritável (SII) excluem o glúten da alimentação na tentativa de controlar sintomas como dor abdominal, distensão e alterações do hábito intestinal. Entretanto, será que a retirada dessa proteína é responsável pela melhora clínica?
Embora parte dos pacientes relate benefícios com uma dieta sem glúten (GFD, do inglês gluten-free diet), ensaios clínicos com reexposição controlada mostram que a maioria não apresenta piora significativa quando a proteína é reintroduzida de forma cega. Os resultados sugerem que outros componentes alimentares, especialmente os frutanos presentes no trigo, podem explicar boa parte dos sintomas atribuídos ao glúten.
Isso não significa que a proteína seja irrelevante para todos os pacientes.
As evidências apontam para a existência de um subgrupo com resposta específica ao glúten, embora ainda não existam ferramentas clínicas validadas para identificar esses indivíduos de forma rotineira.
Entender essa diferença é importante para evitar restrições alimentares desnecessárias e orientar uma investigação diagnóstica adequada, especialmente para excluir doença celíaca.
Síndrome do intestino irritável e doença celíaca: qual é a diferença?
A doença celíaca (DC) é uma condição imunomediada desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente suscetíveis. A resposta inflamatória compromete a mucosa do intestino delgado e pode provocar atrofia das vilosidades, hiperplasia das criptas e má absorção de nutrientes.


Entre as manifestações clínicas estão diarreia crônica, distensão abdominal, flatulência, dor abdominal, perda de peso e deficiências nutricionais, especialmente de ferro. Também podem ocorrer manifestações extraintestinais, como fadiga, estomatite aftosa e redução da densidade mineral óssea.
A suscetibilidade genética está associada principalmente aos haplótipos HLA-DQ2 e HLA-DQ8. Entretanto, a presença desses marcadores não confirma isoladamente o diagnóstico.
Já a síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio da interação intestino-cérebro, caracterizado por dor abdominal recorrente associada à defecação ou a mudanças na frequência ou na forma das fezes. Sua fisiopatologia envolve mecanismos como alterações da motilidade intestinal, hipersensibilidade visceral, fatores pós-infecciosos e aspectos psicossociais.
Como as duas condições podem apresentar sintomas semelhantes, a investigação de doença celíaca deve ser considerada em pacientes com suspeita de SII, especialmente naqueles com diarreia predominante.
📣 Atenção na prática clínica: a investigação de doença celíaca deve ser realizada antes da retirada do glúten, pois a restrição pode reduzir a sensibilidade dos exames sorológicos e comprometer a confirmação diagnóstica.
Glúten e síndrome do intestino irritável: qual a relação?
A relação entre glúten e SII é mais complexa do que a melhora relatada por alguns pacientes após a exclusão da proteína. A retirada do trigo modifica simultaneamente a ingestão de diferentes componentes alimentares, dificultando a identificação do responsável pela resposta clínica.
Os frutanos, carboidratos fermentáveis presentes no trigo, são particularmente relevantes nesse contexto. Quando o paciente exclui pães, massas e outros produtos à base desse cereal, também reduz a ingestão desses carboidratos, que podem contribuir para sintomas gastrointestinais.
Os frutanos pertencem ao grupo dos FODMAPs, carboidratos que podem apresentar absorção incompleta no intestino delgado. Ao alcançar o intestino, contribuem para o aumento da carga osmótica e podem ser fermentados pela microbiota, aumentando a produção de gases.
Em pessoas com SII, esses mecanismos podem favorecer distensão abdominal, flatulência e dor, especialmente na presença de hipersensibilidade visceral.
Assim, parte dos pacientes pode apresentar melhora ao retirar o trigo sem que o glúten seja, de fato, o componente responsável pelos sintomas.


O que mostram os estudos de reexposição ao glúten?
Ensaios controlados por placebo permitem investigar se os sintomas reaparecem especificamente após a reintrodução do glúten, reduzindo a influência das expectativas dos participantes.
Uma revisão sistemática com metanálise de ensaios de reexposição controlados por placebo não encontrou diferença estatisticamente significativa na piora dos sintomas atribuíveis ao glúten.
Outro estudo avaliou diferentes doses de glúten (8, 16 e 32 g/dia) em pacientes que já haviam apresentado melhora com uma dieta combinada sem glúten e pobre em FODMAPs. O ensaio não identificou diferenças significativas entre os desafios alimentares nem um efeito dose-dependente.
Esses achados reforçam uma limitação importante: quando diferentes componentes alimentares são retirados simultaneamente, torna-se difícil atribuir a melhora a um único nutriente ou proteína.
Sensibilidade ao glúten não celíaca: o papel do efeito nocebo
A sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) é considerada quando há manifestações associadas à ingestão de alimentos que contêm glúten, sem confirmação de doença celíaca ou alergia ao trigo.
Os sintomas podem incluir dor abdominal, distensão, alterações do hábito intestinal e manifestações extraintestinais. Entretanto, não há biomarcador validado que confirme isoladamente essa condição.
Uma revisão publicada no The Lancet em 2025 destacou a importância do efeito nocebo e das expectativas dos pacientes na interpretação dos estudos sobre SGNC.
Em ensaios cegos, mais da metade dos participantes atribuiu sintomas ao glúten mesmo quando recebeu placebo. Além disso, apenas cerca de metade dos ensaios controlados demonstrou um efeito verdadeiramente específico da proteína.
Esses resultados sugerem que a percepção dos sintomas pode ser influenciada não apenas pela composição dos alimentos, mas também pelas expectativas relacionadas ao seu consumo.
A sobreposição clínica entre SGNC suspeita e SII também é expressiva.
Estimativas relatam que aproximadamente 20% a 80% dos pacientes investigados por suspeita de SGNC atendem aos critérios diagnósticos para SII. Essa amplitude reflete diferenças entre populações e critérios utilizados nos estudos.
Muitos desses pacientes apresentam melhora com intervenções que reduzem FODMAPs, independentemente da quantidade de glúten na alimentação. Portanto, a resposta à retirada da proteína não deve ser interpretada isoladamente como confirmação de SGNC.


Existe um subgrupo de pacientes com SII em que o glúten causa sintomas intestinais?
Apesar da ausência de um efeito consistente na maioria dos estudos, as evidências não descartam uma resposta específica ao glúten em determinados pacientes.
Estudos identificaram um subgrupo de respondedores verdadeiros, predominantemente entre indivíduos com síndrome do intestino irritável com diarreia (SII-D). Nesses pacientes, a exposição ao glúten esteve associada a uma resposta clínica específica, acompanhada de diferenças na microbiota e nos metabólitos fecais.
No estudo que identificou esse perfil, nenhum participante com SII com constipação (SII-C) apresentou resposta específica ao glúten.
Esses resultados sugerem que a heterogeneidade clínica e biológica da SII pode ajudar a explicar as diferenças observadas entre os estudos. Entretanto, as assinaturas de microbiota e metabólitos permanecem achados investigacionais, sem validação suficiente para orientar a seleção de pacientes na prática clínica de rotina.
Portanto, não é adequado afirmar que o glúten nunca desencadeia sintomas na SII. A interpretação mais consistente é que existe um subgrupo com resposta específica, enquanto, para muitos pacientes, os sintomas atribuídos à proteína podem estar relacionados a outros componentes alimentares ou a fatores de expectativa.
O que muda na prática clínica?
As evidências disponíveis não sustentam a recomendação de uma dieta estritamente sem glúten para todos os pacientes com síndrome do intestino irritável. A conduta deve considerar o diagnóstico diferencial, o padrão dos sintomas e a resposta individual às intervenções alimentares.
Na prática, alguns pontos merecem destaque:
- Investigar doença celíaca antes da restrição do glúten, evitando comprometer a avaliação diagnóstica.
- Considerar os FODMAPs, especialmente os frutanos, como possíveis responsáveis por sintomas atribuídos ao trigo.
- Priorizar uma abordagem low-FODMAP quando indicada, com restrição temporária, reintrodução estruturada e personalização da dieta.
- Reservar a dieta sem glúten estrita ou combinada para casos selecionados, especialmente quando a resposta às estratégias iniciais é insuficiente e após avaliação diagnóstica adequada.
- Reavaliar a resposta clínica, evitando restrições prolongadas sem benefício demonstrado.
A dieta com baixo teor de FODMAPs permanece uma das intervenções dietéticas com melhor sustentação científica para o manejo da SII. A dieta sem glúten, por sua vez, pode ser considerada individualmente, mas não deve ser indicada de forma universal nem substituir a investigação de doença celíaca.


Conteúdo atualizado em outubro de 2026.
Leia também:
ROMA IV para diagnóstico de Síndrome do Intestino Irritável
Dieta para Síndrome do Intestino Irritável: Estratégias Nutricionais Comprovadas
Como ocorre o Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado (SIBO)
Disbiose intestinal: guia atualizado sobre sintomas, diagnóstico e tratamento
Sensibilidade ao glúten não celíaca: o que a ciência sabe até agora
—
Referências:
Biesiekierski JR, et al. Non-coeliac gluten sensitivity. Lancet. 2025 Nov 22;406(10518):2494-2508. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01533-8. Epub 2025 Oct 22. PMID: 41138740.
Zhang, J., et al. Efficacy and Safety of a Low-FODMAP Diet in Combination with a Gluten-Free Diet for Adult Irritable Bowel Syndrome: A Systematic Review and Meta-Analysis. Dig Dis Sci 69, 4124–4132 (2024). https://doi.org/10.1007/s10620-024-08671-8
Saadati, S., et al. Effects of a gluten challenge in patients with irritable bowel syndrome: a randomized single-blind controlled clinical trial. Sci Rep 12, 4960 (2022). https://doi.org/10.1038/s41598-022-09055-6
Algera JP, et al. Randomised controlled trial: effects of gluten-free diet on symptoms and the gut microenvironment in irritable bowel syndrome. Aliment Pharmacol Ther. 2022; 56: 1318–1327. https://doi.org/10.1111/apt.17239
































