

A Iniciativa Global para a Asma (GINA) foi criada com o objetivo de aumentar a conscientização sobre a asma, aprimorar seu manejo e contribuir para sua prevenção. Anualmente, em alusão ao Dia Mundial da Asma, o GINA publica um relatório que reúne recomendações e atualizações mais recentes sobre seu diagnóstico, tratamento e manejo.
Considerando que a asma é uma das doenças crônicas mais prevalentes na infância e causa importante de morbidade por doença crônica (medida por ausências escolares, idas ao pronto-socorro e hospitalizações), é imprescindível respaldar nosso conhecimento com o que há de melhor no tratamento da asma infantil.
Principais mudanças do GINA 2026 para o manejo da asma em crianças
📌 Podemos resumir as principais atualizações do GINA 2026 a alguns pilares:
- Track 1 consolidada para as crianças de 6 a 11 anos com a escolha de CI – Formoterol como aliviador preferencial;
- Objetividade na avaliação da gravidade da crise com o escore PRAM obrigatório;
- Quatro novos fluxogramas de crise específicos por cenário e idade;
- Critérios de oxigênio mais cautelosos;
- Técnica inalatória em destaque.
Apesar das mudanças, muitos tópicos permaneceram os mesmos em relação à edição anterior, como, por exemplo, os critérios de diagnóstico da asma, o tratamento inicial e de manutenção em < 6 anos, o tratamento de manutenção para 6-11 anos, classes de medicação utilizadas na manutenção e exacerbação e a não recomendação de LABA para < 6 anos.
GINA 2026: como mudou a terapia de resgate para crianças de 6-11 anos
Iniciando as atualizações, vamos falar do manejo da exacerbação de asma em crianças. Como era antes?
A terapia AIR (Anti-inflammatory Reliever), apesar de já ser recomendada pelo GINA para adultos e adolescentes como primeira linha em alguns cenários desde 2019, na pediatria ainda se mantinha uma postura mais “conservadora” em relação à sua aplicação, permanecendo para essa faixa etária apenas salbutamol isolado para resgate de exacerbações ou CI-formoterol na terapia MART nos Step 3 e 4.
Entretanto, a atualização de 2026 trouxe a extensão dessa recomendação para esse grupo etário (6-11a), com maior evidência de segurança e eficácia, ou seja, uma técnica que já funcionava para maiores, agora com respaldo para ser usada nos menores (juntando o útil ao agradável, não é mesmo?).
Portanto, agora, num cenário de exacerbação leve, usamos a associação CI-formoterol como opção terapêutica (tanto na atenção primária quanto na emergência) para crianças de 6 a 11 anos.
Essa recomendação reforça o conceito central: toda crise é uma oportunidade para iniciar ou corrigir o tratamento anti-inflamatório.
Iniciar CI precocemente reduz sintomas, exacerbações, hospitalizações e o risco de eventos graves relacionados à asma, independentemente da frequência dos sintomas, do histórico de exacerbações ou do perfil inflamatório do paciente.
Assim, o uso de broncodilatadores de curta ação (SABA) definitivamente não é mais recomendado como tratamento único e isolado da asma.


Especificando a terapia de manutenção e resgate: como fica a terapia AIR e MART no GINA 2026
Nos Steps 1 e 2, com a estratégia Air-Only, recomenda-se realizar 1 inalação de CI-formoterol apenas quando necessário para alívio dos sintomas.
No Step 3, com a estratégia MART, o paciente utiliza 1 inalação, 1 ou 2 vezes ao dia como tratamento de manutenção e pode realizar 1 inalação adicional quando necessário para alívio dos sintomas.
No Step 4, com a estratégia MART, a manutenção é feita com 2 inalações duas vezes ao dia, podendo ser realizada 1 inalação adicional quando necessário.
No Step 5, com a estratégia MART, repetimos a mesma posologia do STEP 4, mas com a necessidade de reavaliação do paciente para considerar tratamentos adicionais.
Dose:
– Budesonida-formoterol DPI ou pMDI: 6/200 mcg por inalação
OU
– Beclometasona-formoterol DPI ou pMDI: 100/6 mcg por inalação.
Avaliando a gravidade da crise asmática segundo o GINA 2026
Antes de abordar o manejo medicamentoso da crise, precisamos saber classificá-la corretamente.
Para a Atenção Primária à Saúde (APS), por exemplo, um dos aspectos mais importantes da classificação é identificar quando essa crise de asma é grave ou ameaçadora à vida para transferência do paciente ao centro de referência, se necessário.
Nas edições anteriores, a classificação da gravidade da exacerbação era baseada em alguns critérios clínicos. Agora, o GINA 2026 sugere fortemente a utilização de escores validados para determinar essa gravidade.
O mais recomendado nesse cenário foi o PRAM (Pediatric Respiratory Assessment Measure), que classifica as crises em leves, moderadas, graves ou ameaçadoras à vida, ou seja, em geral, o GINA 2026 nos apresentou um maior refinamento na classificação da gravidade da crise. Esse escore é recomendado para crianças e adolescentes entre 2-17 anos.


Fluxogramas de atendimento: nova padronização
O tratamento da exacerbação ficou mais criterioso nessa atualização do GINA 2026.
Inicialmente, temos a distinção entre tratamento na APS e tratamento emergencial em hospital ou pronto-socorro, além da especificação de cada faixa etária, diferente da forma padronizada para todos os cenários, como nos anos passados.
As melhorias nos fluxogramas desta edição foram perceptíveis, estando mais visualmente bem organizados e definidos.
Assim, o GINA 2026 passou a organizar o manejo das exacerbações asmáticas em quatro fluxogramas específicos:
- Adultos e crianças de 6 a 11 anos na Atenção Primária à Saúde (APS);
- Adultos e crianças de 6 a 11 anos em serviços de emergência ou ambiente hospitalar;
- Crianças menores de 6 anos na Atenção Primária à Saúde (APS);
- Crianças menores de 6 anos em serviços de emergência ou ambiente hospitalar.
Cada fluxograma é dividido conforme a classificação da gravidade feita pelo PRAM.
Além da padronização por meio dos fluxogramas, algumas alterações gerais são bem evidenciadas no manejo da crise, como maior detalhamento das doses dos broncodilatadores.
Nas versões anteriores do GINA, as doses dos broncodilatadores para resgate eram apresentadas em intervalos maiores (por exemplo, 4 a 10 inalações/puffs), permitindo maior variabilidade na escolha do tratamento.
Na atualização de 2026, as recomendações passaram a especificar o número de inalações de acordo com a faixa etária, a gravidade da exacerbação e o cenário de atendimento (APS ou emergência), com o objetivo de evitar a superdosagem e os efeitos colaterais desnecessários.
Ademais, a inclusão de orientações para casos de broncoespasmo grave (anafilaxia), com a formalização do uso de adrenalina intramuscular (IM) antes do manejo da asma com os broncodilatadores, quando indicado.
Essa atualização trouxe mais segurança para a decisão terapêutica dos profissionais, já que anteriormente não havia a especificação de qual fármaco usar primeiro na crise grave de asma.
Também, o alvo de saturação de oxigênio (SpO₂) mudou. Anteriormente era ≥ 94% sem limite superior. Agora recomenda-se ≥ 92% para crianças menores de 6 anos e 92–95% para crianças de 6 a 11 anos.
Dentro desse cenário, o GINA 2026 ainda nos apresentou um maior detalhamento do plano de alta, assegurando ao paciente um tratamento de manutenção, plano em casos de crise e retorno precoce, se necessário.
Técnica inalatória: um ponto reforçado pelo GINA 2026
Por fim, a técnica correta do uso dos dispositivos inalatórios foi reforçada nesta edição.
Sabemos que a maioria dos casos de insucesso terapêutico da asma advém de uma técnica inalatória incorreta e/ou má adesão ao tratamento. Tendo em vista essa realidade, é extremamente importante dar ênfase a alguns detalhes, muitas vezes, negligenciados no manejo da asma, como:
- O SABA por pMDI deve ser utilizado com espaçador e sempre agitando o dispositivo antes de cada puff;
- Administra-se um puff por vez e agitando o inalador antes de cada puff;
- Após cada puff, realizar uma inspiração profunda seguida de apneia por alguns segundos (“respirar e segurar”);
- Em crianças menores de 6 anos ou quando a técnica não for possível, utilize respiração corrente, mantendo o espaçador acoplado à boca por 4 a 5 ciclos respiratórios.


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Referências:
GLOBAL INITIATIVE FOR ASTHMA (GINA). Global strategy for asthma management and prevention: 2026 update. Fontana, WI: Global Initiative for Asthma, 2026.
DALCIN, Paulo de Tarso Roth; GRUTCKI, Denis Maltz; LAPORTE, Paola Paganella; LIMA, Paula Borges de; MENEGOTTO, Samuel Millán; PEREIRA, Rosemary Petrik. Fatores relacionados ao uso incorreto dos dispositivos inalatórios em pacientes asmáticos. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, v. 40, n. 1, p. 13–20, jan./fev. 2014. DOI: 10.1590/S1806-37132014000100003.

































