

Entenda sintomas, transmissão, diagnóstico e tratamento da infecção por hantavírus no Brasil. Saiba reconhecer sinais graves da síndrome cardiopulmonar.
Hantavírus: o que é a hantavirose e como ocorre a infecção
A hantavirose é uma doença infecciosa aguda grave causada por vírus do gênero Hantavírus.
A zoonose é transmitida por ratos silvestres e tem como principais manifestações alterações cardíacas, pulmonares, renais e hemorrágicas.
De forma geral, pode levar a duas síndromes febris graves, dependendo da cepa viral:
- Febre hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR) – cepas do velho mundo (mundo conhecido pelos europeus até ao século XV, ou seja, a Eurásia e África).
- Síndrome cardiopulmonar (SCPH) – cepas do Novo Mundo (Américas principalmente).
Hantavírus no Brasil: epidemiologia, letalidade e grupos de risco
Os hantavírus têm distribuição quase global, com padrões epidemiológicos distintos por região. O primeiro caso descrito foi nos Estados Unidos em 1993 e atualmente, são mais de 100.000 casos no mundo por ano – com alta subnotificação.
Hantavírus no Brasil:
- De 1993 a junho de 2007, foram reportados 884 casos de SCPH no Brasil com taxa de letalidade de 39%.
- A doença ocorre principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
- O estado de São Paulo apresenta áreas de risco médio a alto (>5%) especialmente em municípios com cultivo de cana-de-açúcar.
- A SCPH afeta predominantemente homens (70-80% dos casos), com idade mediana de 34 anos (variação 0-86 anos).
- Cerca de 80% dos casos ocorrem em residentes de áreas endêmicas rurais e 20% em visitantes.
- Estudo com cortadores de cana em Goiás encontrou soroprevalência de 6,9%, destacando a vulnerabilidade desta população a uma doença altamente letal sem tratamento específico ou vacina disponível.


Como ocorre a transmissão do hantavírus?
Os reservatórios desse vírus são os roedores, especialmente os silvestres. Cada genótipo (cepa ou sorotipo) de hantavírus tem uma predileção por uma determinada espécie de roedor. No Brasil:
- Bolomys lasiurus: região do cerrado e caatinga.
- Oligoryzomys nigripes e Akodon cursor: região da floresta amazônica.
- Holochilus sciureus e Oligoryzomys forneso: estado do Maranhão.
De toda forma, nesses roedores, o vírus fica concentrado em grande quantidade na saliva, urina e fezes durante toda a vida. A transmissão ao ser humano ocorre pela inalação de aerossóis formados pelas secreções e excreções de roedores contaminados.
Outra forma de transmissão inclui o contato direto com essas secreções/excreções, através de ingestão de alimentos/água contaminados ou percutânea/mucosa através de dejetos, escoriações e mordedura do roedor.
Apesar de existir relato de transmissão entre humanos, essa forma é rara.


Fisiopatologia da infecção por hantavírus
Após ser inalado pelo ser humano (principal forma de contaminação), o hantavírus atinge o parênquima pulmonar, sendo levado por fagócitos até gânglios linfáticos locais.
Lá, eles se multiplicam, disseminando-se para outras regiões, principalmente células endoteliais de determinados tecidos (tropismo celular) – coração, rim, pulmão e linfonodos.
O sistema imunológico, a partir de seus mecanismos (envolvendo citocinas – o que justifica a febre – e células T), no anseio de parar a infecção, acaba levando a um quadro de capilarite.
Por acometer as células endoteliais, essa capilarite leva a um extravasamento de líquido para o interstício nas regiões afetadas. No pulmão, por exemplo, isso pode levar a quadros de edema pulmonar e formação de membrana hialina, podendo complicar com quadro de Síndrome de Angústia Respiratória do Adulto (SARA).
Hantavírus: sintomas e manifestações clínicas
São duas formas básicas de manifestações clínicas. No entanto, no Brasil, temos somente a forma “Cardiopulmonar”. Essa diferenciação sintomatológica decorre da variação de cepa do vírus.
Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH)
A incubação (período entre a contaminação e o aparecimento dos sintomas) é de cerca de 2 semanas. A progressão da doença ocorre em fases:
Fase 1 – Inespecífica: Duração de 1 a 6 dias.
- O paciente apresenta sintomas gerais como febre, mialgia, dor dorso-lombar, dor abdominal, cefaleia intensa, náuseas, vômitos e diarreia.
- Laboratorialmente pode haver presença de linfócitos atípicos > 10%; plaquetopenia (< 150.000 até 20.000); leucócitos normais ou desvio à esquerda (presença de bastões), hemoconcentração (Hematócrito > 45%).
- Ao raio X comumente há presença de infiltrado pulmonar difuso.
Fase 2 – Cardiopulmonar: Fase mais dramática, com duração muito variável.
- O paciente inicia com tosse seca, taquicardia, taquidispneia, redução da pressão arterial, hipoxemia discreta.
- Pode haver evolução em poucas horas para hipoxemia grave refratária, insuficiência respiratória e choque respiratório/cardiovascular.
- O índice cardíaco é baixo, com elevada resistência vascular periférica.
- Laboratorialmente pode haver leucocitose; neutrofilia com desvio à esquerda; linfopenia; hemoconcentração (Hematócrito > 45%); redução da atividade protrombínica e aumento no tempo parcial de tromboplastina (no coagulograma); elevação de TGO, TGP, LDH; albuminemia; proteinúria e hipoxemia severa.
- Ao raio X, presença de infiltrado intersticial difuso bilateral, derrame pleural e enchimento alveolar.
- Letalidade dessa fase é superior a 50% no Brasil.


Fase 3 – Diurética: Início da resolução do quadro.
- Há aumento da diurese espontânea pela eliminação do líquido acumulado no interstício.
- Há melhora da febre e do choque.
Fase 4 – Convalescença: É o período da melhora.
- Com duração de 2 e 4 semanas, há uma melhora global da função respiratória e dos sintomas hemocardiovasculares.
Febre hemorrágica com síndrome renal associada ao Hantavírus (FHSR)
Forma não presente no Brasil.
O quadro inicial se abre de forma insidiosa com sintomas gerais: cefaleia, febre alta, mialgia, dores abdominais, petéquias pelo corpo, náuseas e vômitos.
Na sequência há rápida evolução para insuficiência renal com hipotensão, oligúria, associada a um importante quadro de hemorragia severa disseminada.
Caso haja resolução, o período da doença dura cerca de 4 semanas.
Diagnóstico da hantavirose: quando suspeitar de hantavírus
O médico deve realizar um exame físico completo, com anamnese questionando fatores de risco relacionados com a doença (exposição).
A partir da suspeita, exames direcionados são importantes para concluir o diagnóstico de hantavírus. A opção mais prática é a sorologia:
- ELISA (IgM/IgG) – deve ser colhida em sangue periférico preferencialmente no início dos sintomas. O IgM fica positivo até 60 dias após o início da doença.
Outras opções:
- RT-PCR (Protein Chain Reaction) – coleta de sangue periférico ou fragmentos de tecidos (como pulmão) e realiza-se amplificação do DNA viral para o diagnóstico.
- Imunohistoquímica (para análise de tecidos pulmonares, cardíacos etc.) – particularmente importante na análise de pacientes que foram a óbito, para fins epidemiológicos.
Hantavirose: definição de caso segundo o Ministério da Saúde
De acordo com a Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, um caso de síndrome cardiopulmonar (SCPH) (único presente no Brasil) pode ser confirmado de acordo com alguns critérios:
CASO SUSPEITO:
- Sinais/sintomas de insuficiência respiratória aguda de etiologia não determinada, na primeira semana da doença; ou
- Paciente com enfermidade aguda, apresentando quadro de insuficiência respiratória aguda, com evolução para óbito na primeira semana de doença; ou
- Paciente com quadro febril (acima de 38), mialgia, cefaleia e que tenha exposição a uma situação de risco, relacionado ou não a casos confirmados laboratorialmente.
CASO CONFIRMADO:
- Critério Laboratorial: caso suspeito com os seguintes resultados de exames laboratoriais emitidos, apenas, por laboratórios da rede do Ministério da Saúde:
- Sorologia reagente para anticorpos séricos específicos para hantavírus da classe IgM; ou
- Imunohistoquímica de tecidos positiva (identificação de antígenos específicos de hantavírus); ou
- RT-PCR positivo para hantavírus.
- Critério Clínico-Epidemiológico: Indivíduo com quadro clínico de insuficiência respiratória aguda, que tenha evoluído para óbito, sem coleta de amostras para exames específicos, e que tenha frequentado áreas conhecidas de transmissão de hantavírus ou exposição à mesma situação de risco de pacientes confirmados laboratorialmente, nos últimos 60 dias.
CASO DESCARTADO:
Todo caso suspeito, que durante a investigação tenha diagnóstico confirmado laboratorialmente de outra doença ou que não preencha os critérios de confirmação acima definidos.
Hantavírus: principais diagnósticos diferenciais
- Leptospirose
- Influenza
- Dengue
- COVID-19
- Pneumonia atípica
- Sepse bacteriana
- Febre Amarela
- Coxsackies
- Adenovírus
- Malária
- Pneumonias
- DPOC
- Asma
- Histoplasmose
- Pneumocistose
- Abdômen agudo
- Diversas doenças reumatológicas – lúpus, artrite reumatoide, vasculites
- Vasculopatias
👉 Quando suspeitar de hantavirose?
- Febre + mialgia + exposição rural
- Insuficiência respiratória aguda inexplicada
- Plaquetopenia + hemoconcentração
- Edema pulmonar de rápida evolução
Tratamento da hantavirose e manejo da infecção por hantavírus
Vacinas preventivas são pouco imunogênicas e disponíveis somente em poucos locais do mundo. As principais medidas de prevenção incluem:
- Controle de roedores.
- Orientar ecoturistas, caçadores e pescadores a evitar locais potencialmente de risco.
- Ambientes fechados potencialmente contaminados devem ser mantidos ventilados, e limpos com solução de água sanitária a 10% (o envelope lipídico viral não é resistente); não varrer o chão antes de estar úmido, pois isso pode facilitar a inalação.
Todos os pacientes com infecção por Hantavírus devem ser internados, preferencialmente em UTI devido ao risco inerente a complicações pela doença. A equipe de saúde deverá usar avental, luvas e máscaras N95.


Não existe terapêutica antiviral específica eficaz, sendo o tratamento de suporte.
- Monitorização Contínua: ECG, oximetria de pulso, pressão arterial invasiva (ou não invasiva), temperatura, débito urinário.
- Controle metabólico: gasometria + eletrólitos seriados (Na, K, Mg, P, Ca) + glicemia.
- Manter nutrição: passagem de sonda nasogástrica para alimentação caso o paciente não tenha capacidade de se alimentar sozinho.
- Acessos: venosos calibrosos periféricos. Avaliar a necessidade de acesso central.
- Suporte Respiratório: ponto fundamental do tratamento. Não se deve retardar a ventilação mecânica em pacientes com sinais de insuficiência respiratória.
- Controle volêmico: buscando a homeostase, mantendo o paciente adequadamente hidratado, melhorando quadros de hipotensão. Deve ser feito de forma cuidadosa para evitar piora do edema pulmonar, buscando manter balanço hídrico negativo ou próximo de zero.
- Controle da dor e febre: várias opções de analgésicos e antitérmicos. Deve-se evitar AAS pelo potencial efeito de sangramento.
- Proteção gástrica: evitar úlcera gástrica de estresse ou hemorrágica.
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Referências:
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