

O ácido úrico é um dos exames laboratoriais mais solicitados na investigação da artrite gotosa. Entretanto, sua interpretação exige cautela: níveis elevados não confirmam o diagnóstico, enquanto pacientes com crise aguda podem apresentar concentrações séricas dentro da faixa de referência.
Entenda quando solicitar o exame de ácido úrico, como interpretar seus resultados e quais são suas limitações clínicas.
Como o ácido úrico é produzido?
O ácido úrico é o produto final do metabolismo das purinas, bases nitrogenadas presentes nos ácidos nucleicos. Essas purinas podem ser provenientes da dieta (especialmente carnes vermelhas, miúdos, frutos do mar, sardinhas, anchovas, cerveja e outras bebidas alcoólicas) ou sintetizadas pelo próprio organismo.
Durante sua degradação, as purinas são convertidas em hipoxantina e, posteriormente, em xantina. Sob a ação da enzima xantina oxidase, a xantina é transformada em ácido úrico, que passa a circular no plasma.
A homeostase do ácido úrico depende do equilíbrio entre sua produção e eliminação. Cerca de dois terços da excreção ocorre pelos rins e o restante pelo trato gastrointestinal.
A concentração sérica é regulada principalmente por transportadores renais e intestinais, como URAT1 (SLC22A12), GLUT9 (SLC2A9) e ABCG2, responsáveis pela reabsorção e secreção tubular de urato.
A hiperuricemia resulta do aumento da produção de ácido úrico, da redução de sua excreção ou da combinação de ambos os mecanismos.
Aproximadamente 90% dos casos decorrem de diminuição da eliminação renal, frequentemente associada ao uso de diuréticos (especialmente tiazídicos), consumo de álcool, obesidade, síndrome metabólica, doença renal crônica e outras condições que comprometem a excreção de urato.
Como a hiperuricemia leva à gota?
A hiperuricemia é o principal fator de risco para o desenvolvimento da gota e é definida, na prática clínica, por concentrações séricas de ácido úrico ≥ 7 mg/dL (0,42 mmol/L).
Quando os níveis séricos ultrapassam o limite de solubilidade do urato (6,8 mg/dL ou aproximadamente 400 μmol/L, em condições fisiológicas), ocorre favorecimento da formação e do crescimento de cristais de urato monossódico.
Esses cristais podem se depositar nas articulações, bursas e tecidos periarticulares, desencadeando a resposta inflamatória característica da artrite gotosa.
A interação dos cristais com células do sistema imune ativa o inflamassoma NLRP3, promovendo a liberação de citocinas pró-inflamatórias, especialmente a interleucina-1β (IL-1β), além do recrutamento intenso de neutrófilos. Esse processo resulta na inflamação aguda responsável pelas crises de gota.


Quais os valores de referência do ácido úrico?
Os valores de referência podem variar discretamente entre os laboratórios, mas, de forma geral, considera-se:


Em idosos, concentrações séricas discretamente mais elevadas podem ser observadas como variação fisiológica. Valores superiores a 12 mg/dL são considerados críticos e exigem avaliação clínica, devido ao maior risco de complicações relacionadas à hiperuricemia.
Como interpretar o resultado na suspeita de gota?
A interpretação deve sempre ser feita em conjunto com o quadro clínico.
Embora a hiperuricemia seja o principal fator de risco para a artrite gotosa, não existe um valor sérico que confirme ou exclua o diagnóstico. Muitos indivíduos com valores persistentemente elevados nunca desenvolvem gota, enquanto pacientes em crise aguda podem apresentar concentrações dentro da faixa de referência.
Do ponto de vista fisiopatológico, a formação de cristais de urato é favorecida quando a concentração sérica ultrapassa aproximadamente 6,8 mg/dL, que corresponde ao limite de solubilidade do urato em condições fisiológicas.
Porém, esse valor não representa um ponto de corte diagnóstico, pois fatores como temperatura, pH, duração da condição e predisposição individual influenciam a cristalização.
Assim, o exame deve ser interpretado como um marcador de risco e de acompanhamento, e não como um teste confirmatório. Sempre que possível, o diagnóstico definitivo deve ser estabelecido pela identificação de cristais de urato monossódico no líquido sinovial ou em tofos.
Ácido úrico elevado confirma gota?Não. A hiperuricemia é o principal fator de risco para a artrite gotosa, mas não confirma o diagnóstico da doença. Embora praticamente todos os pacientes com gota apresentem hiperuricemia em algum momento da evolução, a maioria das pessoas com níveis séricos elevados permanece assintomática ao longo da vida. Além disso, durante uma crise aguda de gota, os níveis séricos podem estar dentro da faixa de referência.
Quais condições podem elevar o ácido úrico?
A hiperuricemia também pode ocorrer em diversas outras situações clínicas, entre elas:
- doença renal crônica;
- síndrome de lise tumoral;
- rabdomiólise;
- aumento da ingestão de purinas;
- hipotireoidismo;
- obesidade e síndrome metabólica;
- consumo excessivo de álcool.
Além das doenças de base, diversos medicamentos podem elevar os níveis séricos de ácido úrico, especialmente diuréticos tiazídicos e de alça, ácido acetilsalicílico em baixas doses, ciclosporina e tacrolimo.
Quais fatores podem interferir no exame?
A interpretação do resultado deve considerar possíveis interferentes pré-analíticos e farmacológicos.
O uso recente de contraste iodado pode reduzir transitoriamente as concentrações séricas de ácido úrico, enquanto fatores como estresse físico intenso e exercício extenuante podem alterar seus níveis.
Também é importante revisar a medicação em uso pelo paciente, uma vez que diferentes fármacos podem aumentar ou reduzir a uricemia.
Por fim, pequenas variações circadianas são esperadas, com concentrações geralmente mais elevadas durante o dia e menores no período noturno.
Como interpretar o ácido úrico urinário de 24 horas?
Embora seja dosado rotineiramente no sangue, sua quantificação na urina de 24 horas pode ser útil em situações específicas, como na investigação da hiperuricemia, da gota recorrente e da nefrolitíase por ácido úrico.
Aproximadamente 75% é eliminado pelos rins e os 25% restantes pelo trato gastrointestinal. A excreção renal resulta do equilíbrio entre filtração glomerular, reabsorção e secreção tubular, processos regulados por transportadores específicos ao longo do túbulo proximal.
O aumento da excreção urinária de ácido úrico é denominado hiperuricosúria. Essa condição pode ocorrer por aumento da produção de urato ou por maior excreção renal e está associada a maior risco de supersaturação urinária, cristalização e formação de cálculos de ácido úrico.
A dosagem urinária de 24 horas também auxilia na diferenciação entre pacientes com hiperprodução e aqueles com redução da excreção renal de ácido úrico, informação que pode contribuir para a investigação etiológica e para a escolha do tratamento em casos selecionados.
Para a realização do exame, todo o volume urinário produzido ao longo de 24 horas deve ser coletado em recipiente apropriado, conforme orientação do laboratório.


📌 Quando solicitar o ácido úrico urinário de 24 horas?
- Investigação de nefrolitíase por ácido úrico;
- Avaliação de hiperuricosúria;
- Casos selecionados de gota, principalmente em pacientes jovens ou com suspeita de hiperprodução de urato;
- Investigação de distúrbios do metabolismo das purinas.
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Conteúdo atualizado em julho de 2026
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Referências:
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McCormick N, Yokose C, Challener GJ, Joshi AD, Tanikella S, Choi HK. Serum Urate and Recurrent Gout. JAMA. 2024;331(5):417–424. doi:10.1001/jama.2023.26640

































