

Iptacopana é incorporada ao SUS
O tratamento da hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) ganhou uma nova opção na rede pública de saúde. O Ministério da Saúde incorporou a iptacopana ao Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando as alternativas terapêuticas para adultos que permanecem com anemia apesar do uso de inibidores do complemento C5.
A incorporação foi anunciada em 29 de outubro. Atualmente, cerca de 600 pessoas recebem tratamento para HPN pelo sistema público.
A iptacopana é um medicamento oral que inibe o fator B do sistema complemento e pode ser administrado duas vezes ao dia, em domicílio. Entre os benefícios observados estão o aumento dos níveis de hemoglobina, a redução da necessidade de transfusões sanguíneas e a melhora de manifestações clínicas, como a fadiga.
A decisão foi precedida de avaliação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que considerou as evidências científicas de eficácia, efetividade e segurança, além de aspectos de custo-efetividade e impacto orçamentário.
Como a iptacopana atua no tratamento da HPN?
Para compreender a importância dessa incorporação, é necessário considerar uma limitação do tratamento convencional da HPN.
O eculizumabe, medicamento já disponibilizado pelo SUS como primeira linha, atua bloqueando o componente C5 do sistema complemento. Essa estratégia controla a hemólise intravascular, mas não impede completamente a deposição de fragmentos de C3 sobre as hemácias. Como consequência, alguns pacientes continuam apresentando hemólise extravascular e anemia, mesmo com o bloqueio adequado de C5.
A iptacopana atua em uma etapa anterior da cascata: é um inibidor oral do fator B, componente essencial da via alternativa do complemento. Ao impedir a formação e a amplificação da C3-convertase dessa via, reduz a deposição de C3 sobre as hemácias e, consequentemente, sua remoção por macrófagos.
Dessa forma, o medicamento permite controlar tanto a hemólise intravascular quanto a extravascular, oferecendo uma alternativa para pacientes que mantêm anemia apesar do tratamento com inibidores de C5.


A eficácia do iptacopan (Fabhalta) foi investigada principalmente nos estudos APPOINT-PNH e APPLY-PNH.
Estudo APPOINT-PNH
O estudo avaliou o iptacopan em adultos com HPN que não haviam recebido tratamento prévio com inibidores do complemento.
Os resultados demonstraram melhora expressiva dos parâmetros hematológicos. Aproximadamente 92% dos participantes alcançaram aumento de hemoglobina igual ou superior a 2 g/dL, com elevação média de 4,3 g/dL.
Estudo APPLY-PNH
O estudo investigou pacientes que permaneciam anêmicos apesar do tratamento com inibidores de C5, como eculizumabe ou ravulizumabe.
O iptacopan demonstrou superioridade em relação à manutenção da terapia anti-C5, com resultados relevantes:
- 51 dos 60 pacientes tratados com iptacopan alcançaram aumento de hemoglobina igual ou superior a 2 g/dL.
- 42 dos 60 pacientes atingiram níveis de hemoglobina iguais ou superiores a 12 g/dL, sem necessidade de transfusão sanguínea.
Os resultados reforçam o potencial do bloqueio proximal do complemento como estratégia para pacientes com resposta hematológica insuficiente aos inibidores de C5.
Hemoglobinúria paroxística noturna: definição e fisiopatologia
A hemoglobinúria paroxística noturna é uma doença hematológica rara, adquirida e potencialmente grave, caracterizada por hemólise intravascular mediada pelo sistema complemento.
A condição resulta de uma mutação somática no gene PIGA, presente em uma célula-tronco hematopoiética. Essa alteração compromete a síntese da âncora de glicosilfosfatidilinositol (GPI), responsável por fixar determinadas proteínas à membrana celular.
Entre essas proteínas estão o CD55 e o CD59, que atuam como reguladores da atividade do sistema complemento. Na ausência dessas moléculas, as células sanguíneas tornam-se mais suscetíveis à destruição mediada pelo complemento.


O clone hematopoiético alterado pode originar hemácias, granulócitos e plaquetas deficientes em proteínas ancoradas por GPI. Entretanto, a manifestação clínica mais característica é a hemólise intravascular das hemácias.
A doença pode se manifestar com diferentes combinações de:
- Anemia hemolítica: decorrente da destruição prematura das hemácias.
- Hemoglobinúria: eliminação urinária de hemoglobina livre, especialmente em episódios de hemólise mais intensa.
- Fadiga: relacionada à anemia e à própria atividade da doença.
- Citopenias: que podem envolver diferentes linhagens celulares e estar associadas à disfunção da medula óssea.
- Trombose: uma das complicações mais graves da HPN, podendo acometer territórios venosos ou arteriais, inclusive locais atípicos.
Por que a doença recebe esse nome?
A denominação hemoglobinúria paroxística noturna está relacionada à descrição histórica da doença:
- Hemoglobinúria: refere-se à presença de hemoglobina na urina, decorrente da hemólise intravascular.
- Paroxística: descreve episódios de manifestação súbita ou exacerbada.
- Noturna: está relacionada às observações históricas de maior frequência de hemoglobinúria durante a noite.
Entretanto, apesar do nome, a hemólise não ocorre exclusivamente durante o período noturno. A ativação do sistema complemento pode acontecer continuamente, independentemente do horário do dia.
A HPN também é conhecida historicamente como doença de Marchiafava-Micheli, em referência aos pesquisadores que contribuíram para sua caracterização clínica.


Tratamento da HPN: quais são os outros inibidores do complemento disponíveis?
O tratamento da HPN evoluiu significativamente com o desenvolvimento de medicamentos capazes de bloquear diferentes etapas do sistema complemento. Além de iptacopan, outras terapias ampliaram as possibilidades de tratamento da doença.
Entre as principais opções estão:
- Pegcetacoplan: inibidor de C3, atua em uma etapa proximal da cascata do complemento, reduzindo a hemólise intravascular e extravascular.
- Danicopan: inibidor oral do fator D, utilizado como terapia adicional aos inibidores de C5 em pacientes com anemia hemolítica extravascular persistente.
- Crovalimabe: anticorpo monoclonal que inibe C5, administrado por via subcutânea, oferecendo uma alternativa ao esquema intravenoso de outros anti-C5.
Essas terapias representam uma mudança importante na abordagem da HPN, permitindo individualizar o tratamento de acordo com o mecanismo predominante de hemólise e a resposta clínica do paciente.
Leia também:
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Referências:
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde moderniza tratamento e incorpora novo medicamento no SUS para hemoglobinúria paroxística noturna. Publicado em 29/10/2026.
Syed, Y.Y. Iptacopan: First Approval. Drugs 84, 599–606 (2024). https://doi.org/10.1007/s40265-024-02009-4
Kelly, R.J., Holt, M. & Szer, J. Pharmacological Therapies in Paroxysmal Nocturnal Haemoglobinuria: Focus on Complement Inhibition. Drugs 85, 1413–1428 (2025). https://doi.org/10.1007/s40265-025-02235-4































