Semaglutida genérica: fim da exclusividade no Brasil?

canetas de semaglutida utilizadas no tratamento da diabetes e da obesidade

Anvisa aprova as primeiras versões genéricas e similares da semaglutida para tratamento do diabetes tipo 2.

Anvisa aprova novas canetas de semaglutida para diabetes tipo 2

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou duas novas apresentações injetáveis de semaglutida para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2.

Embora a notícia possa parecer apenas mais uma atualização regulatória envolvendo os agonistas do receptor de GLP-1, ela marca um momento importante para o mercado brasileiro: a chegada das primeiras versões genéricas e similares da molécula amplamente conhecida por medicamentos como Ozempic®.

Os novos registros foram concedidos à EMS, responsável pela versão genérica sem nome comercial, e à Germed, que comercializará o produto similar sob o nome Semaclique®.

As canetas foram aprovadas para uso em adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado, como adjuvantes à dieta e à atividade física, tanto em monoterapia (quando a metformina não pode ser utilizada) quanto em associação a outros antidiabéticos.

A administração permanece semanal, por via subcutânea, utilizando canetas preenchidas multidose.

 

O que muda com a chegada da semaglutida genérica?

Mais do que aumentar o número de marcas disponíveis, a aprovação das novas canetas pode representar um passo importante para ampliar o acesso aos agonistas de GLP-1 no Brasil.

Nos últimos anos, a semaglutida tornou-se um dos medicamentos mais prescritos para diabetes e obesidade em todo o mundo. Entretanto, o alto custo do tratamento ainda é uma barreira significativa para muitos pacientes.

A entrada de versões genéricas e similares tende a aumentar a concorrência no mercado e, potencialmente, favorecer a redução de preços ao longo do tempo.

Embora ainda não existam informações oficiais sobre valores ou disponibilidade comercial, especialistas acompanham com atenção os possíveis impactos dessa mudança sobre o acesso ao tratamento.

paciente segurando uma caneta de semaglutida

Semaglutida: muito além do controle glicêmico

A semaglutida é um agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), apresentando aproximadamente 94% de homologia estrutural com o GLP-1 humano.

Seu mecanismo de ação envolve múltiplas vias fisiológicas:

  • aumento da secreção de insulina de forma glicose-dependente;
  • redução da secreção de glucagon;
  • retardo do esvaziamento gástrico;
  • aumento da saciedade e redução do apetite por ação central.

Esses efeitos explicam não apenas seu impacto sobre o controle glicêmico, mas também sua eficácia na redução de peso e nos desfechos cardiovasculares observados nos últimos anos.

Atualmente, diferentes formulações de semaglutida possuem indicações aprovadas internacionalmente para diabetes tipo 2, obesidade, redução do risco cardiovascular e, mais recentemente, para pacientes com esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH).

 

Benefícios cardiovasculares e renais da semaglutida

A história da semaglutida mudou significativamente após a publicação dos grandes estudos de desfechos cardiovasculares.

No estudo SELECT, envolvendo pacientes com obesidade ou sobrepeso e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes, a semaglutida promoveu uma redução de 20% nos eventos cardiovasculares maiores (MACE).

Já o estudo SOUL demonstrou benefício cardiovascular também para a formulação oral em pacientes com diabetes tipo 2 de alto risco cardiovascular, com redução relativa de 14% nos eventos cardiovasculares maiores.

Além disso, evidências acumuladas apontam benefícios que vão além da glicemia, incluindo:

  • redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca;
  • diminuição da mortalidade cardiovascular;
  • redução do risco de infarto agudo do miocárdio;
  • menor incidência de acidente vascular cerebral;
  • proteção renal em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

Esses resultados ajudam a explicar por que os agonistas de GLP-1 passaram a ocupar posição de destaque em diretrizes internacionais de diabetes, obesidade e prevenção cardiovascular.

semaglutida para obesidade, que não é recomendado de forma isolada segundo as diretrizes de obesidade 2026

Segurança e efeitos adversos dos agonistas de GLP-1

Os eventos adversos mais frequentes da semaglutida continuam sendo os gastrointestinais, especialmente durante a fase de escalonamento da dose. Os sintomas mais comuns incluem: náuseas, vômitos, diarreia e constipação.

Outros aspectos relevantes da segurança incluem:

  • aumento do risco de colelitíase e colecistite;
  • cautela em pacientes com gastroparesia;
  • risco aumentado de hipoglicemia quando associada à insulina ou sulfonilureias;
  • contraindicação em pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2).

Apesar das preocupações históricas envolvendo pancreatite e câncer de tireoide, os dados atuais não demonstram associação causal consistente para a maioria desses desfechos.

 

O que esperar agora?

A aprovação das novas apresentações não altera o papel da semaglutida nas diretrizes atuais, mas pode inaugurar uma nova etapa para os agonistas de GLP-1 no Brasil.

Se a ampliação da concorrência resultar em maior disponibilidade e redução de custos, o impacto poderá ir além do mercado farmacêutico, aumentando o acesso a uma classe terapêutica que já demonstrou benefícios glicêmicos, cardiovasculares, renais e metabólicos em diferentes populações de pacientes.

Leia também:

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Diretrizes de Obesidade 2026: ABESO contraindica remédio isolado

 

Referências:

BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Anvisa aprova duas novas canetas para tratamento de diabetes. Publicado em 17/08/2026.

Deanfield J, Lincoff AM, Kahn SE, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes by baseline and changes in adiposity measurements: a prespecified analysis of the SELECT trial. Lancet. 2025;406(10516):2257-2268. doi:10.1016/S0140-6736(25)01375-3

Cleto AS, Schirlo JM, Beltrame M, et al. Semaglutide effects on safety and cardiovascular outcomes in patients with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis. Int J Obes (Lond). 2025;49(1):21-30. doi:10.1038/s41366-024-01646-9

Bracchiglione J, Meza N, Franco JVA, Escobar Liquitay CM, Novik A V, Ocara Vargas M, Lazcano G, Poloni D, Rinaldi Langlotz F, Roqué-Figuls M, Munoz SR, Madrid E. Semaglutide for adults living with obesity. Cochrane Database of Systematic Reviews 2025, Issue 10. Art. No.: CD015092. DOI: 10.1002/14651858.CD015092.pub2. Accessed 18 August 2026.

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