Intoxicação por paracetamol: como identificar e tratar corretamente

paciente sendo avaliada por intoxicação por paracetamol

A intoxicação por paracetamol está entre as causas mais comuns de intoxicação medicamentosa na prática clínica. Isso se deve, em grande parte, à ampla utilização do fármaco (frequentemente prescrito e disponível sem receita), o que favorece exposições acidentais e intencionais.

Neste artigo, revisamos de forma objetiva os principais aspectos da intoxicação por paracetamol, incluindo fisiopatologia, diagnóstico e manejo.

O que é o paracetamol e qual seu mecanismo de ação?

O paracetamol, também conhecido como acetaminofeno, é um dos medicamentos mais utilizados no mundo para o alívio da dor e da febre. Sua popularidade se deve à eficácia, boa tolerabilidade e ampla disponibilidade, inclusive sem prescrição médica.

Seu mecanismo de ação ocorre principalmente por meio da inibição da enzima cicloxigenase (COX), reduzindo a produção de prostaglandinas, substâncias envolvidas na geração da dor e da febre. Embora atue sobre essa via, o paracetamol possui efeito anti-inflamatório limitado quando comparado a outros fármacos da mesma classe.

Além disso, o medicamento também atua no sistema nervoso central, diminuindo a percepção da dor ao bloquear a geração e a transmissão de estímulos dolorosos, o que explica seu importante efeito analgésico.

No Brasil, o paracetamol é amplamente comercializado tanto na forma genérica quanto sob diversos nomes comerciais. Entre os mais conhecidos estão Tylenol®, além de outras marcas como Tylemax®, Tyflen®, Trimedal® e Cimegripe®, frequentemente utilizadas em formulações combinadas para sintomas gripais.

Leia também: Paracetamol – indicações, doses seguras e riscos na prática clínica.

Como ocorre a intoxicação por paracetamol? Entenda o mecanismo e os riscos

A intoxicação por acetaminofeno pode ocorrer tanto por ingestão acidental de doses elevadas quanto em contextos de tentativa de suicídio. Por ser um medicamento amplamente disponível, esse cenário é mais comum do que se imagina na prática clínica.

Após a ingestão, o paracetamol é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal e metabolizado no fígado por diferentes vias:

  • Cerca de 90% do fármaco é convertido em metabólitos não tóxicos (sulfatados e glicuronídeos), que são eliminados pela urina.
  • Aproximadamente 5 a 10% é metabolizado pelo sistema do citocromo P450 (principalmente CYP2E1), originando o metabólito tóxico NAPQI (N-acetil-p-benzoquinona imina).

Em condições normais, o NAPQI é rapidamente neutralizado pela glutationa hepática, formando compostos não tóxicos que também são eliminados pela urina.

No entanto, em casos de superdose de paracetamol, ocorre a saturação das vias principais (sulfatação e glicuronidação). Com isso, há um desvio do metabolismo para a via do citocromo P450, levando a uma produção excessiva de NAPQI.

Como as reservas de glutation são limitadas, esse metabólito tóxico passa a se acumular e reagir com as células hepáticas, resultando em lesão hepatocelular — mecanismo central da intoxicação.

mecanismo da intoxicação por paracetamol e formação de NAPQI

Fatores que aumentam o risco de toxicidade

Algumas condições podem potencializar a toxicidade do paracetamol, mesmo em doses menores:

  • Idade avançada
  • Uso crônico de álcool
  • Tabagismo
  • Uso concomitante de medicamentos indutores do citocromo P450 (como carbamazepina, fenobarbital, rifampicina e isoniazida)

Por outro lado, é importante destacar que a ingestão aguda de álcool não aumenta o risco imediato de toxicidade do paracetamol.

 

Quais são os sintomas da intoxicação por paracetamol?

As manifestações iniciais de toxicidade por acetaminofeno são geralmente inespecíficas. No entanto, deve-se estar atento para reconhecer a sua evolução. A clínica é então dividida em quatro estágios sequenciais, a partir da ingestão da dose tóxica:

  • Estágio 1 (30 min – 24 horas): Presença de quadro de náuseas, vômitos, letargia, transpiração excessiva. Raramente há rebaixamento do sistema nervoso central.

  • Estágio 2 (24 horas – 72 horas): melhora aparente dos sintomas descritos no “estágio 1”. No entanto, laboratorialmente, começa a se observar elevação de aminotransferases hepáticas, do tempo de protrombina e da bilirrubina total. Alterações renais podem se tornar evidentes. Com a progressão, o paciente começa a ter seu fígado aumentado associado a uma sensibilidade aumentada em hipocôndrio direito.

  • Estágio 3 (72 horas – 96 horas): estágio mais crítico, com elevado risco de óbito. Os sintomas inespecíficos retornam, em associação à icterícia e confusão mental (encefalopatia hepática). Laboratorialmente, há um aumento das aminotransferases hepáticas, que podem alcançar valores superiores a 10.000 UI/L. Além disso, há prolongamento de TAP/INR, acidose láctica, hipoglicemia e aumento de bilirrubinas acima de 4 mg/dL. Quadro de insuficiência renal pode estar presente em até 25% dos casos.

  • Estágio 4 (4 dias – 2 semanas): Caso o paciente sobreviva ao estágio 3, ocorre uma melhora gradual da clínica e dos exames laboratoriais em cerca de 2 semanas. Há então uma completa recuperação histológica hepática, usualmente sem consequências crônicas.

 

Intoxicação por paracetamol: o que fazer nas primeiras horas?

O manejo inicial da intoxicação por paracetamol deve ser rápido e sistematizado, já que as primeiras horas são decisivas para reduzir o risco de lesão hepática.

Medidas iniciais de suporte

Todos os pacientes devem receber suporte clínico adequado, incluindo:

  • Monitorização contínua dos sinais vitais
  • Controle hidroeletrolítico
  • Hidratação endovenosa
  • Proteção de vias aéreas, se necessário
  • Suporte avançado em casos graves

Carvão ativado: quando indicar e como usar

O carvão ativado é uma das principais medidas nas fases iniciais da intoxicação.

  • Indicação: ingestão de dose potencialmente tóxica em até 4 horas
  • Mecanismo: liga-se ao paracetamol no trato gastrointestinal, reduzindo sua absorção

Após esse período, sua eficácia diminui significativamente.

Como prescrever carvão ativado:

  • Dose: 1 g/kg (máximo de 50 g)
  • Diluição: em água ou soro fisiológico 0,9% (aproximadamente 8 mL por grama)
  • Administração: via oral ou por sonda nasogástrica
  • Pode ser repetido após 2 horas, em casos selecionados

⚠️ Atenção: em pacientes com rebaixamento do nível de consciência, o carvão ativado só deve ser administrado se houver proteção de vias aéreas (ex.: paciente intubado). A intubação, por si só, não é indicação para o uso do carvão.

Lavagem gástrica e ipeca: ainda têm papel?

Métodos como lavagem gástrica e indução de vômito (ex.: xarope de ipeca) até podem reduzir a absorção do paracetamol, mas são menos eficazes que o carvão ativado e não são recomendados de rotina.

 

Qual antídoto do paracetamol?

A N-acetilcisteína (NAC) é o antídoto de escolha na intoxicação por paracetamol e deve ser iniciada o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras 8 a 10 horas após a ingestão, quando apresenta maior eficácia na prevenção de lesão hepática.

Seu mecanismo de ação envolve a reposição das reservas de glutation hepática e a neutralização do metabólito tóxico NAPQI, reduzindo o dano hepatocelular.

Quando indicar N-acetilcisteína? (critérios práticos)

A indicação baseia-se nos níveis séricos de paracetamol e no contexto clínico:

Níveis séricos (tempo após ingestão):

  • 150 mg/L em 4 horas
  • 70 mg/L em 8 horas
  • 35 mg/L em 12 horas
  • 4 mg/L em 24 horas

Outras indicações importantes:

  • Ingestão aguda ≥ 7,5 g, independentemente do peso
  • Tempo de ingestão desconhecido + nível sérico > 10 mg/L
  • Qualquer dose associada a sinais de lesão hepática
  • Pacientes com apresentação tardia (>24 horas) e exames alterados

⚠️ Atenção: o início da N-acetilcisteína não deve ser atrasado aguardando resultados laboratoriais. Em casos suspeitos ou graves, o tratamento deve ser iniciado empiricamente.

Via oral ou endovenosa: qual escolher?

A N-acetilcisteína pode ser administrada por via oral ou endovenosa, com eficácia semelhante.

  • Via oral: opção em pacientes estáveis, sem vômitos
  • Via endovenosa: preferida em casos de:
    • Vômitos persistentes
    • Rebaixamento do nível de consciência
    • Insuficiência hepática
    • Intolerância ou recusa da via oral

Esquemas de administração da N-acetilcisteína

Protocolo oral (72 horas)

  • Dose de ataque: 140 mg/kg
  • Manutenção: 70 mg/kg a cada 4 horas (17 doses)

Protocolo endovenoso (20 horas)

  • Ataque: 150 mg/kg em 1 hora
  • Seguimento:
    • 50 mg/kg em 4 horas
    • 100 mg/kg em 16 horas

Monitorização durante o tratamento

Durante o uso da N-acetilcisteína, é fundamental acompanhar:

  • Níveis séricos de paracetamol
  • Transaminases (TGO/TGP)
  • Coagulograma

A avaliação deve ser realizada a cada 12 horas, ou conforme a gravidade, para garantir resposta adequada ao tratamento.

paciente em tratamento por intoxicação por paracetamol

Seguimento após intoxicação por paracetamol: o que monitorar e quando acompanhar?

Durante a fase aguda da intoxicação por paracetamol, não há evidência de que a dosagem seriada dos níveis séricos do fármaco altere o prognóstico clínico, especialmente após a definição da conduta inicial.

O que monitorar durante a internação?

Após o quadro inicial, o foco deve ser a avaliação de lesão orgânica, com monitorização de:

  • Transaminases (TGO/TGP)
  • Coagulograma
  • Eletrólitos
  • Gasometria arterial
  • Ureia e creatinina

Esses exames devem ser acompanhados até a normalização ou estabilização clínica.

Quem precisa de seguimento após a alta?

  • Sem complicações: geralmente não necessitam de seguimento específico.
  • Intoxicação intencional: forte recomendação de acompanhamento psiquiátrico.
  • Com complicações: seguimento individualizado conforme o órgão acometido.

Risco de evolução grave

Nos casos de hepatotoxicidade significativa, cerca de 4% dos pacientes evoluem para insuficiência hepática aguda, podendo necessitar de avaliação para transplante hepático.

 

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Este conteúdo foi desenvolvido para médicos e estudantes de medicina, com base em revisão prática e atualizada para tomada de decisão clínica.

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⚠️ Este material tem finalidade exclusivamente educacional e é direcionado a profissionais da saúde.

Referências:

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