Cuidados Paliativos: quando não há mais nada a se fazer; será?

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A maioria de nós já ouviu ao menos uma vez que alguém entrou em cuidados paliativos pois não havia mais nada a se fazer no caso. Bem como muitos de nós associamos que essa prática é destinada para o final da vida. No entanto, não estaríamos todos nós mais próximos do final da vida desde que nascemos? E, se essa é nossa realidade, não deveríamos falar mais sobre esses cuidados e sobre aquela palavrinha que a maioria não gosta nem de pensar (que dirá falar) que começa com “m” de morte?

O tabu de falar sobre morte

Morte. Uma palavra forte. Algo que para muitos ainda é tabu. Espera aí, como assim um texto que era para falar sobre saúde começa falando justamente sobre aquilo que queremos evitar quando pensamos em saúde? Só falta dizer agora que saúde e morte podem ser algo próximas… Será?

Quando observamos o espectro da vida percebemos que na maioria das vezes nos preparamos por nove meses ou mais para um nascimento, mas ao longo dela nada (ou quase nada) falamos sobre o outro lado da moeda. Estranho isso, não?

AnaMi no livro “Enquanto eu respirar” nos mostra que “é possível ressignificar uma vida inteira quando você descobre o óbvio: a vida acaba para todo mundo, saudável ou não”. Logo, devemos conversar mais sobre a morte e buscar tratar esse tema com a naturalidade que ele pede, afinal, a cada dia que passa estamos mais perto dela.

Isso não quer dizer que ela não possa ser humanizada. Com o passar dos anos houve uma mudança do local da morte das casas para os hospitais, o que levou a um prolongamento do processo de morrer, e, consequentemente, do sofrimento do doente. Hoje, assistimos a certa banalização da morte com uma inundação de imagens em noticiários, novelas e filmes. Em alguns momentos fica a sensação de que a morte foi tornada como algo comum em nosso dia a dia. Assim como beber água. Aqui é preciso entender que ela é uma etapa do ciclo de vida sim, mas que precisa ser humanizada, e que, tanto paciente quanto família e profissionais precisam ser preparados para este momento.

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No livro “O amor é contagioso”, Patch Adams nos ensina que ajudar nossos pacientes vai além de simplesmente oferecer um tratamento a suas doenças. Envolve o oferecimento de compaixão, humor e amizade. Mas, uma das frases que mais me marcaram quando li seu livro, foi que “a morte não é uma falha da ciência médica, mas o último ato da vida”.

Por muito tempo as escolas médicas ensinaram que o papel principal do médico seria o de curar seu paciente. Mas, como lidar com questões que ultrapassam a naturalidade humana? Como lidar quando o prognóstico não é favorável e é questão de tempo para que a Indesejada das Gentes chegue e leve aquele a quem dedicamos cuidado, tempo e atenção?

Por muito tempo enxergamos a morte como nossa inimiga enquanto profissionais de saúde, quando, na verdade, ela é apenas uma etapa do projeto maior chamado vida. E entender como conduzir esse processo, pensando em nossos pacientes, mas também em nós, é fundamental.

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Cuidados paliativos: foco no cuidado com o paciente

Kübler-Ross propõe que o doente seja o centro da ação e do cuidado, sendo possível, dessa forma, resgatar o processo de morrer que se perdeu ao longo do tempo. E aqui entram os cuidados paliativos. Através deles entendemos que nosso objetivo primordial, quando a morte se aproxima, não é o de efetuar tratamentos milagrosos e/ou curativos, mas sim assistir o paciente e seus familiares em suas necessidades, através de uma abordagem multidisciplinar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS – 2002) define esses cuidados como uma assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, cujo objetivo é a melhora da qualidade de vida do paciente e de seus familiares diante de uma patologia que coloque em risco à vida, através da prevenção e do alívio do sofrimento, de identificação precoce, avaliação holística e tratamento da dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.

Os cuidados paliativos vem para mostrar que, diferente do que aprendemos em alguns casos, sempre podemos fazer algo por nosso paciente. Ou seja, cuidados paliativos são a forma de cuidar das pessoas que desejam morrer vivendo. Eles não são a simples suspensão de tratamentos como alguns pensam (e difundem) por aí, mas sim a arte de ajudar o paciente e familiares a caminharem entre a lucidez e a esperança. Quando compreendemos isso, acredite, é mágico.

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Eutanásia, Distanásia, Ortotanásia e kalotanásia

É fato que quando entramos nesse campo questões bioéticas surgem, sendo a eutanásia uma das mais levantadas. Aqui, é preciso esclarecer que cuidados paliativos e eutanásia são conceitos diferentes. Conhecida como boa morte em seu sentido original, a eutanásia é quando o paciente ou família pedem pela morte. E isso está ligado a diversos motivos, os quais não são foco dessa conversa (neste momento).

A grande questão aqui é que enquanto profissionais precisamos aprender a ouvir nossos pacientes, reconhecer suas queixas e buscar entender os motivos de tal pedido. Isso, claro, não significa que vamos atendê-lo. Um ponto importante que se levanta é a prática da distanásia, que é entendida como um prolongamento do processo de morrer.

Muitas vezes, com medo de estarem praticando uma possível eutanásia, profissionais lançam mão da distanásia, o que não é recomendado, tanto por não trazer resultados benéficos ao paciente e sua família, quanto por aumentar o sofrimento desses. Nossa busca precisa ser pela ortotanásia, que é a procura por uma morte digna, no tempo correto, com bom controle da dor e sintomas físicos e psíquicos, além da resolução de questões sociais e espirituais importantes ao paciente e sua família.

Aqui é possível a observação do caráter multiprofissional e do cuidado da equipe para com os envolvidos não apenas no momento da morte, mas ao longo de todo o processo que inicia com a notícia de uma doença incurável e termina apenas após a partida do paciente e do percurso da família pelos estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação (sendo que o tempo desse percurso é individual).

E ao alcançarmos a ortotanásia, temos a chance de assistir a kalotanásia, que pode ser entendida como a morte bela. Não, essa morte bela e na hora certa não reduz o luto, a tristeza e nem a dor da saudade, porém dá a chance desse processo ser convertido em uma história que poderá ser contada com o coração repleto de amor.

o que são cuidados paliativos

Kovács (2014) nos informa que o impedimento de uma obstinação terapêutica, juntamente com a oferta de conforto e minimização do sofrimento, mesmo quando já não é possível eliminá-lo de forma completa, é fundamental nos cuidados oferecidos ao final da vida. É por essa razão que o entendimento sobre os cuidados paliativos em sua essência é tão importante a profissionais de saúde (e aos que estão se preparando nas universidades para serem os futuros profissionais).

É através da consciência sobre finitude que podemos compreender sobre o amor-próprio, sobre o tempo, sobre prioridades e sobre o que realmente importa. Entender que a vida acaba é, talvez, a ferramenta mais incrível de autoconhecimento e empoderamento. É munido dela que temos a chance de compreender que não há tempo a perder, não há sentimento a ser desperdiçado e que viver é prioridade.

Jung disse, em certa ocasião, sobre a necessidade de conhecermos todas as técnicas, dominarmos todas as teorias, mas ao tocarmos uma alma humana, sermos apenas outra alma humana. Conhecer os cuidados paliativos, compreender sua importância e lutar para que todos tenham acesso a eles está intimamente ligado a esse pensamento e a nossa maior missão enquanto profissionais da saúde: “Curar quando possível, aliviar quando necessário, consolar sempre”. E nos mostra que, na verdade, há muito o que se fazer por nossos pacientes e sua família quando chega a hora de instituir esses cuidados.

Afinal, como fala Ana Claudia Quintana Arantes em “A morte é um dia que vale a pena viver”: o amor não morre com o corpo físico. O amor sempre permanece. Tudo pode morrer, exceto o amor. Só o Amor merece a imortalidade dentro de nós. E sim, eu acredito que ele, ainda, continua sendo o melhor caminho, e que quando não há mais técnica e medicação, ainda assim é possível dar atenção e cuidar.

 

Referências:

ADAMS, Patch. O amor é contagioso. 8. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 1999. 176 p.

ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver: E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2019. 192 p.

DANTAS, Margarida Maria Florêncio et al. A Experiência do Adoecer: Os Cuidados Paliativos diante da Impossibilidade da Cura. Rev Esc Enferm USP, [s. l.], n. 50, p. 47-53, 2016.

KOVÁCS, Maria Julia. A caminho da morte com dignidade no século XXI. Rev. bioét., [s. l.], v. 1, n. 22, p. 94-104, 2014.

QUEIROZ, Olivan et al. Morte e Luto na Atenção Primária à Saúde. In: GUSSO, Gustavo et al, (org.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, formação e prática. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. v. 1, cap. 92, p. 817-822.

SANTOS, Cledy Eliana dos et al. Cuidados Paliativos na Atenção Primária à Saúde. In: GUSSO, Gustavo et al, (org.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, formação e prática. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. v. 1, cap. 91, p. 810-816.

SOARES, Ana Michelle. Enquanto eu respirar: Dançando com o tempo e com todas as possibilidades de estar viva até o último suspiro. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2019. 240 p.

SOARES, Ana Michelle. Vida inteira: Uma jornada em busca do sentido e do sagrado de cada dia. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. 221 p.

 

 

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