

O choque neurogênico é um tipo de choque distributivo que ocorre principalmente após lesão medular aguda, especialmente em lesões cervicais ou torácicas altas. Caracteriza-se por hipotensão arterial associada a bradicardia, resultantes da perda do tônus simpático devido à interrupção das vias autonômicas da medula espinhal.
Resumo rápido: choque neurogênico

O que é o choque neurogênico e por que ele ocorre?
O choque é definido como uma perfusão inadequada dos órgãos e tecidos periféricos, sendo categorizado com base em sua etiologia como hipovolêmico, cardiogênico ou restritivo (vasodilatador/distributivo).
O choque neurogênico é uma condição crítica que resulta da desregulação do sistema nervoso autônomo após uma lesão medular. Essa desregulação ocorre devido à ausência do tônus simpático e à resposta parassimpática não contrabalançada.
Quais são as principais causas do choque neurogênico?
O choque neurogênico ocorre principalmente como consequência de lesão aguda da medula espinhal, especialmente em níveis cervicais ou torácicos altos. É mais comum em lesões nas vértebras cervicais e torácicas superiores, acima do nível de T6.
Outras causas menos comuns incluem lesões cerebrais graves, anestesia raquidiana ou bloqueios neurais extensos, mas, no contexto clínico, a lesão medular traumática é de longe a etiologia predominante.
- Principais causas traumáticas primárias: acidentes de carro, quedas, mergulhos, ferimentos por arma de fogo, e fraturas e luxações durante esportes.
- Lesões secundárias: ocorrem posteriormente ao trauma, secundárias a hemorragia, isquemia, inflamação etc.
- Outras causas raras de choque neurogênico: anestesia raquidiana, Síndrome de Guillain-Barré, toxinas que afetam o sistema nervoso autônomo, mielite transversa, ou neuropatias que envolvem a medula espinhal cervical e torácica superior.


Quais são os sinais clínicos do choque neurogênico?
A manifestação clássica do choque neurogênico é a combinação de hipotensão arterial, bradicardia e vasodilatação periférica, geralmente após uma lesão medular cervical ou torácica alta (acima de T6).
Ao contrário do que ocorre na maioria dos outros tipos de choque, o organismo não consegue ativar adequadamente a resposta simpática compensatória. Como resultado, ocorre perda do tônus vasomotor, dilatação dos vasos sanguíneos e redução do retorno venoso ao coração, levando à hipotensão arterial.
Além disso, a interrupção das vias simpáticas cardíacas reduz o estímulo cronotrópico e inotrópico sobre o coração, resultando em bradicardia, um dos principais achados que ajudam a diferenciar o choque neurogênico do choque hipovolêmico, no qual normalmente há taquicardia compensatória.
Os principais sinais clínicos incluem:
- Hipotensão arterial;
- Bradicardia;
- Pele quente, seca e rosada devido à vasodilatação periférica;
- Redução da resistência vascular sistêmica;
- Extremidades bem perfundidas, diferentemente do observado no choque hipovolêmico.
Na maioria dos casos, existe história recente de trauma raquimedular, especialmente envolvendo a coluna cervical ou torácica superior. O paciente pode apresentar dor intensa na coluna, deformidades vertebrais, espasmos musculares ou outros sinais sugestivos de lesão medular.
Além das alterações hemodinâmicas, são frequentes manifestações neurológicas associadas, como:
- Déficits motores ou sensitivos;
- Parestesias;
- Paresia ou paralisia dos membros;
- Alterações dos reflexos;
- Disfunção vesical ou intestinal;
- Alterações do nível de consciência quando há lesões associadas.
A presença simultânea de hipotensão sem taquicardia compensatória em um paciente com suspeita de lesão medular deve levantar forte suspeita de choque neurogênico.
Qual a diferença entre choque neurogênico, choque medular e choque hipovolêmico?
No contexto do trauma raquimedular, três condições podem apresentar manifestações sobrepostas e gerar confusão diagnóstica: choque neurogênico, choque medular e choque hipovolêmico.
Embora possam coexistir no mesmo paciente, representam síndromes distintas, com mecanismos fisiopatológicos, manifestações clínicas e estratégias terapêuticas diferentes.
- O choque neurogênico é uma condição hemodinâmica causada pela perda do tônus simpático após lesão medular, geralmente acima de T6. Como consequência, ocorre vasodilatação periférica, hipotensão arterial e, frequentemente, bradicardia.
- Já o choque medular é uma condição neurológica transitória, caracterizada pela perda temporária da função medular abaixo do nível da lesão. Os pacientes podem apresentar paralisia flácida, arreflexia, perda de sensibilidade e hipotonia muscular, com recuperação gradual dos reflexos ao longo de dias ou semanas.
- O choque hipovolêmico decorre da perda de volume circulante, geralmente por hemorragia associada ao trauma. Diferentemente do choque neurogênico, costuma cursar com taquicardia compensatória, extremidades frias e sinais de hipoperfusão periférica.


Como diagnosticar o choque neurogênico?
O diagnóstico do choque neurogênico é essencialmente clínico e deve ser considerado em pacientes com suspeita ou confirmação de lesão medular aguda que apresentem hipotensão arterial associada à bradicardia, especialmente após traumas envolvendo a coluna cervical ou torácica alta (acima de T6).
Avaliação clínica
A suspeita diagnóstica deve ser maior em pacientes com trauma raquimedular, principalmente quando há lesões cervicais ou torácicas superiores. O risco de desenvolvimento de choque neurogênico é maior nas lesões cervicais, seguido pelas lesões torácicas altas, torácicas baixas e lombares.
Durante a avaliação inicial, é fundamental investigar sinais sugestivos de lesão da coluna vertebral, incluindo:
- Dor à palpação da linha média da coluna;
- Deformidades, degraus ou desalinhamentos vertebrais palpáveis;
- Déficits neurológicos focais, como paresia, plegia, alterações sensitivas ou disfunção esfincteriana;
- Presença de lesões distrativas (como fraturas de ossos longos ou trauma abdominal), que podem mascarar sintomas de lesão medular.
Embora não existam critérios hemodinâmicos universais para o diagnóstico, os achados mais característicos incluem:
- Pressão arterial sistólica (PAS) < 90 mmHg;
- Frequência cardíaca < 80 bpm;
- Pele quente, seca e bem perfundida, decorrente da vasodilatação periférica;
- Ausência de taquicardia compensatória, diferentemente do observado no choque hipovolêmico.
A avaliação neurológica completa, incluindo a determinação do nível sensitivo e motor da lesão, auxilia na estimativa da extensão do comprometimento medular e na definição do prognóstico.
Exames de imagem
Os exames de imagem são fundamentais para confirmar, localizar e caracterizar a lesão medular.
Tomografia computadorizada (TC) da coluna
É o exame de escolha na avaliação inicial do trauma raquimedular, permitindo identificar fraturas, luxações vertebrais, desalinhamentos e compressões ósseas.
Ressonância magnética (RM) da coluna
Está indicada quando há suspeita de lesão medular ou ligamentar. Permite avaliar a integridade da medula espinhal, estruturas ligamentares, discos intervertebrais e tecidos moles, além de detectar edema, hemorragia intramedular e compressão neural.


Avaliação laboratorial
Os exames laboratoriais auxiliam na avaliação da perfusão tecidual, na monitorização da gravidade do choque e na exclusão de diagnósticos diferenciais, especialmente hemorragia associada.
Os principais exames incluem:
- Gasometria arterial ou venosa, para avaliação de acidose metabólica e distúrbios ventilatórios;
- Lactato sérico, marcador indireto de hipoperfusão tecidual;
- Função renal (ureia e creatinina);
- Eletrólitos séricos;
- Hemograma completo;
- Função hepática (AST, ALT, bilirrubinas e fosfatase alcalina).
É importante ressaltar que o choque neurogênico é um diagnóstico de exclusão no contexto do trauma. Antes de atribuir a hipotensão à perda do tônus simpático, deve-se descartar outras causas potencialmente mais frequentes de instabilidade hemodinâmica, especialmente hemorragia ativa.
Como tratar um paciente com choque neurogênico?
O tratamento do choque neurogênico tem como principal objetivo restaurar a perfusão tecidual e preservar a perfusão da medula espinhal, reduzindo o risco de lesão neurológica secundária. Para isso, o manejo deve ser precoce e baseado em três pilares:
- Correção da hipotensão arterial;
- Manutenção de perfusão medular adequada;
- Monitorização hemodinâmica contínua.
Reposição volêmica inicial
A primeira etapa consiste na administração criteriosa de fluidos intravenosos para corrigir a redução do retorno venoso causada pela vasodilatação periférica.
Entretanto, o choque neurogênico não é causado por perda sanguínea, mas pela perda do tônus simpático. Portanto, a reposição volêmica excessiva deve ser evitada, pois pode aumentar o risco de sobrecarga hídrica e edema pulmonar.
Uso de vasopressores
Quando a hipotensão persiste após a correção da volemia, está indicado o uso de vasopressores.
Na prática clínica, a norepinefrina é considerada o agente de escolha, pois promove vasoconstrição periférica eficaz e contribui para a manutenção da pressão arterial sem agravar a bradicardia.
O objetivo é manter uma pressão arterial média (PAM) entre 85 e 90 mmHg nos primeiros 5 a 7 dias após a lesão medular aguda, favorecendo a perfusão da medula espinhal e reduzindo o risco de lesão secundária.
Manejo da bradicardia
A bradicardia é uma característica marcante do choque neurogênico e resulta da perda da estimulação simpática cardíaca.
Na maioria dos pacientes, os episódios são transitórios e podem ser manejados apenas com monitorização clínica e remoção de fatores desencadeantes. No entanto, quando há repercussão hemodinâmica significativa, podem ser necessárias intervenções farmacológicas para estabilização da frequência cardíaca.
Monitorização e tratamento da causa de base
Pacientes com choque neurogênico devem ser monitorizados em ambiente de terapia intensiva, com avaliação contínua da pressão arterial, frequência cardíaca, débito urinário e perfusão tecidual.
Além do suporte hemodinâmico, é fundamental tratar a lesão responsável pelo quadro. Dependendo do mecanismo e da extensão da lesão medular, pode ser necessária estabilização da coluna vertebral e descompressão cirúrgica precoce.
Atualmente, o uso rotineiro de corticoides em altas doses não é recomendado, devido à ausência de benefício clínico consistente e ao aumento do risco de eventos adversos.


Qual é o prognóstico do choque neurogênico?
O prognóstico depende principalmente da gravidade da lesão medular, da rapidez do reconhecimento do quadro e da correção adequada da instabilidade hemodinâmica. Lesões cervicais altas, lesões medulares completas e a presença de traumas associados costumam estar relacionadas a piores desfechos.
Na maioria dos pacientes, o choque neurogênico é uma condição aguda e transitória. Os sinais de disfunção autonômica geralmente surgem nas primeiras horas após o trauma e tendem a melhorar progressivamente ao longo de dias ou semanas, à medida que ocorre recuperação parcial do tônus simpático.
Embora a mortalidade diretamente atribuída ao choque neurogênico seja relativamente baixa quando comparada a outros tipos de choque, a hipotensão prolongada pode comprometer a perfusão medular e agravar a lesão neurológica secundária. Por esse motivo, o reconhecimento precoce e o suporte hemodinâmico adequado são fundamentais para otimizar os desfechos.
Além da instabilidade cardiovascular, pacientes com lesão medular aguda apresentam maior risco de complicações durante a internação, incluindo tromboembolismo venoso, infecções, alterações respiratórias e disfunções autonômicas persistentes, fatores que podem impactar a recuperação global.
É importante destacar que a resolução do choque neurogênico não significa necessariamente recuperação neurológica. Mesmo após a normalização da pressão arterial e da frequência cardíaca, déficits motores, sensitivos e autonômicos podem persistir, dependendo da extensão e da localização da lesão medular.
De forma geral, o prognóstico está mais relacionado à gravidade da lesão neurológica subjacente do que ao choque neurogênico em si.


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Referências:
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