Saúde mental infantil: os efeitos da pandemia ainda estão presentes?

criança com ursinho de pelúcia, de costas, parecendo triste, representando a saúde mental infantil

Embora o período mais crítico da pandemia de COVID-19 tenha ficado para trás, seus impactos sobre a saúde mental infantil continuam sendo motivo de preocupação.

Evidências acumuladas nos últimos anos mostram que crianças e adolescentes apresentaram aumento significativo de sintomas de ansiedade, depressão, alterações comportamentais e distúrbios do sono durante a pandemia (e, em muitos casos, esses efeitos persistem até hoje).

O tema merece atenção especial porque os transtornos mentais frequentemente têm início na infância ou adolescência. Quando não identificados precocemente, podem comprometer o desenvolvimento emocional, social e acadêmico, além de aumentar o risco de sofrimento psicológico na vida adulta.

Ansiedade, depressão e distúrbios do sono aumentaram durante a pandemia

Uma grande metanálise envolvendo quase 1,4 milhão de crianças e adolescentes, encontrou prevalências de aproximadamente 31% para sintomas depressivos, 31% para sintomas ansiosos e 42% para distúrbios do sono durante a pandemia.

Os resultados reforçam observações feitas ainda nos primeiros anos da COVID-19, quando estudos já demonstravam uma duplicação da frequência de sintomas de ansiedade e depressão em comparação aos níveis observados antes da pandemia.

Embora alguns trabalhos indiquem uma tendência de estabilização ou recuperação parcial ao longo do tempo, os índices permanecem acima daqueles observados no período pré-pandêmico, sugerindo que os efeitos sobre a saúde mental podem ser mais duradouros do que inicialmente se imaginava.

 

O impacto da pandemia na saúde mental vai além do isolamento social

Os efeitos observados na saúde mental infantil não parecem ser consequência apenas da infecção pelo SARS-CoV-2.

O fechamento prolongado das escolas, a interrupção de atividades sociais, a perda de rotina, a redução da atividade física e o aumento do estresse familiar foram apontados como fatores importantes para a piora do bem-estar emocional de crianças e adolescentes.

Além disso, estudos longitudinais demonstraram redução de habilidades socioemocionais e piora de indicadores de qualidade de vida, especialmente em locais que adotaram medidas restritivas mais prolongadas.

Em muitas famílias, a pandemia coincidiu com dificuldades financeiras, luto, insegurança alimentar e aumento da sobrecarga dos cuidadores, fatores conhecidos por influenciar negativamente o desenvolvimento emocional infantil.

 

criança encolhida no canto de um sofá amarelo, triste, representando a saúde mental infantil

 

A própria COVID-19 pode aumentar o risco de transtornos psiquiátricos

Outro aspecto que tem chamado atenção dos pesquisadores é a possibilidade de a própria infecção por SARS-CoV-2 representar um fator de risco independente para problemas de saúde mental infantil.

Uma análise retrospectiva envolvendo mais de 13 milhões de crianças e adolescentes mostrou aumento significativo do risco de novos diagnósticos psiquiátricos nos dois anos seguintes à infecção por COVID-19. O efeito foi particularmente evidente em crianças mais jovens e em casos de doença mais grave.

Embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos, acredita-se que fatores biológicos, inflamatórios e psicossociais possam contribuir para esse aumento de risco.

 

Algumas crianças são mais vulneráveis

Nem todas as crianças respondem da mesma forma às adversidades. Fatores genéticos, características individuais, ambiente familiar e acesso a suporte emocional influenciam significativamente os desfechos psicológicos.

Entre os grupos que apresentaram maior vulnerabilidade durante e após a pandemia estão:

  • crianças com transtornos mentais prévios;
  • pacientes com transtorno do espectro autista (TEA);
  • adolescentes, especialmente do sexo feminino;
  • crianças expostas a situações de vulnerabilidade social;
  • crianças que vivenciaram luto ou estresse familiar intenso.

Ao mesmo tempo, alguns estudos observaram que uma parcela das crianças apresentou melhora em determinados aspectos emocionais durante períodos de maior convivência familiar, reforçando que os efeitos da pandemia na saúde mental infantil foram heterogêneos.

 

Trauma e estresse na infância continuam sendo fatores de risco para depressão futura

Muito antes da pandemia, já existiam evidências robustas de que experiências adversas na infância aumentam o risco de transtornos psiquiátricos ao longo da vida.

Eventos traumáticos, negligência, violência doméstica, insegurança familiar e estresse crônico estão associados a maior probabilidade de desenvolver transtorno depressivo maior, transtornos de ansiedade e outras condições psiquiátricas na adolescência e na vida adulta.

O risco tende a ser ainda maior quando as experiências adversas são recorrentes ou prolongadas, especialmente quando não há acesso a redes de proteção e suporte psicológico.

Além disso, estudos sugerem que a exposição precoce ao estresse pode influenciar a regulação emocional, a resposta ao estresse e o desenvolvimento cerebral, contribuindo para maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico futuro.

criança abraçando urso de pelúcia e chorando; ao fundo, os pais discutindo, evidenciando a ansiedade infantil

O tratamento continua sendo eficaz, mesmo em pacientes com histórico de trauma

Durante muitos anos acreditou-se que pacientes com histórico de trauma infantil responderiam pior aos tratamentos para depressão. Entretanto, evidências mais recentes mostram que essa percepção pode não ser verdadeira.

Uma grande metanálise publicada no The Lancet Psychiatry demonstrou que adultos com transtorno depressivo maior e histórico de trauma na infância apresentam benefício semelhante com psicoterapia, farmacoterapia ou tratamento combinado quando comparados a pacientes sem histórico de trauma.

Embora frequentemente apresentem quadros mais graves no início do tratamento, esses pacientes também podem alcançar melhora clínica significativa quando recebem acompanhamento adequado.

 

Saúde mental infantil: o que os profissionais de saúde devem observar?

Diante das evidências atuais, especialistas recomendam que a avaliação da saúde mental de crianças e adolescentes faça parte das consultas pediátricas de rotina.

Sinais que merecem atenção incluem:

  • irritabilidade persistente;
  • alterações importantes de humor;
  • isolamento social;
  • queda do rendimento escolar;
  • distúrbios do sono;
  • perda de interesse por atividades habituais;
  • queixas somáticas recorrentes sem causa orgânica evidente;
  • comportamentos de automutilação ou verbalizações relacionadas à morte.

A identificação precoce desses sinais permite intervenções mais efetivas e reduz o risco de consequências de longo prazo.

 

O cuidado com a saúde mental infantil não terminou com a pandemia

Os efeitos da pandemia sobre a saúde mental infantil não desapareceram com o fim das restrições sanitárias. Embora muitas crianças tenham apresentado recuperação parcial, os dados mostram que sintomas de ansiedade, depressão e alterações comportamentais continuam mais frequentes do que antes da COVID-19.

Nesse contexto, o rastreamento precoce, o fortalecimento das redes de apoio familiar e escolar e o acesso oportuno a acompanhamento psicológico e psiquiátrico permanecem estratégias fundamentais para reduzir o impacto desses transtornos ao longo da vida.

criança em consulta terapêutica aprendendo sobre a saúde mental infantil

 

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Conteúdo atualizado em outubro de 2026.

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Referências:

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