Critérios ICA-AKI para diagnóstico de Síndrome Hepatorrenal

paciente sendo avaliada no consultório quanto ao risco de diagnóstico de Síndrome Hepatorrenal

Os critérios ICA-AKI (International Club of Ascites – Acute Kidney Injury) representam atualmente a principal ferramenta para o diagnóstico e estadiamento da lesão renal aguda em pacientes com cirrose.

As atualizações promovidas pelo International Club of Ascites modificaram significativamente o conceito tradicional de síndrome hepatorrenal, permitindo o diagnóstico mais precoce da condição e eliminando a necessidade de um valor absoluto mínimo de creatinina sérica.

Veja quais são os critérios atuais e como aplicá-los na prática clínica.

O que é a síndrome hepatorrenal?

A síndrome hepatorrenal (HRS, Hepatorenal Syndrome) é uma complicação grave da cirrose avançada, da hipertensão portal e da insuficiência hepática, caracterizada por deterioração da função renal sem evidências de lesão estrutural significativa dos rins.

A fisiopatologia envolve intensa vasodilatação esplâncnica, redução do volume arterial efetivo e ativação compensatória de sistemas vasoconstritores, levando à vasoconstrição renal progressiva e redução da taxa de filtração glomerular.

A presença de síndrome hepatorrenal está associada a um pior prognóstico. Pacientes com cirrose que desenvolvem insuficiência renal apresentam maior mortalidade, além de maior risco de complicações como ascite refratária, peritonite bacteriana espontânea e encefalopatia hepática.

 

O que mudou com os critérios ICA-AKI?

Historicamente, a síndrome hepatorrenal era classificada como HRS tipo 1 ou HRS tipo 2.

Entretanto, as atualizações do International Club of Ascites incorporaram os conceitos modernos de lesão renal aguda (AKI), substituindo a antiga classificação. Atualmente:

  • A antiga HRS tipo 1 passou a ser denominada HRS-AKI (Hepatorenal Syndrome–Acute Kidney Injury);
  • A antiga HRS tipo 2 foi reclassificada como HRS-CKD ou HRS-AKD, dependendo da duração da disfunção renal.

Uma das principais mudanças foi a remoção do antigo critério que exigia creatinina sérica superior a 2,5 mg/dL para confirmação diagnóstica, permitindo identificar a síndrome hepatorrenal em fases mais precoces.

 

Critérios de lesão renal aguda (ICA-AKI)

O primeiro passo para o diagnóstico de HRS-AKI é confirmar a presença de lesão renal aguda segundo os critérios ICA-AKI. Considera-se AKI quando ocorre:

  • Aumento absoluto da creatinina sérica ≥ 0,3 mg/dL em até 48 horas; ou
  • Aumento ≥ 1,5 vez em relação ao valor basal, ocorrido nos últimos 7 dias; ou
  • Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por pelo menos 6 horas.

Como definir a creatinina basal?

A creatinina basal corresponde:

  • Ao valor mais próximo disponível nos 3 meses anteriores à admissão hospitalar;
  • Caso existam múltiplos valores, utiliza-se o mais próximo da internação;
  • Na ausência de exames prévios, utiliza-se a creatinina obtida na admissão.

exame de creatinina, utilizado como parte dos critérios ICA-AKI para diagnóstico de Síndrome Hepatorrenal

 

Critérios diagnósticos da síndrome hepatorrenal (HRS-AKI)

Após a confirmação de lesão renal aguda pelos critérios ICA-AKI, o diagnóstico de síndrome hepatorrenal exige a presença de todos os critérios abaixo:

  1. Cirrose hepática com ascite;
  2. Diagnóstico de AKI conforme critérios ICA-AKI;
  3. Ausência de melhora da função renal após 2 dias consecutivos de:
    • suspensão dos diuréticos;
    • expansão volêmica com albumina (1 g/kg/dia, máximo de 100 g/dia);
  4. Ausência de choque;
  5. Ausência de uso recente ou atual de medicamentos nefrotóxicos, incluindo:
    • aminoglicosídeos;
    • anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs);
    • contraste iodado;
    • outras drogas potencialmente nefrotóxicas;
  6. Ausência de evidências de doença renal estrutural, definida por:
    • proteinúria > 500 mg/dia;
    • microhematúria > 50 hemácias por campo;
    • alterações compatíveis com nefropatia estrutural na ultrassonografia renal.

Todos os critérios devem estar presentes para confirmação diagnóstica de HRS-AKI.

 

Achados que reforçam o diagnóstico da síndrome hepatorrenal

Embora não façam parte dos critérios diagnósticos obrigatórios, alguns achados clínicos e laboratoriais aumentam a probabilidade diagnóstica:

  • Hipotensão arterial;
  • Hiponatremia hipervolêmica;
  • Baixa excreção urinária de sódio;
  • Presença de fator precipitante, especialmente infecção bacteriana;
  • Fração de excreção de sódio (FeNa) < 0,2%.

Valores de FeNa < 0,1% são considerados altamente sugestivos de síndrome hepatorrenal.

fluxograma para avaliação de paciente com cirrose e ascite e suspeita de síndrome hepatorrenal (HRS-AKI)

Como fazer o estadiamento da AKI pelos critérios ICA?

Após o diagnóstico de lesão renal aguda, o paciente deve ser classificado conforme a gravidade.

Estágio 1 (ICA-AKI 1)

  • Aumento da creatinina sérica ≥ 0,3 mg/dL; ou
  • Aumento entre 1,5 e 2 vezes em relação ao valor basal.

Subdivide-se em:

ICA-AKI 1A: Creatinina sérica < 1,5 mg/dL.

ICA-AKI 1B: Creatinina sérica ≥ 1,5 mg/dL.

Estágio 2 (ICA-AKI 2)

  • Aumento da creatinina sérica entre 2 e 3 vezes o valor basal.

Estágio 3 (ICA-AKI 3)

  • Aumento superior a 3 vezes o valor basal; ou
  • Creatinina sérica ≥ 4,0 mg/dL com aumento agudo ≥ 0,3 mg/dL; ou
  • Necessidade de terapia renal substitutiva.

 

HRS-CKD e HRS-AKD: novas classificações

A antiga síndrome hepatorrenal tipo 2 não integra mais a definição de HRS-AKI. Atualmente, os pacientes são classificados como:

HRS-CKD

  • Taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) < 60 mL/min/1,73 m² por pelo menos 3 meses;
  • Ausência de doença renal estrutural que explique a disfunção.

HRS-AKD

  • TFGe < 60 mL/min/1,73 m² por período inferior a 3 meses;
  • Sem evidências de nefropatia estrutural.
tabela comparativa entre HRS-AKI, HRS-AKD e HRS-CKD
Principais diferenças na prática • HRS-AKI é uma emergência clínica caracterizada por deterioração rápida da função renal em pacientes com cirrose. • HRS-AKD representa uma disfunção renal persistente por menos de 3 meses, sem preencher critérios de AKI ou DRC. • HRS-CKD corresponde à forma crônica da síndrome hepatorrenal, com redução sustentada da função renal por pelo menos 3 meses. Importante: a antiga classificação em HRS tipo 1 e HRS tipo 2 foi abandonada. Atualmente, recomenda-se utilizar os termos HRS-AKI, HRS-AKD e HRS-CKD, que refletem melhor a duração e a evolução da disfunção renal em pacientes com cirrose.

 

Leia também:

Creatinina: como interpretar corretamente e evitar erros comuns

Insuficiência renal aguda: causas mais comuns, diagnóstico e raciocínio clínico

Hiponatremia: o que é, sintomas, causas e como tratar

Referências:

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