

A trombofilia na gestação é um dos principais fatores associados ao tromboembolismo venoso na gravidez — uma das causas mais importantes de morte materna evitável. Na prática, reconhecer quem realmente precisa de profilaxia é o que define desfechos maternos.
Trombofilia na gestação: por que o risco de TEV aumenta na gravidez?
A trombofilia na gestação é um tema central na prática obstétrica e na medicina materno-fetal, especialmente devido ao impacto na morbimortalidade materna do tromboembolismo venoso (TEV) na gravidez.
A trombofilia é caracterizada por uma predisposição aumentada à formação de trombos, decorrente de alterações hereditárias ou adquiridas do sistema de coagulação. Na gravidez, essa condição ganha relevância clínica porque o próprio estado gestacional já é fisiologicamente pró-trombótico.
O TEV, que inclui trombose venosa profunda (TVP) e tromboembolismo pulmonar (TEP), é uma das principais causas de morte materna evitável. Estima-se que gestantes apresentem risco quatro a cinco vezes maior de desenvolver TEV quando comparadas a mulheres não grávidas.
Esse aumento decorre da presença dos três componentes da tríade de Virchow:
– Estase venosa (devido à compressão do útero sobre grandes vasos),
– Hipercoagulabilidade (aumento de fatores de coagulação, redução da fibrinólise e queda da proteína S) e
– Lesão endotelial (relacionada à implantação embrionária e ao parto).
Embora o estado hipercoagulável da gravidez exerça função protetora contra hemorragias no parto, também eleva o risco de eventos tromboembólicos, especialmente em mulheres com fatores adicionais de risco ou trombofilia diagnosticada.


Quais gestantes precisam de profilaxia para tromboembolismo venoso?
As recomendações mais recentes para trombofilia na gestação indicam inclusão em protocolo específico de prevenção de TEV as gestantes e puérperas com:
- História pessoal de tromboembolismo venoso;
- Diagnóstico confirmado de síndrome antifosfolípide (SAF) na gestação;
- História familiar de trombofilia hereditária de alto risco em parente de primeiro grau;
- História familiar de trombofilia de baixo risco associada a evento trombótico.
A abordagem atual não recomenda rastreamento universal de trombofilia na gravidez, mas sim uma avaliação de risco individualizada, baseada na história clínica e obstétrica.
Como fazer a avaliação de risco na trombofilia na gravidez
A estratificação de risco é o ponto central das diretrizes recentes sobre trombofilia na gestação. O histórico pessoal de TEV, especialmente eventos prévios não provocados ou associados ao uso de estrogênio ou à gestação anterior, é um dos principais critérios para profilaxia.
Também devem ser considerados:
- Trombofilias hereditárias de alto risco (como deficiência de antitrombina ou homozigose para fator V de Leiden);
- Diagnóstico laboratorial e clínico de SAF;
- Obesidade;
- Idade materna avançada;
- Cesárea;
- Imobilização prolongada;
- Pré-eclâmpsia;
- Puerpério (período de maior risco trombótico).
A conduta baseia-se na soma desses fatores e na estimativa do risco absoluto de tromboembolismo venoso na gravidez.


Enoxaparina na gestação: quando indicar e por quanto tempo usar
A enoxaparina, uma heparina de baixo peso molecular (HBPM), é o medicamento de escolha para profilaxia em gestantes com trombofilia. Seu uso é preferido porque não atravessa a placenta e apresenta perfil de segurança favorável para a mãe e o feto.
Quando indicada, a anticoagulação profilática deve ser mantida durante toda a gestação e estendida por pelo menos 6 semanas no pós-parto, período de risco trombótico elevado. O ajuste de dose pode ser necessário conforme peso corporal e função renal.
A monitorização de níveis de anti-Xa não é rotineiramente necessária em esquemas profiláticos, sendo reservada para situações específicas.
A decisão de iniciar enoxaparina na gestação deve sempre considerar o risco individual de tromboembolismo venoso na gravidez e o período de maior risco, especialmente o puerpério. Essa conduta é consistente com as principais diretrizes internacionais recentes.
Quando associar AAS na síndrome antifosfolípide na gestação
Em casos de maior risco (especialmente na síndrome antifosfolípide na gestação) recomenda-se a associação de enoxaparina com ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose.
O AAS atua reduzindo a agregação plaquetária, enquanto a enoxaparina na gestação interfere na cascata de coagulação.
Essa estratégia combinada reduz a recorrência de perdas gestacionais e melhora os desfechos obstétricos quando iniciada precocemente.
SAF com trombose prévia: quando fazer anticoagulação plena
Gestantes com SAF associada a múltiplos episódios prévios de trombose apresentam risco elevado de recorrência durante a gravidez e o puerpério. Nesses casos, está indicada anticoagulação em dose terapêutica, e não apenas profilática.
O objetivo é prevenir novos eventos tromboembólicos potencialmente fatais.
O planejamento do parto deve considerar o intervalo da última dose de heparina, a fim de reduzir o risco hemorrágico e permitir anestesia regional com segurança.
MTHFR: por que não deve ser considerado trombofilia relevante
As variantes do gene MTHFR, isoladamente, não apresentam evidência consistente de associação com aumento do risco de TEV ou complicações obstétricas trombóticas.
Assim, as diretrizes atuais não recomendam seu rastreamento rotineiro nem a indicação de anticoagulação com base exclusiva nessa mutação.
Complicações da trombofilia na gravidez e papel da atenção primária
As complicações associadas à trombofilia na gravidez incluem:
- Descolamento prematuro de placenta,
- Pré-eclâmpsia,
- Restrição de crescimento fetal,
- Parto prematuro e
- Perdas gestacionais recorrentes.
A identificação precoce de gestantes de alto risco e o encaminhamento oportuno para acompanhamento especializado são fundamentais para reduzir desfechos adversos.
No Brasil, a Atenção Primária à Saúde desempenha papel estratégico na triagem, monitoramento e coordenação do cuidado dessas pacientes.


Quando suspeitar de trombofilia na gestação (checklist prático):
- TEV prévio
- SAF confirmada
- História familiar relevante
- Fatores de risco associados
Aprofunde-se em temas relacionados:
- Gestação acima dos 40 anos: tendência crescente e riscos associados
- Estudo global aponta principais causas de morte materna
- Gravidez e Doença Inflamatória Intestinal
- Topiramato na gravidez: restrições de uso
- Anemia Gestacional: muito além da suplementação de ferro
—
Referências:
BRASIL, MINISTERIO DA SAUDE. Tromboembolismo Venoso em Gestantes com Trombofilia.

































