Insuficiência adrenal: abordagem prática para investigação diagnóstica

Representação das glândulas adrenais

A insuficiência adrenal é uma condição potencialmente grave decorrente da produção inadequada de cortisol, podendo também cursar com deficiência de aldosterona na forma primária. Embora seja relativamente rara, seu reconhecimento precoce é fundamental, pois o atraso diagnóstico aumenta o risco de crise adrenal, uma emergência endocrinológica potencialmente fatal.

O desafio é que a apresentação clínica costuma ser inespecífica, com sintomas como fadiga, perda de peso, náuseas e hipotensão, frequentemente atribuídos a outras condições.

Neste artigo, revisamos quando suspeitar de insuficiência adrenal, quais pacientes devem ser investigados e quais exames laboratoriais são indicados para confirmar o diagnóstico.

 

Quando suspeitar de insuficiência adrenal? Principais sinais de alerta

Deve-se suspeitar de insuficiência adrenal em pacientes com sintomas constitucionais persistentes e inexplicados (especialmente fadiga, perda de peso, náuseas, vômitos e hipotensão) quando associados a hiperpigmentação, hiponatremia, desejo por sal, história de uso recente de glicocorticoides ou doenças autoimunes.

O diagnóstico costuma ser tardio porque os sintomas são inespecíficos e podem evoluir por meses ou anos antes do reconhecimento da doença.

 

Manifestações clínicas da insuficiência adrenal

Os sintomas costumam ter instalação insidiosa e são inespecíficos. Fadiga, fraqueza, anorexia, perda de peso, náuseas e dor abdominal estão entre as manifestações mais comuns. Como esses sintomas são frequentes em diversas doenças, o diagnóstico frequentemente é atrasado.

Sintomas mais comuns:

  • Fadiga
  • Fraqueza
  • Anorexia e perda de peso
  • Náuseas, vômitos e dor abdominal
  • Dor muscular ou articular

Achados sugestivos:

  • Hipotensão ortostática
  • Hiperpigmentação
  • Hiponatremia
  • Hipercalemia
  • Desejo por sal
  • Hipoglicemia
  • Vitiligo

 

Como diferem a insuficiência adrenal primária e secundária?

A diferenciação entre insuficiência adrenal primária e secundária é importante, pois as manifestações clínicas, os achados laboratoriais e a abordagem diagnóstica diferem entre elas.

Na insuficiência primária (doença de Addison), a lesão acomete diretamente as glândulas adrenais, causando deficiência de cortisol e, na maioria dos casos, também de aldosterona.

Já na insuficiência secundária, o problema está na produção insuficiente de ACTH pela hipófise, resultando principalmente em deficiência de cortisol, enquanto a secreção de aldosterona costuma permanecer preservada.

tabela comparativa entre insuficiência adrenal primária e insuficiência adrenal secundária

📌 Diferenças que mais ajudam na prática clínica

– Hiperpigmentação sugere fortemente insuficiência primária, devido ao aumento compensatório do ACTH.

– Hipercalemia praticamente restringe o diagnóstico à forma primária, refletindo deficiência de aldosterona.

– História de uso prolongado de glicocorticoides é a principal pista para insuficiência secundária (ou terciária).

– Na prática clínica, muitas características da insuficiência adrenal terciária (decorrente de supressão hipotalâmica, geralmente por uso de glicocorticoides) são semelhantes às da insuficiência adrenal secundária. Por esse motivo, ambas são frequentemente abordadas em conjunto.

 

Insuficiência adrenal induzida por glicocorticoides: a causa mais comum

A supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal após uso prolongado de glicocorticoides é atualmente a causa mais frequente de insuficiência adrenal secundária.

Deve-se suspeitar do diagnóstico em pacientes que reduziram rapidamente ou suspenderam corticosteroides sistêmicos após uso prolongado, principalmente quando surgem fadiga intensa, hipotensão, anorexia e náuseas durante o desmame.

 

Quem deve ser investigado?

Deve-se manter baixo limiar para investigação da insuficiência adrenal nas seguintes situações:

  • uso crônico ou retirada recente de glicocorticoides;
  • hipotensão inexplicada;
  • hiponatremia persistente;
  • doenças autoimunes (DM1, tireoidite, doença celíaca, vitiligo);
  • doença hipofisária;
  • tuberculose adrenal;
  • uso prolongado de opioides;
  • tratamento com inibidores de checkpoint imunológico.

 

Quando suspeitar de crise adrenal?

A crise adrenal é uma emergência endocrinológica e deve ser considerada em qualquer paciente com hipotensão refratária, choque sem causa evidente ou deterioração clínica associada à hiponatremia e à história sugestiva de insuficiência adrenal.

📌 Suspeitar de crise adrenal se:

  • hipotensão grave
  • choque
  • dor abdominal intensa
  • febre
  • náuseas e vômitos
  • alteração do nível de consciência
  • hipoglicemia

A suspeita clínica é suficiente para iniciar o tratamento. A coleta de cortisol não deve atrasar a administração de hidrocortisona quando houver suspeita de crise adrenal.

 

Quais exames laboratoriais aumentam a suspeita?

Achados laboratoriais sugestivos:

  • hiponatremia
  • hipercalemia (primária)
  • hipoglicemia
  • eosinofilia
  • anemia normocítica
  • ureia elevada por hipovolemia

Embora esses achados não confirmem o diagnóstico, eles aumentam significativamente a suspeita clínica e justificam a avaliação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

 

Quais exames solicitar na suspeita de insuficiência adrenal?

A investigação da insuficiência adrenal deve ser iniciada com a dosagem de cortisol matinal, preferencialmente entre 7h e 9h da manhã, período em que ocorre o pico fisiológico de secreção do hormônio.

A interpretação desse exame, associada à dosagem de ACTH, permite diferenciar a insuficiência primária da secundária. Quando os resultados são inconclusivos, o teste de estimulação com cosintropina é o exame confirmatório de escolha.

exame de sangue para coleta de cortisol basal utilizado no diagnóstico de insuficiência adrenal

Cortisol matinal

O cortisol é o principal glicocorticoide produzido pelo córtex adrenal e apresenta secreção circadiana, com concentrações máximas nas primeiras horas da manhã e redução progressiva ao longo do dia. Por esse motivo, a coleta deve ser realizada preferencialmente entre 7h e 9h.

De forma geral:

Cortisol muito baixo: fortemente sugestivo de insuficiência adrenal;

Cortisol normal/elevado: praticamente exclui insuficiência adrenal na maioria dos pacientes;

Valores intermediários: requerem investigação complementar, geralmente com o teste de estimulação por cosintropina.

⚠️ Os pontos de corte variam conforme o método laboratorial utilizado. De forma geral, valores <3–5 μg/dL são fortemente sugestivos de insuficiência adrenal, enquanto valores >15–18 μg/dL praticamente excluem o diagnóstico em pacientes ambulatoriais. Valores intermediários exigem investigação complementar, geralmente com o teste de estimulação por cosintropina. É importante interpretar o resultado à luz do contexto clínico, considerando fatores como uso de glicocorticoides, estrogênios, doença crítica e alterações da globulina ligadora do cortisol (CBG), que podem interferir na dosagem sérica.

 

ACTH

A dosagem de ACTH deve ser realizada, sempre que possível, na mesma coleta do cortisol basal, antes do início da reposição de glicocorticoides. Sua principal utilidade é determinar a origem da insuficiência adrenal:

  • ACTH elevado associado a cortisol baixo sugere insuficiência primária (doença de Addison);
  • ACTH baixo ou inadequadamente normal na presença de cortisol reduzido sugere insuficiência secundária.

 

Cosintropina

O teste de estimulação com 250 μg de cosintropina por via intravenosa ou intramuscular é o principal exame para confirmação diagnóstica. O protocolo consiste em:

  1. coleta do cortisol basal;
  2. administração de 250 μg de cosintropina;
  3. nova dosagem do cortisol após 30 e/ou 60 minutos.

Como a resposta adrenal independe do ritmo circadiano, o exame pode ser realizado em qualquer horário do dia.

Quando o cortisol não atinge a resposta esperada após a estimulação, confirma-se o diagnóstico de insuficiência adrenal.

Nos pacientes com forte suspeita de insuficiência secundária recente, o teste pode apresentar resultado falso-negativo, pois a atrofia adrenal ainda não se desenvolveu completamente. Nessas situações, exames dinâmicos adicionais, como o teste da metirapona ou o teste de hipoglicemia induzida por insulina, podem ser considerados em centros especializados.

 

Renina plasmática e aldosterona

A avaliação do sistema renina-angiotensina-aldosterona é indicada principalmente quando há suspeita de insuficiência adrenal primária, pois auxilia na identificação da deficiência mineralocorticoide. Os achados típicos incluem:

  • atividade de renina plasmática elevada;
  • aldosterona reduzida ou inadequadamente baixa.

Esses exames não são necessários para confirmar o diagnóstico de insuficiência adrenal, mas ajudam a caracterizar sua etiologia e orientar a reposição de mineralocorticoides.

Leia também: DHEA-S alto ou baixo? Como interpretar o exame e diferenciar alterações da adrenal

 

Como confirmar o diagnóstico de insuficiência adrenal?

Após a suspeita clínica, a investigação deve ser realizada de forma sistematizada.

O cortisol sérico matinal é o exame inicial de escolha, enquanto a dosagem de ACTH auxilia na definição da etiologia. Nos casos em que o diagnóstico permanece incerto, o teste de estimulação com cosintropina é o principal exame confirmatório.

O fluxograma abaixo resume essa abordagem.

Fluxograma para diagnóstico de insuficiência adrenal

 

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Referências:

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Dong J, Hahner S, Bancos I, Tomlinson JW. Clinical features, investigation, and management of Addison’s disease. Lancet Diabetes Endocrinol. 2026;14(3):243-258. doi:10.1016/S2213-8587(25)00393-6

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