Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP): a SOP foi renomeada

A SOP foi renomeada para síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). Entenda os impactos clínicos da nova nomenclatura.

Introdução

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) afeta 1 em cada 8 mulheres em idade reprodutiva, o que representa mais de 170 milhões de pessoas no mundo. Apesar disso, até 70% das mulheres com a condição permanecem sem diagnóstico. Essa lacuna tem várias causas, e uma delas está no próprio nome da síndrome.

Em maio de 2026, um consenso global publicado no The Lancet formalizou o que a comunidade científica vinha discutindo há décadas: o termo síndrome dos ovários policísticos é impreciso e clinicamente enganoso.

O problema central está na expressão “ovários policísticos”, que condiciona a síndrome à existência de cistos ovarianos patológicos e não traz à tona todas as alterações endocrinológicas e metabólicas que caracterizam essa condição.

A partir desse consenso, a condição passa a se chamar síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), tradução em português de polyendocrine metabolic ovarian syndrome (PMOS).

 

Por que o nome antigo “Síndrome dos Ovários Policísticos” era um problema

A presença de ovários policísticos em um exame ultrassonográfico não é uma condição obrigatória para o diagnóstico da síndrome, e sim um dos critérios.

Assim, mulheres podiam ser diagnosticadas com SOP sem ter ovários policísticos, o que gerava confusão tanto para pacientes quanto para profissionais da saúde.

Além disso, o termo “ovário policístico” implica a presença de cistos ovarianos patológicos. O que se observa ao ultrassom, no entanto, são pequenos folículos antrais acumulados, e não cistos.

Nomear uma condição multissistêmica pelo achado ultrassonográfico também reduzia a SOP a um problema ginecológico ou reprodutivo.

Na prática, a síndrome envolve distúrbios endócrinos e metabólicos, como hiperandrogenismo, hiperinsulinemia e alterações neuroendócrinas, além de alterações metabólicas como resistência à insulina, dislipidemia, diabetes tipo 2 e aumento de risco cardiovascular. O nome antigo não capturava nada disso.

Havia ainda o componente do estigma. O foco reprodutivo e na fertilidade gerava impacto psicossocial significativo, especialmente em contextos culturais onde a maternidade é altamente valorizada. Pesquisas mostraram que muitas mulheres relatavam sofrimento associado ao próprio nome do diagnóstico.

imagem representativa da Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, uma condição que envolve envolve distúrbios endócrinos e metabólicos

Como foi construído o novo nome “Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina”

O processo de renomeação foi rigoroso e sem precedentes na medicina. Foram envolvidas 56 organizações acadêmicas, clínicas e de pacientes de todas as regiões do mundo, com 14.360 respondentes entre pacientes e profissionais da saúde.

O processo utilizou métodos Delphi modificados, técnicas de grupo nominal e análises de marketing e implementação. Os princípios norteadores foram precisão científica, clareza comunicacional, evitar estigma, adequação cultural e viabilidade de implementação.

Foram testados termos como “endócrino”, “poliendócrino”, “metabólico”, “reprodutivo”, “ovulatório” e “ovariano”. Alguns candidatos foram descartados por problemas culturais ou por representação incompleta da fisiopatologia. Ao final, “poliendócrino”, “metabólico” e “ovariano” foram os termos que obtiveram consenso, resultando no novo nome SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina).

 

O que o nome SOMP captura e a SOP não capturava

O prefixo “poliendócrino” reconhece que a condição envolve múltiplas anormalidades endócrinas interagindo:

– hiperandrogenismo ovariano e frequentemente adrenal,

– distúrbios neuroendócrinos com aumento da pulsatilidade do GnRH e consequente elevação do LH,

– hiperinsulinemia compensatória e

– alterações nas concentrações de AMH, frequentemente elevadas.

Análises genômicas de larga escala demonstram origens poligênicas da SOMP em vias neuroendócrinas, metabólicas e reprodutivas.

O componente “metabólico” reflete a resistência à insulina presente em 85% das mulheres com SOMP, incluindo 75% das mulheres com IMC igual ou inferior a 25 kg/m².

Esse perfil metabólico se associa a maior risco de diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica e doença cardiovascular.

Já “ovariano” captura a disfunção folicular: comprometimento da foliculogênese, acúmulo de folículos antrais pequenos, disfunção ovulatória e irregularidade menstrual, sem remeter erroneamente a cistos patológicos.

O AMH elevado, agora incluído nos critérios diagnósticos para adultas, também é mais bem compreendido dentro dessa terminologia.

paciente em consulta ginecológica sendo orientada que a SOP foi renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina

Implicações clínicas: o que muda na prática

A mudança de nomenclatura da SOP não é apenas semântica.

A implementação está planejada em 8 estágios ao longo de 3 anos, com atualização de prontuários eletrônicos, classificações internacionais de doenças (CID), diretrizes clínicas e materiais educacionais. A próxima atualização das Diretrizes Internacionais de SOP está prevista para 2028 e já incorporará o novo nome.

Para o clínico, o impacto imediato é de enquadramento diagnóstico e comunicação com a paciente. Explicar que a condição envolve desregulação endócrina e metabólica, e não simplesmente “cistos no ovário”, muda a forma como a paciente entende sua doença, adere ao tratamento e se posiciona diante do estigma social.

O reconhecimento explícito das dimensões metabólica e endócrina também reforça a importância da avaliação metabólica e cardiovascular dessas pacientes, e não apenas dos sintomas reprodutivos.

 

Considerações finais

A mudança de SOP para SOMP é o reconhecimento formal de uma realidade clínica que as evidências vinham construindo há décadas. Uma condição que afeta 170 milhões de mulheres, com implicações cardiovasculares, metabólicas e psicossociais importantes, merecia um nome que refletisse sua complexidade. Agora ela tem.

Na maioria das vezes, como médicos, somos os primeiros a receber essas pacientes no consultório. Adotar o novo nome com clareza e explicá-lo à paciente faz parte do cuidado, não é burocracia.

Com o novo nome, SOMP, temos a oportunidade de oferecer diagnósticos mais precisos, menos estigma e uma abordagem que finalmente reflete o que a síndrome realmente é.

Referência:

Teede HJ, Bahri Khomami M, Morman R, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet. Published online May 12, 2026.

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Médica Ginecologista pelo Hospital Fêmina - Grupo GHC, em Porto Alegre/RS. No momento, realiza especialização em Patologia do Trato Genital Inferior (PTGI) na UNIFESP - Escola Paulista de Medicina, em São Paulo/SP. Seu propósito como médica é oferecer um atendimento diferenciado, que una uma medicina séria baseada em ciência e evidências a um olhar atento, empático e cuidadoso para cada paciente.

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