Agonistas GLP-1 e transtornos alimentares: semaglutida pode aumentar o risco de anorexia nervosa?

A possível relação entre agonistas GLP-1 e transtornos alimentares vem despertando preocupação crescente entre médicos e agências reguladoras.

Evidências preliminares sugerem associação entre semaglutida, anorexia nervosa e outros transtornos alimentares restritivos, sobretudo em pacientes vulneráveis ou expostos ao uso off-label para emagrecimento.

 

Pontos-chave sobre agonistas GLP-1 e transtornos alimentares para a prática clínica

  • Agonistas GLP-1 podem agravar ou desencadear anorexia nervosa e outros transtornos alimentares restritivos, especialmente em pacientes vulneráveis.
  • Pacientes com histórico psiquiátrico parecem apresentar maior risco de efeitos psiquiátricos associados à semaglutida e outros agonistas GLP-1.
  • O uso off-label de semaglutida para emagrecimento em indivíduos sem obesidade segue em rápida expansão, impulsionado por plataformas digitais e redes sociais.
  • Ainda não existe protocolo padronizado para triagem de transtornos alimentares antes da prescrição de agonistas GLP-1.
  • Monitoramento nutricional, metabólico e psiquiátrico pode ser necessário durante o uso prolongado desses medicamentos.
  • Especialistas alertam que complicações nutricionais e psiquiátricas podem passar despercebidas mesmo em pacientes sem baixo peso evidente.

 

Expansão do uso dos agonistas GLP-1 reacende debate sobre segurança

Já há algum tempo, o uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) tem despertado a atenção de médicos e agências reguladoras devido à sua utilização indiscriminada e, em muitos casos, sem indicação adequada.

Recentemente, porém, surgiu uma nova preocupação: a ampliação do acesso a esses medicamentos por plataformas digitais e o potencial impacto dessa disponibilidade sobre a segurança dos agonistas do receptor GLP-1 e dos pacientes que os utilizam.

Em fevereiro de 2026, a Hims & Hers, plataforma online de saúde e bem-estar, anunciou a intenção de comercializar semaglutida oral manipulada a partir de US$ 49 por mês.

Dois dias depois, diante da ameaça de ação judicial da Novo Nordisk (fabricante do Wegovy) e de uma declaração da Food and Drug Administration (FDA) indicando que restringiria a venda de ingredientes GLP-1, mencionando especificamente a empresa, a decisão foi revista.

No entanto, um mês depois, Novo Nordisk e Hims & Hers anunciaram uma parceria para vender o Wegovy por meio da plataforma.

Em novembro de 2025, a Pfizer anunciou a aquisição da Metsera, empresa de biotecnologia dedicada ao desenvolvimento de agonistas do receptor GLP-1 e outros peptídeos para o tratamento da obesidade, por US$ 10 bilhões.

Quase simultaneamente, o governo dos Estados Unidos garantiu compromissos da Novo Nordisk e da Eli Lilly para reduzir substancialmente o preço desses medicamentos, com o objetivo de ampliar significativamente o acesso dos pacientes.

Em outras palavras, diversos atores do setor vêm pressionando para expandir o desenvolvimento e a disponibilidade dos medicamentos GLP-1 para emagrecimento.

medicamento para obesidade, que não é recomendado de forma isolada segundo as diretrizes de obesidade 2026

Uso off-label de semaglutida cresce entre pessoas sem obesidade

Conter o crescimento da epidemia global de obesidade traria benefícios claros nos níveis individual e populacional.

O uso de medicamentos GLP-1 tem sido associado, em alguns pacientes, à melhora de desfechos cardiovasculares, à redução do risco de doenças renais, à diminuição do desejo de consumir álcool e até a possíveis efeitos protetores contra doenças neurodegenerativas.

Diante desse cenário, é compreensível o interesse crescente em investir nessa classe terapêutica e o otimismo em relação ao seu impacto em saúde pública.

No entanto, sinais preocupantes vêm emergindo.

Embora os medicamentos GLP-1 tenham sido aprovados para pacientes com diabetes tipo 2, obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, cresce o uso desses agentes entre indivíduos que buscam alcançar ou manter a magreza sem indicação clínica formal.

A proporção de prescrições de agonistas do receptor GLP-1 para pessoas sem diabetes, obesidade ou sobrepeso aumentou de 4,5% em 2018 para 17% em 2023, refletindo também o avanço do uso off-label de semaglutida.

 

Semaglutida e agonistas GLP-1 podem desencadear anorexia nervosa?

Os agonistas do receptor GLP-1 demonstraram potencial inicial como tratamento para o transtorno da compulsão alimentar periódica, condição associada a maior risco de obesidade e caracterizada por episódios recorrentes de compulsão alimentar sem comportamentos compensatórios.

No entanto, evidências preliminares também sugerem que esses medicamentos podem exacerbar ou precipitar novos casos de transtornos alimentares restritivos, incluindo anorexia nervosa.

A anorexia nervosa é caracterizada por restrição persistente da ingestão energética, levando ao baixo peso corporal, medo intenso de ganho de peso e distorção da percepção corporal ou incapacidade de reconhecer a gravidade da própria condição.

O risco de mortalidade por qualquer causa entre pessoas com esse transtorno é mais de cinco vezes superior ao observado na população geral.

imagem representativa de transtornos alimentares

Efeitos psiquiátricos dos GLP-1

Os medicamentos GLP-1 promovem perda de peso por meio da ativação de vias centrais envolvidas na homeostase energética, no comportamento alimentar e na saciedade, além de retardarem o esvaziamento gástrico. Como consequência, muitos pacientes apresentam saciedade precoce e, frequentemente, náuseas após pequenas refeições.

Esse mecanismo pode resultar em balanço energético significativamente negativo ao longo de meses ou anos, contribuindo para efeitos adversos metabólicos, nutricionais e psiquiátricos ainda pouco compreendidos.

Deficiências nutricionais, alterações eletrolíticas, hipotensão ortostática, osteopenia, sarcopenia, alopecia e outros sinais de desnutrição já foram observados durante a prescrição de GLP-1 para uso prolongado.

Não é surpreendente, portanto, que indivíduos com histórico de transtornos alimentares ou predisposição genética para formas restritivas de transtorno alimentar possam entrar em um ciclo de restrição energética progressiva, perda de peso e reforço social positivo relacionado à magreza durante o uso desses medicamentos.

Essas complicações podem passar despercebidas pelos médicos, especialmente em pacientes com índice de massa corporal normal ou elevado.

Vale destacar que apenas cerca de 6% dos indivíduos com transtorno alimentar apresentam baixo peso clinicamente evidente, o que pode dificultar o reconhecimento precoce do quadro.

 

Semaglutida sem controle? Plataformas digitais e redes sociais impulsionam uso off-label

Também preocupa a facilidade com que pessoas sem sobrepeso ou obesidade conseguem obter medicamentos GLP-1 sem avaliação clínica adequada. Algumas plataformas online fornecem esses produtos sem exigir consulta médica direta ou comprovação de que o paciente atende aos critérios previstos em bula.

As farmácias de manipulação também ampliaram a produção para suprir a crescente demanda por agentes GLP-1 utilizados como “medicamentos de estilo de vida”, em um setor que historicamente enfrenta menor rigor regulatório.

Paralelamente, redes sociais vêm amplificando esse movimento, com vídeos de mulheres jovens promovendo o uso de medicamentos GLP-1 para perda de peso mesmo em pessoas com IMC normal ou baixo, inclusive por meio da chamada “microdosagem”.

 

Triagem de transtornos alimentares antes da prescrição de GLP-1

Ainda são escassos os estudos robustos sobre a incidência de distúrbios alimentares associados ao uso de agonistas do receptor GLP-1.

Em uma grande análise de registros de saúde anonimizados de pacientes em uso desses medicamentos, indivíduos com condição psiquiátrica prévia apresentaram mais do que o dobro da probabilidade de desenvolver uma alteração alimentar restritiva nos dois anos após o início do tratamento, em comparação com aqueles sem histórico de doença mental.

A incidência cumulativa de novos diagnósticos (mais frequentemente anorexia nervosa) foi de 1,275%.

Considerando que aproximadamente um em cada oito adultos nos Estados Unidos, ou cerca de 33 milhões de pessoas, relata já ter utilizado medicamentos GLP-1, essa taxa poderia representar mais de 420 mil casos potencialmente relacionados ao uso prolongado.

Apesar desse cenário, ainda não existe um protocolo padronizado de triagem de transtornos alimentares antes da prescrição de GLP-1, tampouco os bancos de dados de farmacovigilância e os estudos pós-comercialização foram especificamente desenhados para avaliar esse desfecho.

Além disso, o uso off-label permanece frequente, e muitos pacientes podem estar utilizando esses medicamentos sem o conhecimento de seus médicos, após adquiri-los por meios digitais.

 

O que médicos devem considerar antes de prescrever agonistas GLP-1

Investimentos substanciais foram direcionados ao desenvolvimento de agonistas do receptor GLP-1 e terapias relacionadas, impulsionando uma velocidade de adoção sem precedentes para uma classe de medicamentos destinada ao uso crônico.

Além dos diversos agentes já aprovados, dezenas de ensaios clínicos de nova geração estão em andamento. Em contrapartida, nenhum medicamento foi estabelecido como seguro e eficaz para o tratamento da anorexia nervosa.

Uma compreensão mais aprofundada da biologia da obesidade pode abrir caminhos inesperados para novas abordagens terapêuticas.

Assim como a obesidade, a anorexia nervosa vem sendo cada vez mais reconhecida como uma doença metabólica complexa, frequentemente acompanhada de condições psiquiátricas coexistentes e influenciada por fatores ambientais.

Existem importantes áreas de sobreposição entre ambas, que podem representar alvos promissores para futuras intervenções farmacológicas.

Diante da rápida expansão do uso dos agonistas do receptor GLP-1, torna-se urgente incorporar estratégias de triagem de transtornos alimentares antes e durante o tratamento.

Médicos prescritores, pesquisadores, órgãos reguladores e a indústria farmacêutica precisam considerar não apenas os benefícios metabólicos desses agentes, mas também seus possíveis riscos psiquiátricos dos agonistas de GLP-1 e impactos nutricionais de longo prazo.

paciente em consulta médica para avaliar riscos de agonistas GLP-1 e transtornos alimentares

Referências:

BANKS, A. GLP-1 Receptor Agonists and Eating Disorders – Cause for Concern. N Engl J Med 2026;394:1665-1667. DOI: 10.1056/NEJMp2600300. April 25, 2026.

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