

A síndrome de Behçet é uma vasculite sistêmica que acomete vasos de diferentes calibres e exige tratamento individualizado. As novas diretrizes da EULAR atualizam o manejo da doença, com foco no uso de terapias biológicas e controle de manifestações específicas por órgão.
🔑 Principais pontos das novas diretrizes:
- Colchicina segue como primeira linha em mucocutâneo e articular
- Anti-TNF ganha destaque em formas graves
- Terapias biológicas ampliam o arsenal terapêutico
- Tratamento deve ser individualizado por órgão
Entendendo mais sobre a Síndrome de Behçet
A síndrome de Behçet é uma vasculite sistêmica que afeta artérias e veias de grande, médio e pequeno calibre. Essa ampla gama de inflamação vascular, que levou à sua classificação como vasculite de vasos variáveis, está diretamente relacionada à complexidade do manejo na prática clínica.
As manifestações incluem uveíte, aneurismas arteriais, trombose arterial e venosa (incluindo seios venosos cerebrais e coração direito), lesões do sistema nervoso central, úlceras gastrointestinais, além de manifestações inflamatórias cutâneas, mucosas e musculoesqueléticas.
Diante dessa heterogeneidade, o tratamento exige abordagem individualizada, com o objetivo de preservar a função orgânica e melhorar a qualidade de vida.
Leia também:
– Doença de Behçet: sinais, sintomas e tratamento
– Como diagnosticar a Doença de Behçet: critérios ISG de 1990


Como é feito o tratamento atualmente?
O tratamento da síndrome de Behçet evoluiu significativamente nas últimas décadas.
Tradicionalmente, o manejo baseava-se no uso de glicocorticoides e fármacos antirreumáticos modificadores da doença sintéticos convencionais (csDMARDs), como azatioprina, ciclosporina A, ciclofosfamida e metotrexato, especialmente em casos com envolvimento sistêmico ou manifestações refratárias.
Com o avanço das terapias, os biológicos (bDMARDs) passaram a ter papel central no manejo da síndrome de Behçet, inicialmente com interferon alfa e, posteriormente, com os inibidores de TNF-α.
Mais recentemente, o tratamento atualizado da síndrome de Behçet passou a incluir novas opções terapêuticas, como inibidores de interleucinas (IL-1, IL-6, IL-17 e IL-12/23), além de fármacos sintéticos direcionados, como apremilast e inibidores de JAK, ampliando as possibilidades terapêuticas.
Novas diretrizes da EULAR para Síndrome de Behçet: o que mudou?
As diretrizes da EULAR para doença de Behçet foram inicialmente publicadas em 2008 e atualizadas em 2018. Desde então, novas evidências científicas contribuíram para uma revisão do manejo clínico da síndrome, incluindo ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais.
Esses estudos avaliaram desde comparações entre csDMARDs e bDMARDs até estratégias de manutenção, retirada de tratamento e controle de recidivas.
Como resultado, houve uma atualização importante nas recomendações, refletindo o atual cenário do tratamento baseado em evidências.
A atualização das diretrizes de 2025 foi conduzida por um grupo multidisciplinar de especialistas, incluindo reumatologistas, dermatologistas, oftalmologistas, gastroenterologistas e neurologistas, além de profissionais de saúde e representantes de pacientes.
Essa abordagem colaborativa fortalece a aplicabilidade das recomendações no manejo da síndrome em diferentes contextos clínicos.
Quais são as novas recomendações para o tratamento da Síndrome de Behçet?
Tratamento das manifestações mucocutâneas
A colchicina permanece como primeira linha no tratamento da doença com acometimento mucocutâneo.
Em casos refratários, podem ser utilizados apremilast ou inibidores de TNF-α.
Medidas tópicas, como glicocorticoides, também têm papel complementar, evitando-se o uso prolongado de corticoides sistêmicos.
Manejo do acometimento articular
No manejo articular da síndrome de Behçet, a colchicina é recomendada como terapia inicial.
Em casos recorrentes ou crônicos, a introdução de imunossupressores deve ser considerada.
Tratamento da uveíte
O tratamento da síndrome com envolvimento ocular exige uso de imunossupressores para indução e manutenção da remissão.
Em quadros graves, especialmente com risco visual, recomenda-se o uso de anti-TNF (preferencialmente infliximabe), associado a outros imunossupressores.
Corticoides não devem ser utilizados isoladamente.
Como tratar o acometimento arterial
O tratamento vascular inclui glicocorticoides em altas doses associados a infliximabe, com ciclofosfamida como alternativa.
A manutenção deve ser realizada com imunossupressores, preferencialmente biológicos anti-TNF.
Procedimentos intervencionistas não devem ser postergados quando indicados.
Tratamento da trombose
No manejo da trombose na síndrome, recomenda-se o uso de glicocorticoides e imunossupressores, com preferência por anti-TNF.
A anticoagulação pode ser considerada em situações selecionadas, após avaliação do risco de sangramento.
Manejo do acometimento gastrointestinal
O tratamento gastrointestinal deve ser guiado por avaliação endoscópica.
Terapias iniciais incluem 5-ASA ou azatioprina, com escalonamento para biológicos em casos graves ou refratários.
Tratamento do envolvimento neurológico
No envolvimento neurológico, o tratamento baseia-se em glicocorticoides em altas doses associados a imunossupressores, com destaque para infliximabe, seguido de terapia de manutenção.
Conclusão
As novas diretrizes reforçam uma mudança importante no tratamento da síndrome de Behçet, com maior protagonismo das terapias biológicas e abordagem personalizada conforme o órgão acometido.
O manejo atual prioriza controle rápido da inflamação, prevenção de danos orgânicos e redução de recidivas, consolidando uma medicina mais direcionada e baseada em evidências.
Referências:
HATEMI, G. et al. EULAR recommendations for the management of Behçet’s syndrome: 2025 update. Ann Rheum Dis 000 (2026).

































