

Dermatoses vulvares com prurido? Saiba identificar líquen escleroso, líquen plano e líquen simples crônico.
Dermatoses vulvares: diagnósticos que todo médico precisa reconhecer
As dermatoses vulvares liquenoides figuram entre os diagnósticos mais desafiadores da ginecologia.
Líquen escleroso vulvar (LE), líquen plano vulvar (LP) e líquen simples crônico da vulva (LSC) compartilham sintomas como prurido e alterações cutâneas vulvares, mas divergem em patogênese, achados clínicos e prognóstico.
Reconhecê-las com precisão é fundamental: além do impacto significativo na qualidade de vida, o líquen escleroso e o líquen plano estão associados a um risco aumentado de neoplasia vulvar — com destaque para o líquen escleroso, cujo risco é mais bem documentado.
Líquen escleroso vulvar
Trata-se de uma dermatose inflamatória crônica, sendo uma das principais causas de dermatose vulvar com prurido intenso. Tem prevalência provavelmente subestimada pela subnotificação e pelos vieses de diagnóstico.
A distribuição é bimodal: há dois picos de incidência, um pré-puberal e outro peri- e pós-menopáusico (podendo coexistir com atrofia vulvovaginal nesses casos). Sua patogênese é multifatorial, envolvendo componentes genéticos, imunológicos, hormonais e ambientais.
O prurido é o sintoma cardinal, relatado por até 90% das pacientes adultas. Ao exame, o achado mais característico é a alteração de coloração branca (tonalidade marfim ou porcelana), frequentemente acompanhada de textura enrugada da pele.
Com a progressão, surgem alterações arquitetônicas da vulva: reabsorção dos lábios menores, encapuzamento de clitóris, estreitamento do intróito e aderências perivulvares.
Um achado clínico bastante sugestivo é o padrão em 8 (ou distribuição em “figura de 8”): trata-se do envolvimento concomitante da região vulvar e perianal, formando uma área contínua de alteração branca que circunda ambas as regiões. Esse padrão não é universal; muitas pacientes apresentam doença localizada ou acometimento não contíguo, mas sua presença é fortemente evocativa do diagnóstico de líquen escleroso.
Vale lembrar que é bem documentado que o líquen escleroso está associado ao desenvolvimento de lesões precursoras e câncer em caso de manejo e seguimento inadequados, por isso o diagnóstico precoce e tratamento são tão importantes.


Líquen plano vulvar
O líquen plano vulvar se apresenta como pápulas ou placas de tonalidade violácea ou eritematosa, eventualmente erosadas da região vulvar. Temos também o prurido como manifestação, mas pode vir associado à dor, ardência e dispareunia especialmente na forma erosiva.
Corresponde a um processo inflamatório da pele e/ou mucosa vulvar, podendo ser observada em forma localizada ou até mesmo generalizada. Pode acometer vagina, colo uterino, boca e outras mucosas.
A investigação de lesões extravulvares é parte fundamental do raciocínio diagnóstico.
Ao exame se apresenta com pápulas planas de tonalidade violácea ou eritematosa, eventualmente com estrias esbranquiçadas em sua superfície (estrias de Wickham), podendo ser discretas ou confluir em placas. Tendem a ser descamativas e eventualmente erosivas. No líquen plano oral, lesões em renda na mucosa jugal completam o quadro multissítio.
O líquen plano vulvar apresenta potencial de evolução para neoplasias e malignização, porém com evidência menos robusta que o líquen escleroso.
Líquen simples crônico da vulva
O líquen simples crônico da vulva resulta do ciclo crônico de coceira e coçadura, com liquenificação progressiva – espessamento cutâneo com acentuação dos sulcos da pele. Devido ao prurido local, frequentemente é associado a fissura ou escoriações.
O prurido é o sintoma principal, embora, em alguns casos, as perdas teciduais possam cursar com ardência ou até dor.
A apresentação clínica à inspeção vulvar varia conforme o fototipo: em peles mais claras, o líquen simples crônico aparece como placas róseo-acinzentadas mal delimitadas; em peles mais escuras, pode exibir hiperpigmentação pós-inflamatória ou aspecto esbranquiçado.
O líquen simples crônico isolado é considerado uma condição benigna, sem potencial maligno intrínseco.
Abordagem das dermatoses vulvares: manejo e seguimento
Os corticosteroides tópicos são o pilar terapêutico — seguros, eficazes e recomendados como tratamento inicial com uma dose de ataque e tratamento de manutenção ao longo da vida. A manutenção a longo prazo pode ser mantida, mesmo em pacientes assintomáticas, uma vez que a remissão dos sintomas não equivale à cura.
O propionato de clobetasol e o furoato de mometasona são os agentes mais estudados, com melhora sintomática em até 96% das pacientes. A seleção do esquema deve levar em conta a atividade da doença, a preferência da paciente e a disponibilidade local do medicamento.
Anti-histamínicos (para controle sintomático especialmente nos casos de LSC), hidratantes locais (para melhora da pele) e hormônios tópicos para tratamento de atrofia quando presente podem ser usados como auxiliares no tratamento.
A biópsia é indicada sempre que o diagnóstico clínico for inconclusivo, quando houver suspeita de neoplasia associada ou quando a resposta ao tratamento for insatisfatória. Lesões focais resistentes a corticosteroides tópicos potentes devem ser biopsiadas para exclusão de neoplasias e outros diagnósticos diferenciais.


Dermatoses vulvares na prática: o que não pode passar despercebido
As dermatoses liquenoides da vulva exigem raciocínio clínico cuidadoso, exame vulvar sistematizado e, quando necessário, correlação histopatológica. A coexistência entre essas condições é mais frequente do que se imagina — e tratá-las adequadamente com seguimento contínuo ao longo da vida é o que distingue o controle efetivo da doença da progressão silenciosa para complicações irreversíveis.
Na prática, isso significa examinar a vulva de forma sistemática em todas as consultas, investigar mucosas extravulvares e não interpretar melhora sintomática como resolução da doença — especialmente nas dermatoses vulvares com potencial de malignização.
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Referências:
Veja imagens em: Atlas de Colposcopia – Coleção FEBRASGO.
Day T, Mauskar M, Selk A. Lichen Sclerosus: ISSVD Practical Guide to Diagnosis and Management. ISSVD; September 2024.
José Humberto Belmino Chaves, Eulina Maria Vieira de Abreu, Vera Lúcia Tenório Correia da Silva. Atlas de patologia do trato genital inferior em imagens: questões chaves. CFM; 2021.
Neila Maria de Góis Speck; coeditoras Adriana Bittencourt Campaner, Silvana Maria Quintana; colaboradores Adriane Cristina Bovo …[et al.]. Atlas de colposcopia. FEBRASGO; 2020.
































