

A tuberculose na infância ainda está entre os principais desafios no controle da doença, exigindo diagnóstico oportuno e estratégias que favoreçam a adesão ao tratamento. Nesse contexto, a possibilidade de reduzir a duração da terapia de seis para quatro meses em casos selecionados de tuberculose pulmonar não grave representa um avanço relevante para a prática clínica. Mas quais pacientes podem se beneficiar dessa abordagem?
Tratamento da tuberculose sensível: limitações do esquema convencional de 6 meses
A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa e transmissível causada principalmente pelo Mycobacterium tuberculosis. A forma pulmonar é a mais frequente e apresenta importante relevância epidemiológica por ser a principal responsável pela transmissão, que ocorre por via respiratória através de aerossóis eliminados por bacilíferos.
Apesar de ser uma doença prevenível e curável, a TB permanece como um importante problema de saúde pública, sendo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado fundamentais para interromper sua cadeia de transmissão e reduzir a morbimortalidade.
Há mais de duas décadas o tratamento padronizado para a tuberculose sensível (TB-S) consiste em um esquema de seis meses de duração, com dois meses de fase intensiva inicial contendo rifampicina (R), isoniazida (H), pirazinamida (Z) e etambutol (E) e quatro meses de fase de manutenção com R e H.
Aproximadamente 85% dos pacientes alcançam sucesso no tratamento com esse esquema.
Entretanto, regimes de tratamento prolongados podem resultar em altos custos para as famílias e para os serviços de saúde, potencialmente com toxicidade adicional, riscos de interações medicamentosas em crianças vivendo com HIV, problemas com a quantidade de comprimidos e a adesão ao tratamento.
Tratamento encurtado da tuberculose: o que mudou para crianças e adolescentes?
De acordo com dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), foram notificados 800.872 casos de tuberculose pulmonar no Brasil entre 2015 e 2025. Destes, 131.699 evoluíram com abandono do tratamento, correspondendo a 16,4% dos casos, evidenciando a baixa adesão terapêutica como um dos principais desafios para o controle da doença.
Visto a relevância dessa questão, a partir de 2024, as normas nacionais passaram a oferecer a possibilidade do esquema terapêutico encurtado de quatro meses para casos selecionados de TB pulmonar não grave em crianças e adolescentes de 2 a 16 anos, baseando-se nos resultados do estudo SHINE, que demonstrou que o esquema de quatro meses (2RHZ(E)/2RH) é não inferior ao padrão de seis meses, com menor custo e boa adesão.
Somado a isso, em abril de 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou uma atualização específica sobre TB na infância, passando a contemplar e detalhar essa estratégia em seu documento científico ampliando o respaldo técnico para sua utilização na população pediátrica.
O tratamento encurtado da tuberculose para adultos ainda não está incorporado ao SUS, mantendo-se o tratamento básico de 6 meses como padrão universal para TB-S.


Quem pode receber o esquema encurtado para tuberculose?
O novo esquema de tratamento é direcionado para pacientes de 2 a 16 anos com TB não grave. As formas graves de TB devem receber o esquema básico de tratamento por 6 meses (ou por 12 meses se for TB meníngea e TB ósteo-articular).
Podem ser tratados com o esquema encurtado aqueles pacientes com sinais clínico-radiológicos de TB pulmonar sem gravidade e negativos microbiologicamente.
Como definir a tuberculose pulmonar não grave?
A Sociedade Brasileira de Pediatria ainda frisa os critérios para se considerar uma TB pulmonar não grave:
- TB pulmonar com acometimento em linfonodos periféricos, TB intratorácica sem sinais de obstrução de vias aéreas ou doença paucibacilar não cavitária confinada a um lobo pulmonar sem padrão miliar ou TB pleural não complicada;
- Na presença de coinfecção HIV e TB não grave, dependendo do grau de imunossupressão, da terapia antirretroviral e da presença de outras infecções oportunistas. Nesses casos, há a necessidade de monitoramento constante, especialmente ao final do tratamento encurtado (quarto mês) para que seja definido se o tratamento será prolongado até 6 meses.
Na ausência ou dificuldade de avaliação radiológica e microbiológica, os critérios clínicos podem orientar a indicação do esquema encurtado, especialmente em crianças com sintomas leves que não necessitem de internação ou com TB ganglionar periférica isolada, sem suspeita de acometimento extrapulmonar.
Como é o esquema de tratamento encurtado da tuberculose pediátrica?
O esquema encurtado para tuberculose envolve, no início rifampicina + isoniazida + pirazinamida (e etambutol a partir dos 10 anos) por 2 meses e adiante, rifampicina + isoniazida por 2 meses.
No esquema encurtado, o tempo total de tratamento da TB é de 4 meses. Se na vigência do uso do esquema encurtado não houver evolução clínica satisfatória, poderá ser prolongada a fase de manutenção até atingir 6 meses.


Portanto, os avanços no tratamento da tuberculose sensível demonstram que a redução do tempo terapêutico pode representar uma relevante estratégia para o controle da doença.
As evidências do estudo SHINE, aliadas à atualização das recomendações nacionais e ao recente respaldo técnico da Sociedade Brasileira de Pediatria, ampliam as possibilidades de tratamento da TB pulmonar não grave em crianças e adolescentes.
Resumo prático: tratamento encurtado da tuberculose pediátrica


Referências:
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Pneumologia. Tuberculose na infância no Brasil: atualização. Documento Científico, n. 40, 23 abr. 2026. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2026. Disponível em: https://www.sbp.com.br/tuberculose-na-infancia-no-brasil-atualizacao/
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil. 2. ed. atual. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: Ministério da Saúde – Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. SHINE trial on shorter treatment for children with minimal TB. Geneva: World Health Organization, 26 Oct. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news/item/26-10-2020-shine-trial-on-shorter-treatment-for-children-with-minimal-tb.
TURKOVA, Anna et al. Shorter treatment for nonsevere tuberculosis in African and Indian children. New England Journal of Medicine, v. 386, n. 10, p. 911-922, 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2104535.
LOPES, Caio Silva et al. Abandono, cura ou óbito?: uma análise epidemiológica dos desfechos dos casos de tuberculose pulmonar no Brasil nos últimos 10 anos. Pulmão RJ, Rio de Janeiro, v. 33, n. 3, out. 2025. Suplemento PNEUMOINRIO2025.
RIBEIRO, Maria Clara Simões da Motta Telles. Atualização no tratamento da tuberculose sensível: evidências e aplicabilidade dos novos esquemas terapêuticos encurtados. Rio de Janeiro, v. 34, n. 2, jun. 2026. DOI: https://doi.org/10.63483/rp.v34i2.315

































