

A soroterapia tem ganhado popularidade nos últimos anos, especialmente pela oferta de infusões intravenosas de vitaminas com promessas de aumento da energia, fortalecimento da imunidade, rejuvenescimento e efeito “detox”.
Diante da crescente divulgação dessa prática, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta reforçando a ausência de evidências científicas para seu uso indiscriminado em pessoas saudáveis.
Neste artigo, revisamos o posicionamento da agência, as principais evidências disponíveis, as indicações reconhecidas da terapia intravenosa e os riscos associados à soroterapia.
O que motivou o alerta da Anvisa?
O crescimento da oferta de soroterapia em clínicas e nas redes sociais, frequentemente associada a promessas de aumento da energia, fortalecimento da imunidade, rejuvenescimento e efeito “detox”, motivou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a publicar um alerta sobre a prática.
Segundo a agência, não há evidências científicas robustas que sustentem o uso de infusões intravenosas de vitaminas, minerais e outras substâncias para promoção da saúde, prevenção de doenças ou melhora do bem-estar em indivíduos saudáveis.
Além da ausência de benefício clínico comprovado, a Anvisa ressalta que a administração intravenosa é um procedimento invasivo e, portanto, não é isenta de riscos.
Do ponto de vista regulatório, a Anvisa reforça que produtos administrados por via injetável não são classificados como cosméticos e devem estar regularizados como medicamentos ou dispositivos médicos.
A agência também destaca que a habilitação para a realização desses procedimentos e sua regulamentação ética são atribuições dos respectivos conselhos profissionais.
O que é soroterapia?
A soroterapia, ou terapia intravenosa, consiste na administração de soluções contendo medicamentos, eletrólitos, vitaminas, minerais, imunobiológicos ou outros agentes terapêuticos diretamente na circulação venosa.
A via intravenosa proporciona biodisponibilidade imediata, permitindo rápida distribuição sistêmica e controle preciso da dose administrada.
Na prática médica, trata-se de um recurso terapêutico consolidado, indicado em situações específicas. Porém, recentemente o termo soroterapia passou a ser amplamente utilizado para descrever infusões intravenosas de vitaminas, minerais, antioxidantes e outras substâncias com finalidade de promoção da saúde e bem-estar em pessoas saudáveis.
É justamente essa utilização, fora de indicações médicas estabelecidas, que tem motivado questionamentos de sociedades científicas e órgãos reguladores, devido à ausência de evidências consistentes de eficácia e segurança para esse tipo de uso.


O que dizem as evidências científicas?
Até o momento, não existem evidências científicas robustas que sustentem o uso rotineiro de soroterapia com vitaminas, minerais ou antioxidantes para aumentar a disposição, fortalecer a imunidade, retardar o envelhecimento ou promover efeito “detox” em indivíduos saudáveis.
Grande parte dos estudos disponíveis apresenta limitações metodológicas, como pequeno tamanho amostral, heterogeneidade das formulações utilizadas, ausência de grupos controle adequados e desfechos subjetivos.
Além disso, os resultados positivos observados em alguns estudos não foram reproduzidos de forma consistente em ensaios clínicos randomizados de maior qualidade.
A vitamina C intravenosa é um dos componentes mais estudados, especialmente em pacientes com sepse e choque séptico. Ainda assim, revisões sistemáticas e diretrizes internacionais não demonstraram benefício consistente sobre mortalidade ou outros desfechos clínicos relevantes, motivo pelo qual seu uso rotineiro não é recomendado para essa finalidade.
Da mesma forma, não há evidências que justifiquem a administração intravenosa de vitaminas ou minerais em pessoas sem deficiência nutricional documentada apenas com o objetivo de melhorar o bem-estar ou prevenir doenças.
Em quais situações a terapia intravenosa tem indicação médica?
Embora a soroterapia para fins de bem-estar não tenha respaldo científico, a administração intravenosa de micronutrientes possui indicações estabelecidas em diversos contextos clínicos.
As principais situações incluem:
- pacientes em nutrição parenteral, nos quais vitaminas e oligoelementos devem ser administrados desde o início da terapia;
- deficiências nutricionais comprovadas, quando a via oral é inviável, ineficaz ou insuficiente;
- queimaduras extensas, trauma maior e outras condições hipercatabólicas, associadas a aumento do consumo e das perdas de micronutrientes;
- insuficiência renal aguda em terapia renal substitutiva contínua, devido às perdas extracorpóreas de vitaminas hidrossolúveis e oligoelementos;
- prevenção e tratamento da síndrome de realimentação, especialmente com reposição de tiamina, fósforo, potássio e magnésio;
- pacientes com má absorção intestinal, vômitos persistentes (como hiperêmese gravídica), algumas doenças oncológicas e outras condições nas quais a absorção enteral está comprometida.
Nesses cenários, a indicação da terapia intravenosa baseia-se em condições clínicas bem definidas e recomendações de diretrizes.
Em contrapartida, as evidências atuais não apoiam o uso rotineiro de infusões intravenosas de vitaminas e minerais para promoção da saúde, melhora do desempenho físico ou mental, rejuvenescimento ou outras finalidades de “wellness”.


Quais são os riscos associados à soroterapia?
Embora frequentemente divulgada como um procedimento simples e seguro, a soroterapia envolve a administração intravenosa de medicamentos, vitaminas e outros compostos, estando sujeita aos mesmos riscos inerentes a qualquer terapia intravenosa.
A probabilidade de eventos adversos varia conforme a formulação utilizada, dose administrada, velocidade de infusão e condições clínicas do paciente.
Os principais riscos incluem:


Algumas populações apresentam risco particularmente elevado de complicações, incluindo pacientes com insuficiência renal, doença hepática, deficiência de G6PD, hemocromatose, história de nefrolitíase por oxalato e recém-nascidos prematuros.
Por esse motivo, a administração intravenosa de vitaminas e minerais não deve ser considerada um procedimento isento de riscos, especialmente quando realizada sem indicação clínica estabelecida, avaliação individualizada e monitorização adequada.
Como orientar pacientes que procuram esse tipo de tratamento?
Pacientes interessados em soroterapia frequentemente relatam ter recebido informações em redes sociais ou por influenciadores, com promessas de aumento da disposição, fortalecimento da imunidade, prevenção de doenças ou efeito “detox”. Nesses casos, a orientação deve ser baseada na melhor evidência científica disponível.
É importante explicar que, na ausência de deficiência nutricional documentada ou de uma indicação médica específica, não há evidências consistentes de que infusões intravenosas de vitaminas e minerais proporcionem benefícios clínicos superiores aos obtidos com alimentação adequada, suplementação oral quando indicada ou tratamento da causa subjacente dos sintomas.
Também é recomendável esclarecer que a administração intravenosa é um procedimento invasivo, associado a riscos como infecções, reações alérgicas, flebite e toxicidade por micronutrientes, além de custos frequentemente elevados.
Diante de queixas inespecíficas, como fadiga, baixa disposição ou queda do desempenho, a investigação clínica deve priorizar causas potencialmente tratáveis, como distúrbios do sono, anemia, deficiência de ferro ou vitamina B12, hipotireoidismo, transtornos psiquiátricos, doenças crônicas e uso de medicamentos, em vez da administração empírica de infusões intravenosas.
Por fim, quando houver indicação para reposição de vitaminas ou minerais, a escolha da via de administração deve ser individualizada. Na maioria das situações, a suplementação oral é eficaz, reservando-se a terapia intravenosa para pacientes com indicações clínicas bem estabelecidas.
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Referências:
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