

O Método Canguru já é amplamente reconhecido por seus benefícios na estabilização clínica de recém-nascidos prematuros. No entanto, evidências recentes sugerem que seus efeitos podem ir além da redução da mortalidade e das complicações neonatais, influenciando diretamente o desenvolvimento cerebral durante um dos períodos mais críticos da vida.
Considerando que a prematuridade está associada a um maior risco de déficits cognitivos, motores e comportamentais, cresce o interesse em estratégias capazes de promover neuroproteção desde os primeiros dias após o nascimento.
Neste contexto, o contato pele a pele tem sido investigado como uma intervenção potencialmente capaz de favorecer a maturação cerebral e melhorar desfechos de neurodesenvolvimento.
A seguir, revisamos os principais mecanismos neurobiológicos envolvidos e as evidências atuais sobre o impacto do Método Canguru no neurodesenvolvimento de prematuros.
Por que os prematuros apresentam maior risco de alterações no neurodesenvolvimento?
A prematuridade, definida como parto antes de 37 semanas completas de gestação, permanece um importante problema de saúde pública, associada à elevada morbimortalidade neonatal.
Estima-se que aproximadamente 15 milhões de nascimentos prematuros ocorram anualmente no mundo, sendo suas complicações a principal causa de óbito em crianças menores de cinco anos.
Além da sobrevida, esses pacientes apresentam maior risco de alterações no neurodesenvolvimento, incluindo prejuízos cognitivos, motores, sensoriais, emocionais e sociais.
Tais desfechos refletem tanto a imaturidade cerebral quanto a exposição ao ambiente estressor das unidades de terapia intensiva neonatal, reforçando a necessidade de intervenções precoces voltadas à proteção do desenvolvimento cerebral.
O que é o Método Canguru e como ele é aplicado na prática clínica?
O método canguru, ou kangaroo mother care, consiste no contato pele a pele entre o bebê prematuro e seus cuidadores, associado ao aleitamento materno e à alta hospitalar precoce quando possível.
Inicialmente proposto em contextos com recursos limitados, tornou-se uma estratégia amplamente adotada devido aos seus benefícios fisiológicos e comportamentais.
Entre seus efeitos, destacam-se a estabilização térmica, melhora da frequência respiratória e cardíaca, além do fortalecimento do vínculo parental.
A prática pode ser mantida ao longo do primeiro ano de vida, período caracterizado por elevada plasticidade cerebral, no qual estímulos ambientais exercem impacto significativo na organização neural.


Como o Método Canguru influencia o desenvolvimento cerebral do prematuro?
O contato pele a pele promove estímulos sensoriais integrados (táteis, térmicos, auditivos e olfatórios) que mimetizam o ambiente intrauterino. Esse conjunto de estímulos favorece a regulação do estresse, melhora a qualidade do sono e estimula processos de neuroplasticidade.
Estudos sugerem que o método canguru pode influenciar positivamente a maturação cortical, o volume cerebral e a conectividade neural, reforçando seu potencial papel no desenvolvimento cerebral do prematuro. Além disso, a liberação de ocitocina associada ao contato físico contribui para a regulação emocional e para o desenvolvimento do sistema límbico.
Método Canguru melhora o neurodesenvolvimento de prematuros? O que dizem os estudos
Evidências clínicas indicam que o método canguru está associado a melhores desfechos cognitivos, motores e comportamentais. Bebês expostos à intervenção apresentam melhor desempenho em escalas de desenvolvimento, maior capacidade de atenção e aquisição mais rápida de habilidades.
No âmbito motor, observa-se antecipação de marcos do desenvolvimento, como controle cefálico e coordenação motora. Esses efeitos parecem decorrer da maior interação cuidador-bebê, da estimulação vestibular e das mudanças posturais frequentes.
O aleitamento materno, componente central do método, também desempenha papel relevante, estando associado à maior expressão de fatores neurotróficos, como o BDNF, fundamentais para o crescimento cerebral.
Do ponto de vista comportamental, há redução da irritabilidade, melhor autorregulação emocional e maior engajamento social, sugerindo impacto positivo no desenvolvimento psicossocial.
Quais são as limitações das evidências disponíveis?
Apesar dos achados consistentes, a heterogeneidade metodológica dos estudos limita a generalização dos resultados. Há variação significativa quanto ao início, duração e intensidade da intervenção, bem como nos desfechos avaliados.
Outro ponto crítico é a escassez de estudos com seguimento de longo prazo, o que dificulta a avaliação do impacto do método canguru em fases posteriores do desenvolvimento, como infância tardia e adolescência.
Fatores contextuais, incluindo condições socioeconômicas, suporte familiar e aspectos culturais, também influenciam a adesão e a efetividade da intervenção.
Qual o papel do Método Canguru no cuidado neonatal atual?
O método canguru deve ser considerado uma estratégia central no cuidado neonatal, indo além da redução da mortalidade e incorporando-se ao suporte ao neurodesenvolvimento.
A capacitação de profissionais de saúde e o fortalecimento de programas educacionais para cuidadores são fundamentais para ampliar sua implementação.
Estudos futuros devem padronizar protocolos, estratificar populações (como prematuros extremos) e investigar desfechos de longo prazo, utilizando ferramentas como neuroimagem e biomarcadores para melhor compreensão dos mecanismos envolvidos.


Referências:
NIAZ, M. et al. Neurodevelopmental Outcomes in Preterm Infants Receiving Kangaroo Mother Care: A Systematic Review. Journal of Neonatal Surgery. ISSN(Online): 2226-0439. Vol. 14, Issue 32s (2025).
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