

O crescimento das apostas online no Brasil tem levantado preocupações sobre vício em jogos e impactos na saúde mental. Quais são os riscos das “bets” e o que o SUS está fazendo para enfrentar o problema?
Crescimento das apostas online no Brasil e seus impactos na saúde mental
O rápido crescimento das apostas online no Brasil tem suscitado preocupações entre especialistas quanto aos seus impactos na saúde mental. Com poucos cliques no celular, milhões de pessoas passaram a apostar em partidas esportivas, ampliando um fenômeno conhecido popularmente como “bets”.
Nas últimas décadas, transformações tecnológicas e culturais alteraram profundamente as formas de lazer, consumo e interação social. O avanço da internet, a popularização dos smartphones e o desenvolvimento de plataformas digitais ampliaram as opções de entretenimento, mas também criaram novos desafios para a saúde pública.
Entre esses fenômenos, destaca-se o vício em apostas online (as chamadas “bets”) e seus impactos na saúde mental.
No Brasil, a expansão das apostas esportivas ganhou força após a legalização dessa modalidade em 2018. Desde então, o mercado cresceu rapidamente, impulsionado pela facilidade de acesso às plataformas digitais, pela ampla divulgação publicitária e pela integração das apostas ao universo do esporte, especialmente do futebol.
Com poucos cliques no celular, usuários podem apostar em partidas esportivas a qualquer momento do dia, o que aumentou significativamente a participação da população nessa atividade.
Especialistas alertam, no entanto, que esse cenário também contribuiu para o aumento de comportamentos problemáticos relacionados ao jogo.
Entre os principais impactos estão:
– endividamento,
– conflitos familiares,
– perda de controle sobre as apostas e
– agravamento de transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Por esse motivo, o fenômeno passou a ser considerado um tema relevante para a saúde pública, exigindo estratégias de prevenção e cuidado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).


Apostas online e determinantes sociais da saúde
O comportamento de apostar não pode ser compreendido apenas como uma escolha individual. Pesquisas indicam que fatores sociais, econômicos e culturais influenciam diretamente a exposição aos riscos associados ao jogo.
Elementos como renda, escolaridade, gênero, raça e acesso a oportunidades de lazer estão entre os chamados determinantes sociais da saúde, que podem aumentar a vulnerabilidade de determinados grupos.
Estudos apontam que homens jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica apresentam maior probabilidade de desenvolver comportamentos problemáticos relacionados às apostas.
Além disso, a forte presença de publicidade digital — incluindo patrocínios esportivos e campanhas com influenciadores — amplia o alcance das plataformas e contribui para normalizar a prática, especialmente entre os mais jovens.
Outro fator relevante é o modelo de funcionamento das plataformas digitais. Muitos aplicativos utilizam estratégias de design persuasivo e algoritmos capazes de analisar o comportamento dos usuários, oferecendo recompensas e estímulos frequentes para incentivar novas apostas.
Esses mecanismos exploram expectativas de ganho financeiro e aumentam o tempo de permanência nas plataformas.
Expansão das apostas digitais e desafios regulatórios no Brasil
Antes da popularização da internet, os jogos de aposta estavam associados principalmente a espaços físicos específicos, como loterias, corridas de cavalo e casas de bingo. Com a digitalização dessas atividades, as apostas passaram a ser realizadas de forma contínua e individualizada, sem limitações de horário ou localização.
Esse novo modelo também favoreceu a expansão de um mercado global altamente lucrativo. Durante muitos anos, empresas estrangeiras ofereceram serviços de apostas para usuários brasileiros mesmo sem regulamentação clara no país, o que gerava desafios jurídicos e tributários.
A legalização das apostas esportivas de quota fixa em 2018 foi uma tentativa de organizar esse setor. Nessa modalidade, o valor potencial de ganho é definido no momento da aposta, com base em probabilidades previamente estabelecidas. No entanto, a ausência inicial de regulamentação detalhada permitiu a rápida expansão do mercado, com forte presença de publicidade e parcerias com clubes esportivos.
Essa estratégia aproximou ainda mais as apostas do universo do futebol. Para muitos torcedores, apostar passou a ser parte da experiência de acompanhar partidas, reforçando a ideia de que o conhecimento sobre o esporte pode aumentar as chances de lucro.
Esse discurso reduz a percepção de risco e contribui para que as apostas sejam vistas como uma forma comum de entretenimento.
Principais impactos das apostas online na saúde mental
Com a ampliação do acesso às apostas online, especialistas passaram a observar um crescimento de problemas associados ao jogo. Entre as consequências mais frequentes estão dificuldades financeiras, estresse, conflitos familiares, isolamento social e agravamento de transtornos mentais.
Além disso, o acesso permanente às plataformas digitais pode dificultar o controle do impulso de apostar. Diferentemente das formas tradicionais de jogo, que estavam vinculadas a locais específicos e interações presenciais, as apostas online estão disponíveis 24 horas por dia e podem ser realizadas de forma privada pelo celular.
Diante desse cenário, políticas públicas voltadas à prevenção e ao tratamento para vícios em apostas tornaram-se cada vez mais necessárias. No Brasil, o SUS vem estruturando estratégias para ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental e apoiar pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo.


Governo cria plataforma de autoexclusão para apostas online
Uma das iniciativas recentes do governo federal foi o lançamento de uma plataforma de autoexclusão de apostas no Brasil. O sistema permite que cidadãos solicitem o bloqueio voluntário do acesso a todos os sites de apostas autorizados no país de uma só vez.
A ferramenta possibilita que o usuário torne seu CPF indisponível para novos cadastros em plataformas de apostas e também bloqueie o recebimento de publicidade direcionada dessas empresas. O pedido pode ser feito por um período determinado — de um a 12 meses — ou por tempo indeterminado.
A autoexclusão é considerada uma estratégia importante para reduzir danos associados ao jogo, especialmente para pessoas que reconhecem dificuldades em controlar o comportamento de apostar.
SUS oferece teleatendimento para vício em apostas
Outra medida adotada pelo Ministério da Saúde foi a criação de um serviço de teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.
O serviço funciona por meio do aplicativo Meu SUS Digital e permite que usuários recebam atendimento especializado de forma gratuita e confidencial.
O teleatendimento é realizado por uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, terapeutas ocupacionais e, quando necessário, médicos psiquiatras. As consultas são feitas por vídeo, com duração média de 45 minutos, e podem integrar ciclos de cuidado com até 13 encontros.
O acesso ao serviço começa com um autoteste disponível no aplicativo, que ajuda a identificar sinais de risco associados ao comportamento de apostar. Dependendo do resultado, o usuário pode ser encaminhado automaticamente para atendimento remoto ou orientado a buscar suporte na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui unidades básicas de saúde e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).


Crescimento da rede de saúde mental
O fortalecimento das políticas de saúde mental também tem sido acompanhado por investimentos na ampliação da rede de atendimento. Nos últimos anos, o financiamento federal destinado à saúde mental aumentou significativamente, permitindo a expansão dos serviços do SUS.
Atualmente, o país conta com milhares de pontos de atenção voltados ao cuidado em saúde mental, incluindo unidades da RAPS e equipes multiprofissionais nas unidades básicas de saúde.
Essa estrutura é considerada fundamental para enfrentar os impactos sociais e psicológicos relacionados ao crescimento das apostas online e ao seu impacto na saúde mental.
Especialistas ressaltam que o enfrentamento desse problema exige uma abordagem integrada, que combine ações clínicas, prevenção, educação digital e regulação da publicidade das plataformas de apostas.
Dessa forma, é possível reduzir riscos, ampliar o acesso ao tratamento para vício em apostas no SUS e promover maior proteção à saúde da população.
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Referências:
BRASIL, MINISTÉRIO DA FAZENDA. Plataforma Centralizada de Autoexclusão entra no ar para permitir bloqueio de acesso a todos os sites de apostas. Publicado em 10/12/2025.
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde inicia teleatendimento gratuito pelo SUS para quem enfrenta problemas com jogos e apostas. Publicado em 03/03/2026.
MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2025. Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas.

































