

A reanimação neonatal é uma das intervenções mais importantes na sala de parto. Embora a maioria dos recém-nascidos realize a transição para a vida extrauterina sem dificuldades, cerca de 10% necessitam de algum suporte ao nascimento e uma pequena parcela requer medidas avançadas de reanimação.
Com a atualização das diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), foram reforçadas recomendações sobre ventilação, controle térmico e manejo do recém-nascido prematuro.
Confira o algoritmo de reanimação neonatal e os principais pontos para a prática clínica.
Reanimação neonatal: preparação da equipe e da sala de parto
A reanimação neonatal começa antes do nascimento. Toda sala de parto deve estar preparada para oferecer assistência imediata ao recém-nascido, com profissionais capacitados e equipamentos prontamente disponíveis.
Para recém-nascidos com idade gestacional ≥34 semanas, recomenda-se a presença de pelo menos um profissional treinado em reanimação neonatal, capaz de realizar os passos iniciais e ventilação com pressão positiva (VPP) por máscara facial. Esse profissional deve estar exclusivamente dedicado ao atendimento do neonato.
Nos nascimentos com idade gestacional <34 semanas, a equipe deve contar com dois a três profissionais, incluindo ao menos um pediatra capacitado para procedimentos avançados, como intubação traqueal, massagem cardíaca e administração de medicações. Em gestações múltiplas, cada recém-nascido deve ter uma equipe própria.
A sala de parto deve dispor de fonte de calor, oxigênio e ar comprimido, dispositivos para ventilação e monitorização, materiais para aspiração e intubação traqueal, além de medicamentos e insumos necessários para reanimação avançada.
Para prematuros, também são essenciais recursos adicionais para prevenção da hipotermia, como saco plástico de polietileno, touca e colchão térmico.
Avaliação inicial para reanimação do recém-nascido
Imediatamente após o nascimento, três perguntas devem ser respondidas:
- A idade gestacional é ≥34 semanas?
- O recém-nascido está respirando ou chorando?
- O tônus muscular é adequado?
Se a resposta for “sim” para todas as perguntas, não há indicação de reanimação neonatal.
Nesses casos, recomenda-se manter o recém-nascido junto à mãe, realizar o clampeamento do cordão umbilical (pelo menos 60 segundos) e incentivar o contato pele a pele e o início precoce da amamentação.
Caso a resposta seja “não” para qualquer uma das perguntas, o recém-nascido deve ser encaminhado para os passos iniciais da reanimação.
Nos prematuros, o planejamento da assistência deve começar antes do nascimento, incluindo estratégias para manutenção da temperatura corporal, manejo do cordão umbilical e definição prévia das funções de cada membro da equipe. A identificação de um líder e a comunicação efetiva entre os profissionais contribuem para uma reanimação mais segura e eficiente.
Leia também: Método Canguru e neurodesenvolvimento de prematuros – benefícios além da sobrevida neonatal




Passos iniciais da reanimação neonatal
Após o clampeamento do cordão umbilical, os recém-nascidos que necessitam de avaliação na mesa de reanimação devem receber os cuidados iniciais nos primeiros 30 segundos de vida.
Esses cuidados incluem:
- Prover calor e prevenir hipotermia;
- Posicionar a cabeça em leve extensão para manter a permeabilidade das vias aéreas;
- Secar o recém-nascido e promover estímulo tátil suave;
- Aspirar secreções apenas quando houver obstrução evidente das vias aéreas ou excesso de secreções.
Nos prematuros, medidas adicionais de proteção térmica são fundamentais, incluindo o uso de saco plástico de polietileno, touca e colchão térmico, conforme a idade gestacional e a condição clínica ao nascimento.
Após os cuidados iniciais, deve-se avaliar simultaneamente a frequência cardíaca e a respiração.
- Se a frequência cardíaca for ≥100 bpm e o recém-nascido apresentar respiração regular, seguem-se os cuidados de rotina.
- Já a presença de apneia, respiração irregular ou frequência cardíaca <100 bpm indica necessidade de ventilação com pressão positiva.
Cuidados iniciais da estabilização neonatal conforme idade gestacional:
- RN ≥ 34 semanas com boa vitalidade → clampeamento ≥ 60 s + contato pele a pele.
- RNPT 32–33⁶/⁷ semanas → pode permanecer pele a pele sob monitorização rigorosa.
- RNPT < 32 semanas → mesa de reanimação + medidas intensivas de prevenção de hipotermia.
Atualização da diretriz 2026: Recém-nascidos prematuros moderados (32⁰/⁷ a 33⁶/⁷ semanas) com boa vitalidade ao nascimento podem permanecer em contato pele a pele com os pais após o clampeamento tardio do cordão umbilical, desde que sejam monitorados continuamente e que a temperatura corporal seja mantida entre 36,5°C e 37,5°C.
Ventilação com pressão positiva na reanimação neonatal
A ventilação com pressão positiva (VPP) é a principal intervenção da reanimação neonatal. O início da ventilação deve ocorrer idealmente nos primeiros 60 segundos de vida, período conhecido como Golden Minute.
A VPP está indicada quando o recém-nascido apresenta apneia, respiração irregular ou frequência cardíaca inferior a 100 bpm após os cuidados iniciais.
A ventilação pode ser realizada com balão autoinflável ou ventilador manual em T, sendo este último o dispositivo preferencial segundo as recomendações mais recentes da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Durante a ventilação, é fundamental monitorar a frequência cardíaca, a expansibilidade torácica e a saturação pré-ductal. O principal indicador de ventilação efetiva é o aumento da frequência cardíaca, geralmente observado nos primeiros 15 a 30 segundos.
Em recém-nascidos com idade gestacional ≥34 semanas, recomenda-se iniciar a VPP com ar ambiente (FiO₂ de 21%).
Para aqueles com menos de 34 semanas, utiliza-se oxigênio suplementar com titulação guiada pela saturação pré-ductal medida no membro superior direito.
Saturação pré-ductal alvo nos primeiros 10 minutos de vida:
- 2 min → 65-70%
- 3 min → 70-75%
- 4 min → 75-80%
- 5 min → 80-85%
- 10 min → 85-95%
Importante: os valores de referência correspondem à saturação pré-ductal (membro superior direito) observada durante a transição fisiológica de recém-nascidos saudáveis nos primeiros minutos após o nascimento.
Se, após 30 segundos de VPP efetiva, a frequência cardíaca permanecer abaixo de 100 bpm, devem ser realizadas medidas corretivas para otimizar a ventilação.
Nos recém-nascidos ≥34 semanas e com peso estimado ≥2.000 g, a máscara laríngea pode ser considerada quando a ventilação por máscara facial não for eficaz.
Nos prematuros com menos de 34 semanas que apresentam respiração espontânea, porém com desconforto respiratório, recomenda-se suporte ventilatório com CPAP. Já na presença de apneia, respiração irregular ou frequência cardíaca inferior a 100 bpm, a conduta indicada é a ventilação com pressão positiva.
Reanimação neonatal passo a passo:




Este artigo resume os principais pontos da atualização. Para acessar o algoritmo de reanimação neonatal completo, incluindo intervenções avançadas, doses de medicamentos e tabelas de referência para sala de parto, consulte o conteúdo disponível no WeMEDS.
Referências:
Guinsburg R, Almeida MFB; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 2026. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-2

































