Surto de Ebola 2026: atualização epidemiológica e risco para o Brasil

Profissionais de saúde utilizando equipamentos de proteção individual durante resposta a surto de Ebola.

Surto de Ebola avança na África com centenas de casos confirmados. Entenda o papel do vírus Bundibugyo, o risco para o Brasil e as medidas de vigilância.

 

Surto de Ebola 2026: atualização epidemiológica

Em maio de 2026, foi identificado um novo surto de doença pelo vírus Ebola (DVE) na República Democrática do Congo (RDC).

As autoridades sanitárias do país declararam oficialmente o surto em 15 de maio e, desde então, o número de casos tem aumentado de forma expressiva, configurando um dos maiores surtos recentes de Ebola registrados na região.

De acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (África CDC), foram registrados 291 casos confirmados e 43 óbitos confirmados até o momento.

Além dos casos já confirmados laboratorialmente, um número significativo de pacientes permanece em investigação, aguardando testagem diagnóstica e confirmação definitiva da infecção. Até a presente atualização*, apenas dois pacientes tiveram alta oficialmente documentada pelas autoridades sanitárias.

  • República Democrática do Congo (RDC): 282 casos confirmados; 42 óbitos.
  • Uganda: 9 casos confirmados; 1 óbito.

*Dados atualizados em 31 de maio de 2026.

 

Vírus Bundibugyo: por que este surto preocupa os especialistas?

Nos últimos anos, múltiplos surtos de doença pelo vírus Ebola (DVE) foram registrados na África Central, particularmente na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda.

No surto atual, a transmissão permanece concentrada principalmente nas províncias de Kivu do Norte e Ituri, localizadas no nordeste da RDC.

O evento foi inicialmente detectado em maio de 2026, na província de Ituri, quando os primeiros casos foram identificados pelas autoridades sanitárias locais.

Uma das principais particularidades deste surto em relação às epidemias anteriores é o agente etiológico envolvido. As análises laboratoriais identificaram como causador o vírus Bundibugyo (Bundibugyo ebolavirus), uma espécie relativamente rara do gênero Ebolavirus.

Até o momento, são reconhecidas cinco espécies de ebolavírus associadas a surtos em humanos ou animais: o vírus Ebola (Zaire ebolavirus), o vírus Sudão (Sudan ebolavirus), o vírus Taï Forest (Taï Forest ebolavirus), o vírus Bundibugyo (Bundibugyo ebolavirus) e o vírus Reston (Reston ebolavirus). Dentre essas espécies, o vírus Reston é considerado patogênico apenas para animais, não estando associado à doença clínica em humanos.

representação gráfica do vírus Ebola

A identificação precoce do agente etiológico representou um desafio importante durante a fase inicial do surto

Como a espécie Bundibugyo é menos frequente, os sistemas de vigilância e os testes diagnósticos utilizados rotineiramente apresentaram limitações para sua detecção imediata, contribuindo para o atraso na confirmação dos primeiros casos.

Além disso, a disponibilidade de testes diagnósticos específicos para uso em campo permanece restrita em diversas áreas afetadas.

Outro fator que dificulta as estratégias de controle é a ausência de vacinas ou terapias antivirais aprovadas especificamente para infecções causadas pelo vírus Bundibugyo.

Embora vacinas e tratamentos direcionados ao Zaire ebolavirus (espécie responsável pela maioria dos grandes surtos de Ebola) estejam disponíveis, sua eficácia contra outras espécies do gênero ainda não foi estabelecida de forma conclusiva.

 

Doença pelo vírus Ebola: sintomas, transmissão e letalidade

O período de incubação da doença varia de 2 a 21 dias. Em geral, indivíduos infectados pelo Ebola não transmitem o vírus antes do início dos sintomas.

As manifestações clínicas iniciais costumam ser inespecíficas, incluindo febre, fadiga, cefaleia e mialgias, podendo se confundir com doenças endêmicas da região, especialmente a malária, o que dificulta o reconhecimento precoce dos casos e favorece a transmissão comunitária.

Dados de surtos anteriores causados pelo vírus Bundibugyo demonstram taxas de letalidade variando entre 30% e 50%.

 

Ebola no Brasil: há risco de casos confirmados?

Até o momento, o risco de introdução e disseminação da doença pelo vírus Ebola no Brasil é considerado baixo pelas autoridades de saúde pública.

Apesar disso, a vigilância epidemiológica permanece em alerta para a identificação precoce de casos suspeitos, especialmente entre viajantes provenientes de áreas com transmissão ativa.

Durante o atual surto, dois casos suspeitos foram notificados no país. Em ambos, os pacientes haviam retornado recentemente de regiões afetadas pela epidemia e apresentaram quadro clínico compatível com doença febril aguda após a chegada ao Brasil.

A infecção pelo vírus Ebola caracteriza-se por um espectro clínico que inclui febre, cefaleia, astenia, diarreia, vômitos, dor abdominal, anorexia, odinofagia e, em alguns casos, manifestações hemorrágicas. Entretanto, os sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser observados em diversas doenças infecciosas tropicais, o que exige investigação diagnóstica cuidadosa.

No caso investigado no município do Rio de Janeiro (RJ), os exames laboratoriais confirmaram o diagnóstico de malária, enquanto a infecção pelo vírus Ebola foi descartada.

Já no caso registrado em São Paulo (SP), a hipótese diagnóstica mais provável foi meningite meningocócica, com resultado negativo para Ebola após avaliação laboratorial.

Até a presente data, não há registro de casos autóctones ou importados confirmados de doença pelo vírus Ebola no Brasil.

Profissionais de saúde utilizando equipamentos de proteção individual durante resposta a surto de Ebola

Definição de caso suspeito, confirmado e descartado

  • Caso suspeito: indivíduo com histórico de permanência ou procedência, nos 21 dias anteriores ao início dos sintomas, de país ou área com transmissão ativa da doença pelo vírus Ebola (DVE), que apresente quadro febril agudo, podendo estar associado a manifestações como diarreia, vômitos ou sinais hemorrágicos, incluindo diarreia com sangue, gengivorragia, enterorragia, hemorragias internas, lesões purpúricas e hematúria.
  • Caso confirmado: caso suspeito com confirmação laboratorial da infecção pelo vírus por meio de teste molecular com resultado detectável para RNA viral, realizado por técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR) em laboratório de referência.
  • Caso descartado: caso suspeito que apresente dois resultados negativos para o vírus em testes moleculares por PCR, realizados em laboratório de referência designado pelo Ministério da Saúde, com intervalo mínimo de 48 horas entre as coletas das amostras.

 

Notificação compulsória e vigilância epidemiológica no Brasil

No Brasil, a doença pelo vírus Ebola integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória e requer notificação imediata.

Conforme a Portaria de Consolidação nº 4, de 28 de setembro de 2017, a comunicação do caso deve ser realizada pelo profissional de saúde ou pelo serviço responsável pelo primeiro atendimento, utilizando o meio mais rápido disponível.

  • Ressalta-se que a notificação deve ser realizada com base na suspeita clínica associada a critérios epidemiológicos compatíveis, como histórico de viagem, residência ou contato com casos suspeitos ou confirmados em áreas com transmissão ativa nos 21 dias anteriores ao início dos sintomas, não sendo necessária a confirmação laboratorial para o desencadeamento das ações de vigilância epidemiológica.

Todo caso suspeito deve ser notificado em até 24 horas após sua identificação às autoridades de saúde competentes, incluindo as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde, os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) estaduais e o CIEVS Nacional.

A notificação pode ser efetuada por meio do Disque Notifica (0800 644 6645), além dos canais eletrônicos disponibilizados pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS).

Os casos que atendam à definição de caso suspeito devem ser registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da ficha de notificação individual. Para fins de registro e codificação, deve ser utilizado o código A98.4 da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), correspondente à doença.

A notificação oportuna é fundamental para a adoção precoce das medidas de investigação epidemiológica, rastreamento de contatos, implementação de precauções de isolamento e coordenação das ações de resposta em saúde pública.

profissional de saúde utilizando computador para  notificar caso de ebola

Referências:

Ministério da Saúde. Ebola. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/ebola Acesso em: 01 jun 2026.

World Health Organization. Emergencies – Alert and response. Disponível em: https://www.who.int/emergencies/alert-and-response Acesso em: 01 jun 2026.

AfricaCDC. Ebola Virus Disease. Disponível em: https://africacdc.org/disease/ebola-virus-disease/ Acesso em: 01 jun 2026.

Nierenberg, Amelia; Livni, Ephrat; Chutel, Lynsey. What to Know About the Ebola Outbreak. The New York Times, 17 mai 2026 (atualizado em 01 jun 2026). Acesso em: 01 jun 2026.

Victor, Marcello. Fiocruz descarta ebola em paciente internado no Rio. g1 Rio, 31 mai 2026. Acesso em: 01 jun 2026.

 

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