Hepatotoxicidade por cúrcuma: por que a Anvisa emitiu alerta sobre curcumina

suplemento de cúrcuma oferece risco de hepatotoxicidade por cúrcuma

A Anvisa atualizou as regras para suplementos com curcumina após relatos internacionais de possível hepatotoxicidade por cúrcuma. O alerta se concentra em extratos concentrados e formulações com alta biodisponibilidade, não no uso culinário habitual da especiaria.

Anvisa alerta para hepatotoxicidade por cúrcuma e curcumina

Com base na avaliação de dados internacionais e relatos de eventos adversos, foi identificado um possível risco de hepatotoxicidade associado ao uso oral de medicamentos e suplementos contendo extratos de Curcuma longa, conhecida popularmente como cúrcuma ou açafrão-da-terra.

No Brasil, existem medicamentos e suplementos com cúrcuma regularizados com extratos concentrados da planta. Atualmente, dois medicamentos orais registrados na Anvisa contêm Curcuma longa: Motore® e Cumiah®.

 

Hepatotoxicidade por curcumina: qual o mecanismo provável?

A principal preocupação envolve o uso de tecnologias ou combinações que aumentam a biodisponibilidade da curcumina, substância ativa da cúrcuma.

Essas estratégias podem alterar o perfil de segurança considerado na avaliação regulatória, especialmente em indivíduos mais suscetíveis a efeitos adversos.

Apesar do alerta, não há evidências de risco associado ao consumo da cúrcuma como alimento (tempero). Os casos de efeitos adversos descritos estão relacionados, principalmente, ao uso de extratos concentrados e suplementos com curcumina.

cápsulas de suplemento com cúrcuma, que oferecem potencial risco de hepatotoxicidade por cúrcuma

Lesão hepática associada à curcumina: dados de farmacovigilância

Diversas autoridades internacionais vêm investigando o possível risco hepático da curcumina, especialmente em suplementos.

 

Canadá: suplemento de cúrcuma e lesão hepática

A Health Canada analisou casos raros, porém potencialmente graves, de hepatotoxicidade por cúrcuma. Embora muitos pacientes apresentassem comorbidades ou uso de outros medicamentos, não foi possível descartar a relação com a curcumina.

Os casos sugerem um padrão de reação idiossincrásica que, em situações mais graves, pode evoluir para insuficiência hepática e até óbito.

Como resposta, foram incluídos alertas obrigatórios nos rótulos.

 

França: curcumina e aumento do risco com maior absorção

A ANSES identificou dezenas de relatos de efeitos adversos, incluindo hepatite, relacionados ao uso de suplementos com curcumina.

O destaque foi para formulações que aumentam a absorção, como associação com piperina, formas micelares, nanopartículas e sistemas encapsulados.

Essas tecnologias podem potencializar os efeitos e também os riscos dos suplementos.

 

Alemanha: riscos da cúrcuma em suplementos com alta biodisponibilidade

O Instituto BfR concluiu que suplementos com curcumina podem representar risco, especialmente quando combinados com substâncias que aumentam sua biodisponibilidade.

 

Itália: restrições ao uso de suplementos com curcumina

O país reforçou advertências obrigatórias e restringiu o uso em grupos de risco, como pessoas com doenças hepáticas ou biliares, além de gestantes e lactantes.

 

Austrália: casos graves de hepatotoxicidade por cúrcuma

A TGA relatou casos de danos hepáticos associados à cúrcuma, incluindo situações graves e pelo menos um óbito. O risco foi considerado raro, porém relevante, principalmente em produtos com alta concentração ou absorção aumentada.

 

Riscos da cúrcuma: o que os estudos mostram

De forma geral, as evidências apontam que:

  • Os casos de hepatotoxicidade são raros, mas podem ser graves
  • O padrão sugere reação idiossincrática
  • O risco está associado a suplementos e extratos concentrados, não ao uso culinário
  • Formulações com maior absorção aumentam a preocupação
  • Pessoas com doenças hepáticas ou em uso de certos medicamentos têm maior risco

Quem utiliza suplementos de cúrcuma deve ficar atento a sintomas como icterícia, urina escura, náuseas e vômitos, cansaço intenso, perda de apetite e dor abdominal. Em casos raros, pode haver evolução para insuficiência hepática.

👉 Na presença de elevação de transaminases ou icterícia em paciente usando suplemento de cúrcuma, considerar suspensão imediata e investigação de DILI.

paciente com dor abdominal, possível sintoma de hepatotoxicidade por cúrcuma

Regulamentação da cúrcuma no Brasil: o que a Anvisa permite

No Brasil, os suplementos alimentares seguem regras específicas da Anvisa. No caso da cúrcuma:

  • A curcumina tem limite máximo de consumo diário
  • Não são permitidas alegações terapêuticas
  • A piperina (usada para aumentar absorção) não é autorizada
  • Tecnologias que aumentam a biodisponibilidade ainda não foram aprovadas

Isso significa que suplementos com cúrcuma são considerados seguros apenas quando usados dentro das regras estabelecidas.

Até o momento, há poucos relatos de eventos adversos no país, e nenhum caso confirmado de hepatotoxicidade por cúrcuma em suplementos notificados.

 

Quais medidas a Anvisa tomou sobre suplementos de cúrcuma

A Anvisa adotou medidas para reforçar a segurança no uso de produtos contendo cúrcuma e curcumina.

No caso dos medicamentos, foi determinada a inclusão de alertas sobre possível risco hepático nas bulas.

Já em relação aos suplementos alimentares, a agência propôs advertências obrigatórias nos rótulos e iniciou a reavaliação do uso da curcumina dentro da regulamentação vigente.

 

Como usar cúrcuma com segurança

O uso de cúrcuma e suplementos com curcumina deve ocorrer com cautela e dentro das recomendações regulatórias.

Para profissionais de saúde, é importante orientar pacientes sobre sinais sugestivos de lesão hepática, como icterícia, urina escura, náuseas persistentes ou dor abdominal, além de considerar possíveis interações medicamentosas.

Para fabricantes, a recomendação é respeitar os limites estabelecidos para curcumina e evitar tecnologias ou associações que aumentem excessivamente a absorção, o que pode modificar o perfil de segurança do produto.

Já para o público em geral, é fundamental ler rótulos e bulas com atenção, evitar a automedicação com suplementos e buscar orientação médica antes do uso.

Também não se recomenda o consumo por gestantes, lactantes ou menores de 18 anos. Além disso, combinações “caseiras” voltadas a aumentar a absorção da curcumina devem ser evitadas.

cúrcuma como tempero, que não oferece riscos de hepatotoxicidade por cúrcuma

A cúrcuma continua segura? Interpretação clínica atual

Embora rara, a hepatotoxicidade por cúrcuma tornou-se tema regulatório relevante, sobretudo em suplementos concentrados.

Os dados atuais mostram que o risco está relacionado ao uso de suplementos de cúrcuma com alta concentração de curcumina, especialmente quando há aumento da absorção.

As atualizações da Anvisa reforçam a necessidade de uso consciente, com atenção às doses, à qualidade dos produtos e ao perfil individual de cada pessoa.

Referências:

Ajitkumar A, Mohan G, Ghose M, Yarrarapu S, Afiniwala S. Drug-induced liver injury secondary to turmeric use. EJCRIM 2023;10:doi:10.12890/2023_003845.

ANVISA. Anvisa atualiza regras para suplementos que contêm cúrcuma. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-atualiza-regras-para-suplementos-que-contem-curcuma.

ANVISA. Alerta 04/2026 (Farmacovigilância/Nutrivigilância): Risco de ocorrência de danos hepáticos após o uso oral de medicamentos e suplementos alimentares contendo extratos de Curcuma longa (cúrcuma).

 

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