Doenças transmitidas pela água: por que o risco aumenta na mudança de estação?

Rua alagada após chuva intensa em área urbana, com risco de doenças transmitidas pela água e leptospirose

O outono de 2026 no Brasil começa amanhã — mas ainda sem cara de outono: temperaturas acima da média, calor persistente e frio tardio, que só deve se estabelecer a partir de maio. Em boa parte do país, a sensação de verão deve se prolongar nas primeiras semanas da estação.

Esse padrão não impacta apenas o conforto térmico: ele aumenta o risco de doenças transmitidas pela água. Calor, enchentes e escassez hídrica alteram o ambiente e o comportamento humano, criando condições ideais para a disseminação de patógenos.

Doenças transmitidas pela água e mudanças climáticas: qual a relação?

De acordo com evidências científicas recentes, o aumento da temperatura global, a intensificação de eventos extremos (como chuvas intensas, enchentes, secas prolongadas e tempestades) e a elevação do nível do mar estão alterando o ciclo hidrológico e criando condições favoráveis para a disseminação de patógenos de origem hídrica.

Desde a Revolução Industrial, a temperatura média do planeta aumentou mais de 1 °C, com os oceanos absorvendo a maior parte desse calor excedente.

Esse aquecimento intensifica a evaporação, eleva o vapor de água na atmosfera e modifica os padrões de precipitação, resultando tanto em chuvas extremas quanto em períodos mais frequentes de seca.

Assim, há impacto das mudanças climáticas na saúde, especialmente no que diz respeito às doenças transmitidas pela água sensíveis ao clima.

rua alagada com pessoa andando de barco, com risco de doenças transmitidas pela água e leptospirose

Eventos extremos aumentam o risco de doenças transmitidas pela água?

A intensificação do ciclo hidrológico afeta patógenos transmitidos pela água de maneiras distintas.

Alguns microrganismos, como Salmonella e espécies de Vibrio, conseguem se multiplicar no ambiente externo, enquanto outros, como Cryptosporidium, Campylobacter e norovírus, dependem mais diretamente do hospedeiro humano. Assim, variações climáticas podem aumentar ou reduzir a transmissão conforme as características biológicas de cada patógeno.

O aumento da temperatura ambiente está associado à maior incidência de infecções diarreicas bacterianas, especialmente nos meses mais quentes.

Temperaturas elevadas favorecem a sobrevivência e a replicação de bactérias, além de influenciarem comportamentos humanos que aumentam a exposição, como o maior uso recreativo de águas naturais.

Embora o calor possa melhorar alguns processos de tratamento da água, episódios de calor extremo podem comprometer a cloração, aumentar a turbidez e reduzir a eficácia da purificação.

 

Doenças após enchentes: quais os riscos?

Eventos de precipitação extrema e enchentes representam um dos principais fatores de risco para surtos de doenças transmitidas pela água.

Chuvas intensas mobilizam sedimentos contaminados com fezes humanas e animais, transportando patógenos para rios, lagos e sistemas de abastecimento. Em áreas urbanas, o escoamento superficial de ruas e superfícies impermeáveis pode sobrecarregar sistemas de drenagem e levar contaminantes diretamente para corpos d’água.

Esses efeitos são observados tanto em países de alta renda quanto em regiões com infraestrutura precária de saneamento. Sistemas de esgoto e drenagem geralmente não são projetados para lidar com volumes excepcionais de chuva, o que aumenta o risco de exposição populacional a agentes infecciosos.

Escoamento de água contaminada após chuva intensa, ilustrando a disseminação de patógenos em doenças transmitidas pela água

Seca também aumenta o risco de doenças transmitidas pela água?

No extremo oposto, as secas prolongadas também elevam o risco de doenças transmitidas pela água.

A redução do volume de rios e aquíferos concentra patógenos, enquanto a escassez de água dificulta práticas básicas de higiene, como a lavagem das mãos. Estudos indicam aumento do risco de diarreia infantil em períodos de seca, especialmente em países de baixa e média renda.

Além disso, a diminuição da pressão nas redes de abastecimento durante crises hídricas pode permitir a entrada de contaminantes fecais em tubulações danificadas, ampliando o risco de surtos em larga escala.

 

Patógenos de destaque e impacto global

Entre os exemplos mais relevantes estão as bactérias do gênero Vibrio, que prosperam em águas quentes e salobras, e cuja distribuição geográfica tem se expandido com o aquecimento dos oceanos. A cólera, causada por Vibrio cholerae, continua sendo um grave problema em regiões com acesso limitado a água potável e saneamento.

Outros patógenos importantes incluem o Cryptosporidium, resistente a variações ambientais, e a Leptospira, associada a enchentes urbanas e responsável por surtos de leptospirose, inclusive no Brasil.

Ilustração de bactérias do gênero Vibrio associadas a doenças transmitidas pela água em ambientes aquáticos

Por que o impacto é maior em populações vulneráveis?

As mudanças climáticas tendem a ampliar desigualdades já existentes, afetando de forma desproporcional populações que vivem em assentamentos precários, sem acesso adequado à água e ao saneamento.

 Diante desse cenário, estratégias de adaptação em saúde pública tornam-se essenciais, incluindo sistemas de alerta precoce, vigilância ambiental, monitoramento de águas residuais e integração entre dados climáticos e epidemiológicos.

Leia também: Emergência em Saúde Pública – como reconhecer e agir rapidamente

 

Conclusão

O aumento das doenças transmitidas pela água associadas às mudanças climáticas representa um desafio crescente para a saúde global.

Mitigar emissões de gases de efeito estufa, fortalecer sistemas de água e saneamento e investir em vigilância e prevenção são medidas fundamentais para reduzir riscos futuros.

Garantir acesso seguro e equitativo à água permanece uma das estratégias mais eficazes para proteger a saúde da população em um clima em rápida transformação.

 

Referências:

Semenza, J. C. et al. Waterborne Diseases That Are Sensitive to Climate Variability and Climate Change. N Engl J Med 389;23 nejm.org December 7, 2023.

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