Febre do Nilo Ocidental: guia completo para diagnóstico e manejo clínico

mosquito culex, transmissor do vírus da Febre do Nilo Ocidental

Febre do Nilo Ocidental: uma arbovirose transmitida pelo mosquito Culex.

A infecção pelo vírus do Nilo Ocidental (VNO) é uma arbovirose de relevância crescente para a prática médica devido ao seu potencial de causar doença neuroinvasiva grave, incluindo meningite, encefalite e paralisia flácida aguda.

Transmitido principalmente por mosquitos do gênero Culex, o vírus provoca infecção assintomática na maioria dos indivíduos, mas pode evoluir com complicações neurológicas potencialmente fatais, especialmente em idosos e imunossuprimidos.

Como não há tratamento antiviral específico aprovado, o reconhecimento precoce e o suporte clínico adequado permanecem fundamentais para o manejo dos casos.

Resumo prático sobre a febre do nilo ocidental

 

Casos de Febre do Nilo Ocidental no Brasil e no Mundo

A incidência real da infecção pelo vírus do Nilo Ocidental é provavelmente subestimada, uma vez que cerca de 80% dos indivíduos infectados permanecem assintomáticos e muitos dos casos sintomáticos apresentam apenas manifestações inespecíficas, semelhantes a uma síndrome gripal.

O primeiro caso de infecção pelo VNO foi descrito em 1937, em Uganda. O vírus expandiu sua distribuição geográfica e atualmente circula em diversas regiões da África, Europa, Ásia, América do Norte, Austrália e Oriente Médio.

No Brasil, o primeiro caso humano confirmado foi registrado em 2014. Desde então, casos esporádicos têm sido identificados em diferentes estados, demonstrando a circulação do vírus no território nacional.

Em 2026, já foram confirmados quatro casos de febre do Nilo Ocidental, sendo dois no estado de São Paulo e dois em Santa Catarina.

 

O que é o vírus do Nilo Ocidental? Virologia e classificação

O vírus do Nilo Ocidental, também conhecido pela sigla WNV (West Nile virus), é um arbovírus pertencente à família Flaviviridae e ao gênero Flavivirus, o mesmo grupo que inclui os vírus da dengue, zika e febre amarela.

Trata-se de um vírus de RNA de fita simples, envelopado, com aproximadamente 50 nm de diâmetro. Como outros arbovírus, sua transmissão ocorre principalmente por artrópodes hematófagos, sendo os mosquitos do gênero Culex os principais vetores envolvidos na disseminação da infecção.

Leia também: Arboviroses no Brasil – Dengue, Zika e Chikungunya

microscopia eletrônica de transmissão mostrando vírus do Nilo Ocidental (WNV).
Microscopia eletrônica de transmissão mostrando vírus do Nilo Ocidental (WNV). Imagem de domínio público.

Como ocorre a infecção pelo vírus do Nilo Ocidental

Embora rara, a transmissão viral também pode ocorrer por transplante de órgãos, transfusão de sangue e transmissão vertical. Entretanto, a principal forma de infecção é a picada de mosquitos infectados, com participação de dois ciclos epidemiológicos: urbano e silvestre.

 

Ciclo urbano

O VNO é um arbovírus transmitido por artrópodes hematófagos. Nesse contexto, os mosquitos do gênero Culex representam os principais vetores da doença. Apenas as fêmeas realizam hematofagia, necessária para a produção e maturação dos ovos, tornando-se responsáveis pela transmissão viral.

 

Ciclo silvestre

O ciclo silvestre ocorre principalmente em ambientes florestais, nos quais aves silvestres atuam como os principais reservatórios e amplificadores do vírus. Outros hospedeiros incluem equinos, primatas não humanos e diversos mamíferos.

Os seres humanos são considerados hospedeiros acidentais e, em geral, não desempenham papel relevante na manutenção da cadeia de transmissão.

No homem, a viremia costuma durar aproximadamente sete dias. O período em que um indivíduo infectado pode transmitir o vírus para mosquitos suscetíveis estende-se de cerca de 48 horas antes do início dos sintomas até aproximadamente cinco dias após o seu aparecimento.

Nos mosquitos, após a ingestão de sangue infectado, o vírus se replica inicialmente no intestino médio e posteriormente alcança as glândulas salivares, tornando o vetor capaz de transmitir a infecção após um período de incubação extrínseca de aproximadamente 8 a 12 dias. Uma vez infectado, o mosquito permanece potencialmente transmissor durante toda a sua vida.

picada de mosquito, representando a transmissão do vírus do Nilo Ocidental

Após a inoculação pela picada do mosquito, a infecção evolui em três etapas principais:

Fase 1 – Replicação local: ocorre principalmente em células dendríticas dérmicas, queratinócitos e células de Langerhans no local da inoculação.

Fase 2 – Disseminação sistêmica: o vírus alcança linfonodos regionais, corrente sanguínea e órgãos linfoides, como o baço.

Fase 3 – Neuroinvasão: em uma pequena parcela dos pacientes, o vírus apresenta tropismo pelo sistema nervoso central e pode atravessar a barreira hematoencefálica por diferentes mecanismos, incluindo transporte através do endotélio vascular ou migração de células infectadas.

A infecção do SNC desencadeia resposta inflamatória intensa, resultando em lesão neuronal e nas manifestações neurológicas características da doença neuroinvasiva pelo vírus do Nilo Ocidental.

 

Sintomas da Febre do Nilo Ocidental

Cerca de 80% das infecções são assintomáticas ou causam apenas sintomas leves.

Entre os pacientes sintomáticos, a apresentação mais comum é uma síndrome febril aguda caracterizada por febre, cefaleia, fadiga, náuseas, vômitos, mialgia e dor retro-orbitária. Aproximadamente metade dos pacientes desenvolve exantema maculopapular, geralmente envolvendo tronco e membros.

Além das manifestações sistêmicas, podem ocorrer alterações oftalmológicas, incluindo coriorretinite, vitreíte e hemorragias retinianas, que podem contribuir para sintomas visuais durante a infecção.

Embora a maioria dos casos evolua de forma benigna, menos de 1% dos indivíduos infectados desenvolvem a doença neuroinvasiva, a forma mais grave da infecção. Nesses casos, podem ocorrer meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda, especialmente em idosos, imunossuprimidos e pacientes com comorbidades.

O prognóstico da febre do Nilo Ocidental costuma ser favorável, com resolução espontânea dos sintomas em poucos dias, geralmente em até 10 dias após o início do quadro.

Entretanto, fadiga, déficits cognitivos, fraqueza muscular e outras manifestações neurológicas podem persistir por meses ou até anos em alguns pacientes. Nas formas neuroinvasivas, a mortalidade pode atingir aproximadamente 10%, e sequelas neurológicas permanentes não são incomuns.

 

Diagnóstico da Febre do Nilo Ocidental: avaliação clínica e exames laboratoriais

O diagnóstico da febre do Nilo Ocidental baseia-se na combinação de critérios clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. Como a maioria das infecções é assintomática, a suspeita diagnóstica depende da identificação de fatores de risco e de manifestações clínicas compatíveis.

 

Avaliação clínica e epidemiológica

A investigação deve incluir anamnese detalhada e exame físico completo. Deve-se suspeitar de infecção pelo vírus em pacientes com quadro febril agudo associado a cefaleia, mialgia, náuseas, vômitos ou exantema maculopapular.

É importante avaliar histórico de residência ou viagem para áreas com circulação do vírus, exposição a ambientes com elevada densidade de mosquitos e ausência de medidas de proteção contra picadas.

A presença de sinais neurológicos, como alteração do nível de consciência, meningismo ou déficit motor, deve levantar suspeita de doença neuroinvasiva.

Paciente sendo avaliado quanto a suspeita de infecção por vírus do Nilo Ocidental
Paciente sendo avaliado quanto à suspeita de infecção pelo vírus do Nilo Ocidental. Foto de 2014 em Picos, Piauí, Brasil. Imagem de domínio público.

Exames laboratoriais

A confirmação diagnóstica é realizada por métodos moleculares ou sorológicos, conforme a fase da infecção.

Até o 5º dia de sintomas (fase aguda):

  • RT-qPCR para detecção do RNA viral em soro ou líquido cefalorraquidiano (LCR);
  • Isolamento viral em cultura celular, quando disponível.

Após o 5º dia de sintomas:

  • Sorologia por ELISA para detecção de anticorpos IgM e IgG em soro e/ou LCR;
  • Testes confirmatórios adicionais podem ser necessários em regiões onde circulam outros flavivírus, devido à possibilidade de reações cruzadas.

 

Avaliação neurológica

Nos casos com suspeita de acometimento do sistema nervoso central, exames complementares podem auxiliar na investigação e exclusão de diagnósticos diferenciais.

  • Ressonância magnética de encéfalo;
  • Análise do líquido cefalorraquidiano;
  • Eletroencefalograma (EEG), especialmente em pacientes com encefalite ou alteração do estado mental.

⚠️ A febre do Nilo Ocidental é uma doença de notificação compulsória, e os casos suspeitos ou confirmados devem ser comunicados às autoridades de vigilância em saúde.

 

Tratamento da febre do Nilo Ocidental: manejo ambulatorial e suporte intensivo

A febre do Nilo Ocidental é uma doença geralmente autolimitada e, até o momento, não existe tratamento antiviral específico aprovado para a infecção viral. Dessa forma, o manejo é baseado principalmente em medidas de suporte clínico.

Casos leves

A maioria dos pacientes apresenta quadro leve e pode ser tratada em ambiente ambulatorial. As principais medidas recomendadas incluem:

  • Repouso;
  • Hidratação adequada, preferencialmente por via oral;
  • Analgésicos e antitérmicos para controle da dor e da febre;
  • Tratamento sintomático para náuseas, vômitos e outros sintomas associados;
  • Orientação quanto aos sinais de alerta e necessidade de reavaliação médica em caso de piora clínica.

A hidratação adequada é considerada uma das principais medidas de suporte durante a fase aguda da doença, devendo ser mantida durante todo o período febril e nas primeiras 24 a 48 horas após a resolução da febre.

 

Casos graves e doença neuroinvasiva

Pacientes com doença neuroinvasiva pelo vírus do Nilo Ocidental geralmente necessitam de internação hospitalar e, frequentemente, de cuidados em unidade de terapia intensiva (UTI).

O tratamento é direcionado para o suporte das complicações associadas, podendo incluir:

  • Hidratação intravenosa;
  • Correção de distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-base;
  • Suporte hemodinâmico para hipotensão ou choque;
  • Manejo da insuficiência respiratória;
  • Tratamento da insuficiência renal aguda, incluindo diálise quando indicada;
  • Controle de crises convulsivas;
  • Prevenção e tratamento de infecções secundárias.

Até o momento, estudos clínicos não demonstraram benefício consistente com antivirais como ribavirina ou aciclovir, razão pela qual esses medicamentos não são recomendados para o tratamento rotineiro da infecção.

A alta hospitalar pode ser considerada após estabilização clínica, melhora dos sintomas, ausência de novas manifestações neurológicas e resolução das alterações laboratoriais relevantes.

 

Como prevenir a febre do Nilo Ocidental

A prevenção da febre do Nilo Ocidental baseia-se principalmente na redução da exposição aos mosquitos vetores, especialmente aqueles do gênero Culex, responsáveis pela transmissão da infecção em áreas urbanas e rurais.

Como não existe vacina aprovada para uso humano, as medidas de proteção individual e o controle vetorial permanecem como as principais estratégias de prevenção.

As medidas recomendadas incluem:

  • Uso de repelentes registrados pelos órgãos regulatórios;
  • Utilização de roupas de mangas compridas e calças em áreas com alta infestação de mosquitos;
  • Instalação de telas em portas e janelas;
  • Uso de mosquiteiros, especialmente em regiões endêmicas;
  • Evitar exposição ao ar livre durante os períodos de maior atividade dos mosquitos, como o entardecer e o amanhecer;
  • Eliminação de recipientes com água parada, reduzindo potenciais criadouros.

Além das medidas individuais, a vigilância epidemiológica e o monitoramento de aves, equinos e mosquitos desempenham papel fundamental na detecção precoce da circulação viral e na implementação de ações de controle.

Embora a transmissão por transfusão sanguínea, por transplante de órgãos e por via vertical seja rara, protocolos de triagem e vigilância em bancos de sangue e serviços de transplante contribuem para reduzir esse risco.

⚠️ Em pacientes com suspeita ou confirmação de infecção, o uso contínuo de medidas de proteção contra picadas de mosquitos durante o período de viremia pode ajudar a interromper a cadeia de transmissão local do vírus.

mulher passando repelente para prevenção da infecção por virus do nilo ocidental

Referências:

BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Febre do Nilo Ocidental. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/f/febre-do-nilo-ocidental  Acessado em 26/8/2026.

Gould CV, Staples JE, Guagliardo SAJ, et al. West Nile Virus: A Review. JAMA. 2025;334(7):618–628. doi:10.1001/jama.2025.8737

Clark, M. B., & Schaefer, T. J. (2023). West Nile Virus. In StatPearls. StatPearls Publishing.

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