

Quem atende gestantes sabe que o condiloma acuminado não é raro no pré-natal.
O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais prevalente no mundo, e uma metanálise publicada em 2023 com mais de 144 estudos estimou que cerca de 30% das gestantes têm HPV cervicovaginal detectável.
Desse universo, uma parcela expressiva desenvolve condilomatose clínica, manifestação causada principalmente pelos subtipos 6 e 11 do HPV (os principais subtipos de baixo risco oncogênico).
E é justamente essa paciente, gestante com condilomatose, que chega ao consultório com dúvidas, angústia e uma pergunta quase certa: “preciso fazer cesariana?”
Neste texto, vamos percorrer os pontos essenciais do manejo da condilomatose na gestação: por que as lesões se comportam de forma diferente na gravidez, como fazer o diagnóstico com segurança, quais tratamentos são aceitáveis em cada trimestre e, claro, como definir a via de parto com base em evidências.
A gravidez muda o comportamento das lesões
Uma das primeiras coisas que precisamos ter em mente é que as lesões por HPV tendem a crescer durante a gestação. Isso não é por acaso, tem uma lógica biológica bem estabelecida.
Para tolerar o concepto imunologicamente diferente, o organismo materno promove uma imunossupressão fisiológica. Esse ajuste envolve, entre outros mecanismos, o aumento das células T regulatórias e a redução da resposta citotóxica mediada por CD8+. Esse mesmo ambiente que protege o feto acaba favorecendo a replicação viral do HPV.
Soma-se a isso o efeito hormonal com níveis elevados de estrôgenio e progesterona que estimulam diretamente a expressão de genes do ciclo viral. O resultado clínico é o que vemos na prática: lesões que a paciente nem sabia que tinha surgem ou crescem rapidamente.
A boa notícia é que esse processo tende a reverter no puerpério. Com a restauração da imunidade materna e a queda hormonal, muitas lesões regridem nas primeiras semanas após o parto.


Diagnóstico: confie nos olhos
O condiloma acuminado tem apresentação típica: lesões verrucosas, papilíferas, vegetações com aspecto de “couve-flor”, coloração rosada a acinzentada, de superfície irregular, que podem ser únicas ou múltiplas, pediculadas ou sésseis. Vulva, períneo, região perianal, vagina e colo são os sítios mais comuns em gestantes.
O diagnóstico é clínico. Não precisamos de colposcopia ou vulvoscopia com ácido acético para rastrear lesões subclínicas na gestação, pois a taxa de falsos-positivos é alta e leva a intervenções desnecessárias.
A biópsia fica reservada para situações específicas: lesão de aspecto atípico, crescimento muito rápido, ausência de resposta ao tratamento esperado ou suspeita de malignidade.
Vale lembrar que, nos casos de lesões volumosas e localmente invasivas, deve-se pensar no tumor de Buschke-Löwenstein – uma forma rara de condilomatose gigante, causada também pelos subtipos 6 e 11, que exige biópsia para excluir carcinoma verrucoso.
Tratamento da condilomatose na gestação: o que pode e o que não pode
Tratar o condiloma durante a gravidez é recomendado.
O objetivo do tratamento nesse cenário é reduzir a carga lesional diminuindo o risco de transmissão perinatal, minimizando o potencial de obstrução do canal de parto e evitando sangramentos durante o trabalho de parto.
As opções com bom perfil de segurança gestacional incluem:
- Ácido tricloroacético (ATA) a 80–90%: é a opção mais acessível, pode ser usada em consultório em qualquer trimestre e tem bom perfil de segurança. Geralmente é usado como primeira escolha para lesões pequenas e moderadas.
- Eletrocirurgia/eletrocauterização: eficaz para lesões maiores ou pediculadas, com boa hemostasia.
- Crioterapia: segura em todos os trimestres, especialmente útil em lesões cervicais.
- Laser CO₂: eficaz para lesões extensas; exige infraestrutura e treinamento específicos.
- Exérese cirúrgica: indicada quando há volume lesional importante.
A podofilina, podofilotoxina e 5-fluorouracil são contraindicados na gestação. O risco teratogênico, a absorção sistêmica e relatos de neuropatia fetal e óbito afastam qualquer possibilidade de uso na gestação.
Imiquimode também não entra na lista de rotina, dado o perfil de segurança ainda insuficiente para o período gestacional.


Via de parto para gestante com condilomatose: nem sempre é cesariana
Esse é o ponto que mais gera dúvida, e também o que mais concentra equívocos na prática. A resposta é direta: a presença de condiloma acuminado, por si só, não indica cesariana.
A decisão deve ser individualizada.
A cesariana está indicada quando há obstrução real do canal de parto pelas lesões ou quando existe risco concreto de sangramento intenso durante o parto vaginal. Fora desses cenários, o parto vaginal é viável e não deve ser descartado pelo simples fato de a paciente ter condilomatose.
Papilomatose Laríngea Recorrente Juvenil (PLRJ)
A grande preocupação é com o acometimento do recém-nascido pela papilomatose laríngea recorrente juvenil (PLRJ). Essa é uma preocupação válida, mas precisa ser colocada em perspectiva real.
A PLRJ, também causada pelos subtipos 6 e 11 do vírus HPV, tem incidência estimada de apenas 0,02 a 0,04 por 100.000 crianças, ou seja, é muito rara. E, um ponto crucial, a cesariana não elimina totalmente esse risco.
A transmissão do HPV pode acontecer por via transplacentária, ascendente ou mesmo pós-natal, e há casos documentados de PLRJ em crianças nascidas por cesárea.
A orientação da FEBRASGO é clara nesse sentido: a via de parto deve ser definida por critérios obstétricos objetivos, e a cesariana profilática para prevenção da PLRJ não é recomendada. O que se espera do médico é um aconselhamento honesto, contextualizado e baseado em evidências.
Puerpério: não encerrar o caso na alta
O pós-parto é um período subestimado no contexto do HPV. Com a recuperação imunológica e a redução dos níveis hormonais, boa parte das lesões regride espontaneamente nas primeiras semanas.
Mas não se pode contar com isso: cerca de 10% das pacientes terão recorrência tardia, o que torna o seguimento indispensável.
O puerpério é também uma janela de oportunidade para a vacinação.
A vacina contra HPV é segura durante a amamentação, respaldada por evidências sólidas e pelas principais sociedades médicas. Oferecer ou completar o esquema vacinal nesse momento é prática recomendada.


Considerações finais
Manejar a condilomatose na gestação vai muito além de escolher o tratamento certo. Envolve compreender a biologia da infecção nesse contexto específico, saber o que é seguro oferecer à paciente, ter critérios claros para a via de parto e, sobretudo, conduzir o aconselhamento com transparência.
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Leia também:
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Rastreamento do câncer do colo do útero: o que muda com o teste de DNA-HPV
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Referências:
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Infecção pelo papilomavírus humano na gravidez. Femina. 2025;53(3):206-12.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Rastreamento, diagnóstico e conduta nas lesões HPV-induzidas. Position Statement. Março, 2021.
Ardekani A, Sepidarkish M, Mollalo A, et al. Worldwide prevalence of human papillomavirus among pregnant women: A systematic review and meta-analysis. Rev Med Virol. 2023;33(1):e2374.
Nantel É, Mayrand MH, Audibert F, et al. Association between the Mode of Delivery and Vertical Transmission of Human Papillomavirus. Viruses. 2024;16(2):303.

































