Herança do Trauma: Evidências de Três Gerações de Refugiados Sírios

A herança do trauma materno pode influenciar os resultados de saúde de bebês e adultos, afetando até gerações futuras por meio de modificações epigenéticas, como a metilação do DNA (DNAm).

Para investigar esse fenômeno, um grupo de pesquisa analisou as assinaturas de DNAm relacionadas à violência de guerra em três gerações de refugiados sírios. O estudo comparou famílias nas quais tanto a avó grávida quanto a mãe grávida foram expostas à violência, com um grupo controle que não passou por essa experiência traumática. Os resultados destacam como a herança do trauma pode impactar a saúde ao longo das gerações.

 

Estressores maternos podem impactar o feto em desenvolvimento

Estressores maternos conhecidos por impactar o feto em desenvolvimento incluem deficiências nutricionais e exposição a toxinas, bem como estressores psicossociais – ansiedade e, potencialmente, exposição à violência e trauma.

Há uma forte associação entre baixo peso ao nascer e condições adversas de vida, com aumento do risco de doença cardiovascular na vida adulta. O feto em desenvolvimento é caracterizado por alta plasticidade fenotípica e utiliza pistas ambientais para determinar um fenótipo ideal para sobreviver ao ambiente pós-natal.

No entanto, a adaptação baseada em sinais intrauterinos pode selecionar um fenótipo que é, em última análise, mal adaptativo na vida adulta, aumentando assim o risco de certas doenças.

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O papel das alterações epigenéticas no trauma

Os efeitos dos estressores psicossociais e traumas são transmitidos da mãe para a prole por meio de alterações celulares nos eixos hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) materno e fetal, além de alterações concomitantes no metabolismo dos glicocorticoides. Entretanto, o mecanismo molecular subjacente que codifica e preserva as informações do trauma por décadas até a idade adulta não é bem compreendido.

O impacto do estresse psicossocial e do trauma nas gerações futuras se dá através de mecanismos epigenéticos. Especificamente, modificações epigenéticas ambientalmente sensíveis podem ter evoluído em locais selecionados no epigenoma humano para fornecer uma resposta rápida e de curto prazo aos estressores ambientais em comparação com o genoma de evolução mais lenta.

Além disso, um subconjunto dessas modificações epigenéticas pode ter evoluído para ser hereditário para transmitir as vantagens seletivas da sensibilidade ambiental para as gerações futuras.

Existe uma gama de modificações epigenéticas, incluindo metilação de DNA (DNAm), modificação de histona e RNAs não codificantes, que ajudam a regular a expressão genética. Especificamente, o estresse materno e o trauma têm sido associados a mudanças no DNAm do recém-nascido e à aceleração da idade epigenética, bem como indicadores de resultados de saúde piores, como diabetes.

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Trauma intergeracional

Com relação à hipótese de que marcas de DNAm associadas a traumas podem ser transmitidas para gerações futuras em humanos, tem-se ideias mais especulativas. A transmissão para as gerações F2 e F3 é considerada herança epigenética intergeracional, enquanto a transmissão para a geração F4 não exposta e além é denominada herança epigenética transgeracional.

Embora o epigenoma mamífero seja limpo da maioria das marcas de DNAm durante a gametogênese e a embriogênese para permitir a reprogramação epigenética, há marcas epigenéticas induzidas ambientalmente que resistem à reprogramação epigenética e são herdadas intergeracional e transgeracionalmente com efeitos fenotípicos.

O estudo da herança epigenética em humanos é complicado devido à dificuldade de conduzir estudos multigeracionais de experimentação, bem como à importância de fatores culturais e ambientais.

No estudo em questão, foram testadas associações entre DNAm e violência relacionada à guerra em famílias de refugiados sírios com exposições diretas, pré-natais e germinativas à violência de guerra.

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A herança do trauma – entenda como foi realizado o estudo com três gerações

Foram observadas três gerações para identificar assinaturas de DNAm de exposições à violência — exposição direta de uma pessoa viva, exposição pré-natal de um feto e exposição da linha germinativa (ou seja, células germinativas da mulher que foi exposta à violência).

Foram incluídos grupos contrastantes de famílias sírias de três gerações, atualmente vivendo na Jordânia. Os dois primeiros grupos foram expostos à violência que irrompeu durante conflitos regionais: o primeiro foi exposto ao massacre da cidade de Hama na Síria que começou em 1980, e o segundo foi exposta à revolta síria e aos conflitos armados subsequentes começando em 2011.

No grupo de exposição de 1980, as avós maternas estavam grávidas antes de fugir da Síria, o que significa que suas filhas (geração F2) foram expostas pré-natalmente e seus netos (geração F3) foram expostos na linha germinativa.

No grupo de exposição de 2011, as mães (geração F2) estavam grávidas antes de fugir da Síria, o que significa que o feto em desenvolvimento foi exposto pré-natalmente no útero, enquanto as crianças mais velhas da mesma família (geração F3) foram diretamente expostas ao conflito.

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No grupo de controle, avós e mães sírias viveram na Jordânia antes de 1980. Dados da pesquisa e amostras de esfregaço bucal foram coletados de avós, mães e crianças em cada família. O estudo incluiu 131 participantes e 48 famílias.

Os participantes suportaram experiências traumáticas violentas que incluíam ser severamente espancado, ser perseguido (pelas autoridades/milícias), ver um corpo ferido ou morto e ver outra pessoa severamente espancada, baleada ou morta.

As pontuações de Eventos Traumáticos foram calculadas como uma contagem não ponderada de respostas afirmativas a uma Lista de Verificação de Eventos Traumáticos.

Foram realizadas comparações entre os seguintes grupos:

– Exposição direta (avós de 1980, mães de 2011 e crianças mais velhas de 2011);

– Exposição pré-natal (mães de 1980 e crianças mais novas de 2011);

– Exposição da linha germinativa (crianças mais novas e mais velhas de 1980);

– Controle (avó, mães e crianças).

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Adaptado de MULLIGAN et al., 2025.

 

Houve associação entre alterações epigenéticas e violência relacionada à guerra?

O estudo avaliou posições diferencialmente metiladas (DMPs) no DNA dos participantes. Foram encontrados 32 DMPs nos 3 grupos (exposição direta, pré-natal e germinativa), sendo que a maioria dessas alterações estava reduzida nesses grupos.

Isso sugere que essas DMPs podem ter a mesma resposta epigenética à violência em todas as exposições (direta, pré-natal e germinativa), ou seja, a alteração na expressão gênica é a mesma, independente do tipo de exposição.

A maior diferença em DNAm em relação aos controles não expostos foi observada em um DMP associado à linha germinativa, em um gene relacionado à queratina – que tem um papel potencial em alguns tipos de câncer. Também foram observadas alterações em genes relacionados à apoptose celular (caspase 7), oncogenes (RAB43) e regulação da expressão gênica (RP11).

A maioria dos DMPs mostrou uma relação dose-resposta entre DNAm e o número de eventos de trauma, sugerindo que trauma adicional ou contínuo leva a mais mudanças no DNAm, em vez de um efeito limite do trauma no DNAm.

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Os autores também testaram a aceleração da idade epigenética em associação com trauma de violência. O envelhecimento epigenético é o desvio entre a idade biológica e cronológica e há evidências de que formas específicas de adversidade no início da vida podem acelerar o envelhecimento epigenético.

Ao analisar as crianças (n = 82), os autores observaram que a exposição pré-natal ao trauma da violência foi significativamente associada à aceleração da idade epigenética.

Consistente com essa interpretação, um estudo recente relatou que o abuso sexual na infância foi associado tanto à aceleração da idade epigenética quanto à trajetória acelerada do eixo HPA, sugerindo o envelhecimento epigenético e a atividade HPA como um mecanismo integrado que medeia o impacto do trauma na saúde e no envelhecimento na vida adulta.

Mais especificamente, 14 DMPs foram associados à exposição da linha germinativa à violência e 21 DMPs foram associados à exposição direta à violência.

Herança do Trauma: Evidências de Três Gerações de Refugiados Sírios

Como podemos interpretar estes achados?

Não está claro se DMPs associadas ao ambiente são constitutivamente importantes para a regulação genética e têm impactos imediatos e causais no fenótipo. Em vez disso, essas marcas epigenéticas podem permitir flexibilidade ou respostas aprimoradas a futuras experiências estressantes, um conceito conhecido como “preparação” epigenética.

Alternativamente, algumas marcas podem simplesmente servir como biomarcadores de exposições estressantes que podem ser usadas para identificar indivíduos vulneráveis ​​que se beneficiariam de programas de intervenção.

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As marcas epigenéticas associadas ao ambiente podem ter efeitos variados, estando presentes em locais sem efeito regulatório assim como em locais que desempenham um papel fundamental na regulação genética ou em locais que afetam a regulação genética apenas sob certas condições e biomarcadores passivos.

Além das DMPs associadas à linha germinativa e à violência direta, foi observada uma aceleração da idade epigenética com exposição pré-natal à violência.

Exposições no início da vida são mais fortemente associadas a diferenças de DNAm do que experiências posteriores. Há também evidências de que gerações futuras podem ser mais afetadas do que aquelas diretamente expostas. Assim, exposições pré-natais e da linha germinativa e mudanças associadas em DNAm podem ser particularmente impactantes.

Acredita-se que o envelhecimento epigenético acelerado esteja correlacionado com o envelhecimento biológico acelerado e pode ser um mecanismo subjacente para resultados de saúde relacionados à idade — ou seja, o impacto da violência pode acelerar a trajetória do envelhecimento e agravar a tragédia da exposição inicial à violência.

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Epigenética, trauma intergeracional e resiliência: implicações para políticas públicas e intervenções humanitárias

Deve haver esforços de pesquisa e intervenção focados na situação das populações afetadas pela violência. Um artigo recente solicitou uma base de evidências mais forte para a ação humanitária e propôs que “a pesquisa epigenética pode ser potencialmente benéfica para abordar algumas das questões associadas a refugiados e solicitantes de asilo”.

Uma melhor compreensão da natureza e dos efeitos de longo prazo do trauma intergeracional pode encorajar formuladores de políticas e agências humanitárias a fornecer recursos direcionados a populações vulneráveis, incluindo acesso à saúde, alojamento especial, saneamento e nutrição.

Vejamos a escala da crise global de refugiados: até o final de 2022, havia 108,4 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo, incluindo 62,5 milhões de pessoas deslocadas internamente, 35,3 milhões de refugiados e 5,4 milhões de requerentes de asilo.

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Esses resultados também podem ser aplicados a diversas sociedades que possuem altos níveis de violência interpessoal, particularmente contra mulheres.

A presença de uma assinatura epigenética hereditária de violência tem implicações importantes para abordar alguns dos problemas mais incômodos da sociedade, incluindo ciclos multigeracionais de violência, abuso e pobreza.

Especificamente, a possibilidade de que os impactos desses traumas possam ser mediados por mecanismos epigenéticos e transmitidos para gerações futuras pode mudar o escopo dos esforços de prevenção, desencorajar a “culpabilização da vítima” em casos de trauma intergeracional e estimular os formuladores de políticas a dedicarem mais recursos a programas para aliviar a violência, o abuso e a pobreza.

Deve ser reconhecida a resiliência de populações traumatizadas e marginalizadas ao redor do mundo que sobreviveram e floresceram diante da adversidade. O papel da epigenética em explicar as diferenças individuais na resiliência psicossocial tem sido pouco estudado. Uma melhor compreensão dos mecanismos epigenéticos enriqueceria o conhecimento empírico e a compreensão teórica do desenvolvimento humano.

Pesquisas futuras devem adotar uma estrutura positiva para investigar assinaturas epigenéticas de mecanismos adaptativos que fundamentam a tenacidade e a expansão bem-sucedida de populações humanas ao longo da evolução.

Herança do Trauma: Evidências de Três Gerações de Refugiados Sírios

Referências:

Mulligan, C.J., Quinn, E.B., Hamadmad, D. et al. Epigenetic signatures of intergenerational exposure to violence in three generations of Syrian refugees. Sci Rep 15, 5945 (2025). https://doi.org/10.1038/s41598-025-89818-z

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