

Já é sabido de longa data que as várias afecções maternas durante a gestação podem afetar o desenvolvimento e vida pós útero da criança. Uma nova ótica sobre esse assunto, coloca em foco que o uso de antibióticos também poderia causar malefícios às crianças. É o que uma nova metanálise está tentando demonstrar quanto ao uso de antibióticos pelas gestantes.
Efeito da antibioticoterapia durante a gestação
Estima-se que cerca de 20% a 25% das gestantes recebam pelo menos uma indicação de uso de antibiótico durante a gravidez. Dentre as afecções mais comuns na gestação, as que precisam de tratamento com antibioticoterapia em sua maioria são: vaginose, infecção do trato urinário (ITU), sífilis, e infecção por Streptooccus do grupo B beta hemolítico (GBS).
Os antibióticos representam aproximadamente 80% de todas as medicações consumidas pelas gestantes, os quais alteram o microbioma intestinal materno, causando uma disbiose (desequilíbrio de bactérias). Essa disbiose pode influenciar a criança tanto na fase intraútero quanto imediatamente após o parto.
Na hipótese intraútero, a exposição fetal aos produtos bacterianos e metabólitos ocorre daqueles advindos da circulação materna. Já ao nascimento, as microbiotas vaginal e fecal da mãe são determinantes para a colonização precoce do trato gastrointestinal infantil, portanto uma disbiose materna pode ser herdada pelo feto.
Essa herança pode ter grandes implicações na vida da criança. Isto porque esse período é uma janela de desenvolvimento imunológico importante, com posterior tolerância imunológica pelas interações microbiota – sistema imune.
Sabe-se que crianças com uma baixa diversidade de microbioma nos 3 primeiros meses de vida têm uma população de células imunes que divergem significativamente das de crianças saudáveis.
Porém, alguns artigos estudados refutam essa ideia de ligação dos antibióticos e desenvolvimento de atopias, mudando o foco para a maior propensão da mãe a contrair infecções, do que propriamente o uso dos medicamentos.
Atopia
A marcha atópica refere-se a uma progressão de doenças alérgicas que se desenvolvem no curso da infância. Classicamente, a progressão se inicia com dermatites/eczema -> alergias alimentares -> sibilância -> progredindo para asma e/ou rinite alérgica.
Um elo dessas doenças é a tendência de sensibilização após exposição a determinadas proteínas, o que culmina na produção de anticorpos IgE.
A etiologia certa ainda é pobre de entendimento, mas as evidências apontam que uma soma de fatores genéticos e ambientais contribuem para essa suscetibilidade, especialmente no desenvolvimento pré-natal ou início da vida.
Um estudo recente buscou investigar se o uso de antibióticos pela mãe poderia resultar em alterações na vida da criança. O grupo de pesquisadores realizou uma metanálise avaliando a exposição pré-natal a antibióticos e o risco de sibilos ou asma na infância, bem como de doenças associadas à marcha atópica.
Exposição pré-natal a antibióticos, asma e marcha atópica: uma revisão sistemática e metanálise
Nesse trabalho de maio desse ano, foram inseridos ensaios clínicos controlados com o uso de qualquer antibiótico, a qualquer momento da gestação, e a incidência de doenças atópicas ou asma em crianças. Foram excluídos da análise as revisões, os dados pré-clínicos e estudos descritivos.
Das 6.060 citações, apenas 27 estudos atenderam aos critérios de seleção dos autores, sendo 11 estudos prospectivos e 16 retrospectivos, publicados entre 2002 e 2020. A coleta dos dados de exposição a antibióticos pré-natal foi feita por meio de questionários não-supervisionados de entrevistas médicas ou extraídas de bancos de dados médicos oficiais.
Resultados encontrados por análise de subgrupos
Veja os principais achados do trabalho:
- Trimestre gestacional: Dos 27 estudos, 11 coletaram o dado de trimestre em que foi realizado o antibiótico, chegando à conclusão de que os medicamentos ministrados no terceiro trimestre de gestação tiveram uma associação significativa com sibilância, enquanto para a asma não houve relevância de trimestre de administração (todos os trimestres tiveram ligação com desenvolvimento de asma).
- Classe do antibiótico: Apenas 6 estudos coletaram o tipo de antibiótico administrado, o que revelou que todas as classes, com exceção das Cefalosporinas (pelo intervalo de confiança – IC: 0,92 – 1,74), mostraram associação com o aumento do risco de asma na infância. São elas: Penicilinas (IC: 1,19 – 1,36); Macrolídeos (IC: 1,16 – 1,59); Sulfonamidas/trimetropim (IC: 1,11 – 1,46); Nitrofurantoína (IC: 1,01 – 1,334) e Cloranfenicol (IC: 1,18 – 2,65). Porém, como os dados são reduzidos, essas informações devem ser interpretadas com cautela.
- Sensibilização atópica: Um dos estudos avaliados identificou associação da exposição pré-natal a sensibilização atópica aos 4 anos de idade, definido pela positividade de anticorpos IgE específicos (IC: 1,11 – 2,22).
- Alergia alimentar: só um estudo dos 27 incluiu uma associação significante com alergia alimentar e antibioticoterapia gestacional. Risco Relativo: 1,81.
- Eczema/dermatite: Cinco estudos associaram o risco da doença inflamatória crônica recidivante à exposição (IC: 1,06 – 1,53). Risco Relativo: 1,28.
- Rinite alérgica: Apenas 3 dos estudos acharam associação com a administração dos antibióticos (IC: 1,02 – 1,25). Risco relativo: 1,13.
- Sibilância: Nove estudos demonstraram associação com o antibiótico na gestação (IC: 1,17 – 1,94). Risco Relativo: 1,51.
- Asma: Vinte estudos demonstraram uma forte associação da asma com antibioticoterapia pré-natal (IC: 1,22 – 1,34), sendo que em 18 dos 20 estudos essa relação é estatisticamente significante. Risco Relativo: 1,28.
Uma pergunta que foi elencada pelos pesquisadores é: quanto tempo a microbioma intestinal materna permanece disbiótica?
Pesquisas recentes têm demonstrado que algumas espécies bacterianas intestinais que eram detectadas antes da administração de antibióticos ainda não eram detectáveis após 9 meses de concluído o tratamento. Esses estudos oferecem suporte à ideia de que o uso de antibióticos durante a gestação pode eliminar bactérias específicas que são particularmente importantes para o desenvolvimento infantil.
Conclusões
Este estudo tem uma grande relevância na decisão de uso de antibioticoterapia durante todo o período pré-natal, devido às possíveis interferências no sistema imune infantil culminando em progressão da marcha atópica e asma.
Apesar disso, como há alta heterogeneidade entre os estudos e falta de números nas amostragens, a qualidade geral de evidência pode ser considerada baixa. Além disso, os autores elencam que outras limitações da pesquisa foram as populações predominantemente brancas e europeias, e os estudos com baixo poder estatístico, além de inconsistências nos protocolos usados pelos estudos.
Sendo assim, novos métodos de acompanhamento e análise, com maior detalhamento de dados e protocolos, ainda se fazem necessários para uma conclusão mais assertiva sobre a relação demonstrada.
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Referências:
Cait A, Wedel A, Arntz JL et al. Prenatal antibiotic exposure, asthma, and the atopic march: A systematic review and meta-analysis. Allergy, May 13, 2022. DOI: 10.1111/all.15404. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/all.15404
Lorraine L. Janeczko. Antibióticos durante a gestação podem elevar o risco de asma e outras doenças atópicas em crianças. 4 de julho de 2022. Medscape. https://portugues.medscape.com/verartigo/6508180